O que fazer ao usar um banheiro público durante a pandemia da Covid-19

Veja comportamentos que ajudam a se proteger do novo coronavírus

Jen Gunter
The New York Times

Pode parecer que você está num corredor polonês quando usa um banheiro público, especialmente depois da notícia da semana passada sobre a "nuvem do toalete", feita de gotículas que podem subir até 1 metro e pairar tempo suficiente para ser inaladas pelo próximo usuário do banheiro, ou pousar nas superfícies do recinto.

Então o que fazer, especialmente agora que muitas pessoas começam a sair mais de casa? Devemos evitar os toaletes públicos —em parques, shopping centers ou restaurantes recém-abertos— como se fossem a praga?

Como obstetra e ginecologista, passei muito tempo desfazendo o mito de que é possível pegar uma doença sexualmente transmissível (DST) em um assento de banheiro (porque é impossível; nem mesmo herpes, que é o mito mais comum). Mas e o o novo coronavírus?

Em primeiro lugar, quão infecciosos são realmente os banheiros?
Sabemos que podem ser infecciosos pelo toque. Nós potencialmente contaminamos tudo o que tocamos com micróbios que vêm das fezes, como norovírus e E. coli, antes de lavarmos as mãos.

Os banheiros também podem ser infecciosos pelo ar. Com alguns vírus respiratórios, como o influenza, se houver partículas infecciosas suficientes no ar, respirar num espaço que já foi usado por alguém pode ser um risco. O melhor exemplo é o sarampo. Se uma pessoa com sarampo entrar num espaço, o ar ficará potencialmente infeccioso durante duas horas.

Os banheiros têm outro risco único: os borrifos do vaso sanitário. A cada descarga, o toalete libera um exército invisível de micróbios no ambiente, onde pousam nas paredes (que você pode tocar enquanto se inclina sobre o assento --mais sobre isso à frente), no assento do vaso sanitário, no piso e nas maçanetas das portas.

Conhecemos a "nuvem do banheiro" há algum tempo. Um novo estudo sugere que partículas potencialmente infecciosas pairam no ar durante cerca de um minuto após cada descarga, e os vasos sanitários podem continuar gerando nuvens infecciosas várias descargas após a descarga contaminada original.

É realmente o presente indesejável que ele continua dando.

So what to do, especially now that many of us are starting to leave home a little more? Should we avoid shared restrooms ? in parks, malls or recently reopened restaurants ? like, well, the plague? (Claire Milbrath/The New York Times) -- NO SALES; FOR EDITORIAL USE ONLY WITH NYT STORY VIRUS PUBLIC BATHROOMS BY JEN GUNTER FOR JUNE 24, 2020. ALL OTHER USE PROHIBITED. --
Claire Milbrath/The New York Times

E o coronavírus?
Em geral, não se acredita que o contato com superfícies contaminadas seja o principal método de infecção por coronavírus, mas isso ainda foi pouco estudado. Embora os banheiros compartilhados possam aumentar a propagação de infecções gastrointestinais, não sabemos que papel eles desempenham na transmissão de um vírus respiratório como o coronavírus, que também foi identificado nas fezes.

Também não sabemos o risco (se houver) causado pelos borrifos de coronavírus na nuvem do banheiro, portanto, é certo que há muitas incógnitas.

O que sabemos é que existem certos comportamentos no banheiro que ajudam a proteger as pessoas de muitos micróbios nefastos.

Aqui está uma lista de verificação prática para usar banheiros compartilhados:

  • As melhores defesas contra contaminação no banheiro são uma máscara, o distanciamento social, limitar as superfícies que você toca com as mãos e higienizar as mãos.
  • Prefira usar banheiros maiores com várias cabines, porque eles têm maior circulação de ar.
  • Se alguém sair de uma cabine ou de um banheiro individual antes de você, tente esperar pelo menos 60 segundos antes de entrar --especialmente se a tampa do vaso estiver aberta, o que significa mais nuvem.
  • Não use as coberturas de papel para o vaso sanitário. Elas provavelmente são placebo --não temos ideia se oferecem proteção contra bactérias ou vírus-- e podem facilmente ser contaminadas com a nuvem do banheiro; portanto, tocá-las com as mãos pode ser uma fonte de transmissão infecciosa. (Elas praticamente não existem em outros países --nunca as tivemos no Canadá, onde cresci, e, quando me mudei para os Estados Unidos, pareciam muito puritanas.)
  • Se você precisar descartar um produto menstrual em um daqueles pequenos recipientes, levante a tampa com um chumaço de papel higiênico e depois higienize as mãos. Essas tampas estão entre as piores superfícies do banheiro: tocadas por muitas mãos não lavadas e banhadas com nuvens infecciosas.
  • Se o vaso sanitário tiver tampa, feche-a antes de dar a descarga, para prender a nuvem. Pense na tampa como uma máscara para o banheiro.
  • Se um banheiro automático estiver dando descarga, dê um passo para trás, porque essas coisas borrifam.
  • Como você seca as mãos após a lavagem não importa muito —toalhas de papel ou secadoras a ar provavelmente são iguais. Mas evite toalhas de mão compartilhadas e reutilizáveis.
  • Saia de lá rapidamente. Conversar no banheiro é o novo hábito de fumar no banheiro —uma relíquia do passado. Se você precisar abrir uma porta para sair, use um desinfetante para as mãos depois de sair.


Mas e se você não conseguir encontrar um banheiro ou aquele que você achar estiver nojento?
Primeiro, tente evitar a necessidade de um banheiro. Se você for sair, modifique sua ingestão de água. Lembre-se, oito copos de água por dia é um mito.

Para as mulheres: você pode tentar contrair e relaxar os músculos do assoalho pélvico muito rapidamente (cada contração e relaxamento deve levar de um a dois segundos) cinco vezes. Estes são chamados movimentos rápidos e relaxam a bexiga, suprimindo o desejo. Isso pode lhe dar algum tempo.

Ir ao banheiro ao ar livre deve ser o último recurso. Se todo mundo começar a usar o exterior como banheiro, o cheiro de urina será intolerável e as pessoas ficarão doentes desnecessariamente porque o saneamento adequado é vital para conter muitas doenças infecciosas.

Se você for pego ao ar livre sem outra opção além do solo, tente se afastar 60 metros do tráfego de pessoas --e tome cuidado com plantas como a urtiga! Use desinfetante para as mãos quando terminar.

E que Deus nos ajude o banheiro do avião?
Os banheiros de avião são dos piores que existem. Em um voo longo, eles podem ficar muito tempo sem ser limpos; também são apertados, e a turbulência pode causar borrifos de água ou urina.

Às vezes, você nem precisa usar um banheiro de avião para se expor aos germes que podem ser encontrados neles. Em um estudo, os passageiros sentados nos assentos do corredor podem ter sido infectados por um passageiro indisposto enquanto percorria o trajeto até o banheiro e voltava.

Não sabemos o risco de pegar a Covid-19 por entrar no banheiro de um avião logo depois de alguém infectado com o coronavírus, mas, como mencionei acima, você deve esperar para entrar num banheiro do qual alguém acaba de sair --especialmente se o assento do vaso estiver levantado--, e depois saia rápido.

A indústria de aviação gosta de dizer que seus banheiros são tão limpos quanto os de qualquer prédio comercial (dados parcialmente financiados pela indústria). E provavelmente são tão limpos quanto qualquer banheiro com uma proporção de instalação por usuários entre 1:50 e 1:75, e onde o banheiro e a pia estão em um pequeno armário exposto a turbulências e limpo a cada quatro a 18 horas.


E, por favor, sente-se (ou levante-o).
Eu tenho um pedido final, particularmente às mulheres (até 85% delas relatam evitar isso): por favor, sentem-se. Sentar-se diretamente no assento do vaso sanitário não vai colocá-la em risco de uma DST, portanto, não fique só inclinada sobre o vaso. Isso geralmente deixa urina no assento, o que significa que você ou a próxima pessoa precisarão limpar o assento do vaso --a superfície com maior exposição à nuvem infecciosa-- antes de se sentar. Isso também vale para os que ficam de pé: por favor, levantem o assento.

Aqui está uma regra de ouro para a etiqueta do banheiro compartilhado, hoje e sempre: não pense só em
você, mas nas sete pessoas ou mais que o usarão depois de você.

A doutora Jen Gunter é obstetra e ginecologista e trabalha na Califórnia. Ela escreve The Cycle, coluna sobre saúde feminina publicada em Styles. Também é autora de "The Vagina Bible".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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