Descrição de chapéu Coronavírus

The Lancet faz retratação de estudo que apontava maior risco de morte associado à hidroxicloroquina

Retirada ocorre após questionamentos sobre dados; outros estudos observaram risco e não encontraram eficácia da droga

São Paulo

A revista científica The Lancet publicou uma retratação que anula a validade do estudo com dados de 96 mil pessoas internadas com Covid-19 publicado recentemente, que mostrava que quem havia tomado hidroxicloroquina ou cloroquina apresentava maior risco de arritmia e morte em comparação com pacientes que não usaram a droga.

O estudo é alvo de uma série de críticas sobre inconsistências nos dados hospitalares apresentados, obtidos através da empresa Surgisphere. Segundo o jornal The Guardian, a companhia desconhecida americana conta com pessoas sem formação em dados ou em ciência no seu quadro de funcionários.

A retratação ocorre após a tentativa de auditoria externa de dados, o que não foi possível porque a empresa Surgisphere não aceitou transferir a base de dados de completa usada, alegando que isso viola acordos de confidencialidade com clientes.

Com isso, não foi possível conduzir uma revisão independente dos dados publicados.

"Não podemos nos esquecer nunca da responsabilidade que temos como pesquisadores de assegurar escrupulosamente que nos baseamos em fontes de dados que respeitam os mais elevados padrões de qualidade", afirmam três dos autores do estudo alvo da retratação —o quarto é Sapan S Desai, parte da Surgisphere. "Nós não podemos atestar a veracidade das fontes primárias dos dados em questão."

A conclusão do artigo publicado no Lancet de aumento do risco de morte associado ao uso de cloroquina levou a OMS (Organização Mundial da Saúde) a suspender temporariamente seus testes com a droga no estudo multicêntrico Solidarity.

Pouco tempo depois, segundo a cientista-chefe da OMS, Soumya Swaminathan, o comitê independente que avaliou os dados obtidos até agora pelo Solidarity e por outros estudos não viu indícios de que a hidroxicloroquina esteja relacionada a maior mortalidade, o que permitiu a retomada dos experimentos.

No dia 29 de maio, a Lancet já havia publicado uma correção do estudo, mas afirmou que os resultados permaneciam. Na quarta (3), a revista publicou um "expression of concern" ("expressão de preocupação") sobre a pesquisa. "Questões científicas importantes foram levantadas sobre os dados no estudo. Apesar de uma auditoria independente sobre a origem e a validade dos dados ter sido requisitada pelos autores não afiliados à Surgisphere e estar em curso, com resultados esperados em breve, estamos publicando uma Expressão de Preocupação para alertar os leitores para o fato de que questões sérias foram trazidas à nossa atenção. Vamos atualizar este aviso assim que tivermos mais informações."

Também houve retratação de outro estudo, publicado no The New England Journal of Medicine, que utilizou dados da Surgisphere. A pesquisa em questão avaliava a relação de eventos cardíacos em pacientes internados com Covid-19 e medicamentos.

Essa retratação também ocorreu porque as bases de dados não puderam ser acessadas por um auditor independente.

Ambas as pesquisas retiradas eram estudos observacionais. Ou seja, foram feitas análises de dados de pacientes que tinham sido tratados anteriormente.

Ensaios clínicos randomizados (em que os pacientes são escolhidos aleatoriamente para receber uma droga), duplo-cegos (médico e paciente não sabem o que estão dando ou tomando, respectivamente) e controlados (com um grupo chamado controle, que toma placebo) são considerados o padrão-ouro em evidência científica.

Um estudo sobre hidroxicloroquina contra Covid-19 com esse desenho padrão-ouro foi publicado na quarta na revista The New England Journal of Medicine. Os pesquisadores analisaram 821 pessoas que tiveram exposição de risco alto ou moderado ao novo coronavírus, o que significa ter tido proximidade com pacientes com Covid-19.

Os cientistas concluíram que a hidroxicloroquina não é capaz de proteger pessoas recém-expostas ao novo coronavírus, a chamada profilaxia pós-exposição.

Outros estudos, a maior parte deles observacional, também não encontraram eficácia da hidroxicloroquina, seja ela associada ou não à azitromicina, contra a Covid-19.

Um deles, também publicado no The New England Journal of Medicine, utilizou dados de 1.376 pacientes que tinham sido tratados no Hospital Presbiteriano de Nova York (que é associado à Universidade Columbia e à Weill Cornell Medicine). Os pesquisadores não observaram redução de mortalidade ou de intubação nas pessoas que receberam hidroxicloroquina, quando comparadas ao grupo que não tomou a droga.

Outra pesquisa, publicada no Jama (Journal of the American Medical Association), com 1.376 pacientes de Nova York também não observou redução de mortalidade por Covid-19 entre os pacientes que receberam a droga.

Ao mesmo tempo em que os estudos apontam que a hidroxicloroquina não tem efeito benéfico contra a Covid-19 e que pesquisadores e entidades científicas afirmam que o seu uso deve ocorrer somente em pesquisas clínicas com acompanhamento, o governo Jair Bolsonaro (sem partido) insiste em apostar na droga para o enfrentamento à pandemia.

A pressão por um protocolo de cloroquina para casos leves (o que pode implicar em uso sem acompanhamento médico) levou à demissão do ex-ministro da Saúde, Nelson Teich, que afirmava que a mudança não era correta e não tinha amparo cientifico. A nova regra foi publicada pouco tempo depois da saída de Teich.

No domingo (31), foi anunciado que os EUA vão enviar 2 milhões de doses de hidroxicloroquina para o Brasil. O presidente americano Donald Trump é um dos que defendem, mesmo sem evidências científicas que sustentem a ideia, o uso da cloroquina contra a Covid-19. As suas afirmações a respeito da droga foram ecoadas no Brasil por Bolsonaro.

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