Descrição de chapéu Coronavírus Ao Vivo em Casa

Pensando apenas no lado da saúde, o ideal seria não reabrir agora, diz Marcos Boulos

Durante live da Folha, infectologista afirmou que Bolsonaro expõe pessoas à morte

São Paulo

Pensando apenas na questão sanitária, a reabertura gradual de São Paulo deveria esperar um pouquinho mais. A afirmação é de Marcos Boulos, professor da faculdade de medicina da USP e integrante do comitê de contingenciamento do novo coronavírus no estado.

Boulos participou, nesta quarta-feira (3), do Ao Vivo em Casa, série de lives da Folha (com transmissão ao vivo). A conversa foi mediada pelo jornalista Emilio Sant'Anna, de Cotidiano.

Ele, que é infectologista, vê com restrições o plano de reabertura e explica que o ideal seria não abrir agora e manter a quarentena por cerca de três semanas a um mês para que o estado atinja o pico de contaminações, quando será mais fácil controlar a doença.

“Se for pensar numa epidemia e não nas vidas, o ideal é deixar a epidemia ocorrer e acabar. Se isso tivesse sido feito, certamente, a epidemia já teria acabado. Mas, o número de mortes seria muito muito maior, cerca de dez vezes mais pessoas”, diz ele.

Para Boulos, o presidente Jair Bolsonaro expõe pessoas à morte. Segundo ele, “quando se tem um político que faz um discurso contra isolamento, acaba expondo a população e muitos deles que estão do lado dele ficarem doentes e morrerem diretamente responsabilizados pela conduta política”.

O médico também afirma que o presidente “confunde política com saúde, assim como seus seguidores, o que não é adequado”. Ele cita países que tiveram bons resultados da luta contra o coronavírus, como China, Coreia e Singapura, e acredita que tenha o controle por lá seja resultado de medidas adequadas e em comum para todo o país.

“Virou chacota até do que a imprensa internacional fala do que acontece aqui no Brasil, porque há recomendações e o presidente faz exatamente o contrário”, diz Boulos que analisa que os estados sentem a falta de gestão do Ministério da Saúde.

“Por aqui, é cada um por si”, define o médico que acredita que a pasta deveria ter sido o ponto principal de observação no controle da doença. “Não temos liderança sanitária, as pessoas que conduziam esse processo de maneira relativamente adequadas saíram.”

Sobre as discussões sobre o uso de hidroxicloroquina para pacientes com Covid-19, ele diz que é preciso tempo para que sejam avaliados os remédios de forma laboratorial.

saude marcos boulos
Infectologista Marcos Boulos, professor da Faculdade de Medicina da USP e integrante do comitê de contingenciamento do novo coronavírus, que reúne os maiores especialistas em doenças contagiosas do estado de São Paulo - Núcleo de Imagem

“Você acha que vai existir um remédio milagroso para uma doença que surgiu há quatro meses? É puro achismo. Não só na cloroquina, mas em qualquer um que falamos agora”.

Nesse momento, Boulos acredita que não há nenhum medicamento com algum grau de confiabilidade para se usar nesse vírus. “Ainda é muito cedo. Pode ser que no futuro tenhamos.”

O mesmo ele diz em relação ao possível surgimento de vacinas. “Toda a estratégia de produção de um agente é preciso de anos de estudo, de pesquisas. Mesmo que se consiga um agente que produza anticorpos, é preciso calma, já vi várias vacinas produzirem anticorpos que, quando são dada à população, não protegem em nada.”

Aos trabalhadores que voltam à labuta na reabertura gradual, o médico afirma que é necessário que, além da constante lavagem de mãos, seja mantido o uso de máscaras e acredita que seria adequado se todos os estabelecimentos pedissem às pessoas que usassem máscaras.

Boulos também recomenda que, ao retornarem do trabalho para casa, as pessoas troquem de roupas.

Ainda sobre a reabertura, ele alerta que as pessoas não devem retornar aos comércios e shoppings a passeio. “Se for a algum lugar, é porque necessita. Faz a compra e vai embora, não é para ficar por lá.”

Sobre uma possível segunda onda de contaminações, o médico afirma que é possível que ocorra. Porém, se isso acontecer, ele não prevê que seja de forma epidêmica, pois, após atingir um pico de casos, geralmente é algo muito mais controlado.

E, afinal, a pandemia pode trazer algum legado para a medicina? O infectologista diz que, claro, a doença é horrível, mas é quando ela acontece que se consegue ter uma estrutura de saúde. “O legado talvez seja uma melhor situação de atendimento e profissionalização melhor até da vigilância.”

Ele concluiu que, durante a pandemia, “hospitais foram montados, contratou-se recursos humanos. Até a demora da chegada, que começou no hemisfério Norte, nos permitiu que ficássemos mais preparados. Aqui, não houve casos na Itália em que foi preciso escolher quem vai ser tratado porque deu tempo de nos preparar.”

As transmissões do Ao Vivo em Casa têm exibição tanto no site da Folha quanto no canal do jornal no YouTube. De segunda a sexta-feira, a série de lives traz entrevistas, serviços, dicas e apresentações musicais, entre outros conteúdos, pela internet.

PROGRAMAÇÃO DAS LIVES

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