Médicos italianos erram ao dizer nas redes que novo coronavírus perde força

Afirmação não tem respaldo científico e foi desautorizada por autoridades sanitárias da Itália

São enganosos os vídeos e textos com comentários feitos por dois médicos da Itália a respeito da possibilidade de o novo coronavírus estar “perdendo força”. Este conteúdo tem circulado na internet e nas redes sociais acompanhado de afirmações segundo as quais o vírus “não existe mais” e os novos casos teriam se abrandado. As falas dos médicos são reais, mas não têm respaldo científico e foram desautorizadas por autoridades sanitárias da Itália.


Conforme verificado pelo Comprova, os médicos em questão são Alberto Zangrillo –ligado ao ex-primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi–, e Matteo Bassetti. Após as manifestações da dupla, diferentemente do que foi veiculado em postagens, o presidente do Conselho Superior da Saúde rechaçou os comentários e se disse “consternado” com as entrevistas.

Os médicos também receberam críticas de pessoas ligadas ao Ministério da Saúde italiano por não apresentarem evidências científicas sobre suas argumentações.

O Comprova verificou esses conteúdos pois eles se inserem em uma lista de materiais que circulam com o intuito de minimizar a pandemia de Covid-19. O potencial negativo dessas postagens é significativo, pois podem ter como resultado uma desmobilização da sociedade diante da necessidade de manter o isolamento social e medidas de higiene para combater o vírus, para o qual não há cura ou vacina.

Pessoas de máscara na estação de trem Termini, em Roma, e mantêm distância
Passageiros na Estação Termini, em Roma, no dia 3 de junho, quando o governo liberou circulação entre regiões e abriu suas fronteiros à União Européia - Xinhua/Cheng Tingting

Um dos médicos citados nas postagens, o italiano Alberto Zangrillo é anestesista, trabalha no hospital San Raffaele e é professor da Universidade Vita-Salute San Raffaele, ambos em Milão. Ele é uma figura conhecida na Itália. É médico pessoal do ex-primeiro ministro Silvio Berlusconi, de quem é próximo e com quem esteve, inclusive, em campanhas políticas. Crítico do atual primeiro-ministro, Giuseppe Conte, Zangrillo já foi acusado de fraudar o sistema de saúde italiano e também ocupou cargos públicos no país.

Franco Locatelli, presidente do Conselho e membro do Comitê Técnico-Científico, criado pelo primeiro-ministro Giuseppe Conte para o combate da pandemia, disse em entrevista à agência Ansa sentir um “absoluto desconcerto” pelas declarações dos médicos. Locatelli afirmou ainda que o número de novos casos diários é uma demonstração que a circulação do novo coronavírus persiste no país e que é preciso ter cuidado com “declarações perigosas”, que arriscam desestimular a mobilização social em relação às medidas de combate ao vírus.

Médico de gorro e uniforme sorri em ambiente de sala de cirurgia
Professor Alberto Zangrillo, em um hospital de Milão, em foto sem data - Reuters

Segundo o Comprova também apurou, no dia 3 de junho, data em que os italianos puderam voltar a circular pelas regiões do país e as fronteiras foram abertas para os países da União Europeia, o Ministério da Saúde italiano publicou um comunicado alertando que “a batalha ainda não foi vencida”. Segundo o ministro da Saúde, Roberto Speranza, que recomendou atenção e cautela aos italianos e destacou o sacrifício dos italianos no combate à doença, “o vírus ainda é muito perigoso”.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

A investigação desse conteúdo foi feita por UOL e Nexo e publicada na quinta (4) pelo projeto Comprova, coalizão que reúne 24 veículos na checagem de conteúdos sobre coronavírus. Foi verificada pela Folha,  Piauí, SBT, A Gazeta e Jornal do Commercio. 

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