Estudo aponta segurança da vacina, e Doria quer aplicação em dezembro

Trunfo político do tucano, imunizante chinês teve efeito colateral leve só em 5,3% de 50 mil voluntários

São Paulo

A Coronavac, imunizante contra a Covid-19 criado pela chinesa Sinovac e que será produzida em conjunto no Brasil pelo Instituto Butantan, se mostrou segura em seu teste da chamada fase 3 em 50 mil voluntários na China.​​

Doria mostra uma embalagem com a vacina Coronavac, durante entrevista no Hospital das Clínicas
Doria mostra uma embalagem com a vacina Coronavac, durante entrevista no Hospital das Clínicas - Zanone Fraissat - 21.jul.2020/Folhapress

Os dados foram adiantados pela Folha e apresentados nesta quarta (23) pelo governador João Doria (PSDB), o diretor do Butantan, Dimas Covas, e um representante da farmacêutica chinesa.

Já os resultados sobre a eficácia, que nas fases anteriores foram considerados satisfatórios, devem estar prontos em novembro. Se esse cronograma se mantiver sem percalços, a expectativa no governo paulista é de uma liberação para vacinação na segunda quinzena de dezembro.

Segundo o estudo chinês, houve apenas 5,36% de efeitos colaterais nos participantes do ensaio, todos sem gravidade: dor no local da aplicação (3,08%), fadiga (1,53%) e febre leve (0,21%). Os restantes tiveram perda de apetite, dor de cabeça e febre.

“A segurança e eficácia são dois dos principais fatores para comprovar se uma vacina está pronta para uso emergencial na população. Estamos muito otimistas com os resultados que a Coronavac apresentou até o momento", afirma Covas.

A Sinovac testa seu imunizante em 10 países, e foi aprovada para vacinação emergencial no seu país de origem. No Brasil, 5.600 dos 9.000 voluntários em 12 centros de pesquisa de cinco estados e do Distrito Federal já receberam ao menos uma dose da vacina.

Se a Coronavac se provar eficaz, São Paulo irá protocolar na Anvisa, a agência de vigilância sanitária do governo federal, um pedido para liberação emergencial da campanha de vacinação.

Apesar de a vacina ser um trunfo político para Doria, adversário do presidente Jair Bolsonaro e potencial rival em 2022, no governo paulista a avaliação é de que a Anvisa não irá travar o processo de liberação.

Doria estocou Bolsonaro em sua entrevista coletiva. "O negacionismo da pandemia e no meio ambiente agrava as consequências", afirmou, em relação ao discurso do presidente na véspera nas Nações Unidas.

Os primeiros a serem vacinados serão os profissionais de saúde, segundo o governador.

Um lote de 5 milhões de vacinas chegará da China em outubro. Até dezembro, haverá 6 milhões de doses importadas prontas e outras 40 milhões formuladas a partir de insumos chineses no Butantan, o que cobre toda a população paulista.

"Teremos 60 milhões de doses até 28 de fevereiro, mais que suficiente. Vamos vacinar os brasileiros de São Paulo e, espero, os brasileiros de todo o Brasil", disse o governador.

Esse volume, disse Covas, será atingido porque foi negociado o adiantamento de 15 milhões das 55 milhões de doses que a Sinovac irá fornecer até maio de 2021.

Depois da vacinação em São Paulo, se o imunizante estiver aprovado, o plano é ofertar a Coronavac para outros estados e até países da região.

A nova fábrica de vacinas do Butantan começará a ser construída no mês que vem, e terá capacidade para produzir 100 milhões de doses anuais.

A distribuição fora de São Paulo pode ocorrer em acordos pontuais ou depender de um arranjo com o governo Bolsonaro.

O secretário de Saúde paulista, Jean Gorinchteyn, se encontrou com o ministro Eduardo Pazuello nesta quarta para discutir o fornecimento de 40 milhões de doses para a União. Segundo Doria, ficou acertada a liberação de R$ 80 milhões para a fábrica nova.

Bolsonaro já fez críticas à vacina chinesa. Doria, sem citá-lo, disse: "Aqui não discutimos a origem da vacina. Não estamos numa corrida pela vacina, e sim pela vida". Na sequência, afirmou torcer por "todas as vacinas".

Ocorre que, além da rixa política que pode atrapalhar o plano, o Ministério da Saúde já tem um contrato para fabricação na Fundação Oswaldo Cruz da vacina inglesa da empresa AstraZeneca e da Universidade de Oxford.

Aí o problema é de outra natureza. A vacina inglesa também está em testes da fase 3, mas houve já duas interrupções nos ensaios devido ao surgimento de efeitos colaterais graves localizados em duas pessoas.

Os testes continuam. A vantagem da Coronavac sobre a inglesa é que ela utiliza uma tecnologia antiga e comprovada para provocar a resposta imune, utilizando o novo coronavírus desativado. É assim que funcionam imunizantes contra a gripe, por exemplo.

Já a inglesa apostou em uma tecnologia nova, na qual material genético do Sars-CoV-2 capaz de estimular a imunidade é transportado usando um adenovírus que causa gripe em macacos.

Essa técnica é vista como arriscada por um concorrente de ambas as vacinas, o Instituto Gamaleya, da Rússia. Fabricante da vacina Sputnik V, já em produção concomitante a testes, o laboratório usa no seu produto um adenovírus humano para o transporte —algo já feito em um imunizante contra o vírus ebola e em tratamentos para câncer.

Se tudo der certo, São Paulo será um dos primeiros lugares do mundo a ter uma campanha de vacinação. contra a Covid-19, que matou 34 mil paulistas até aqui, o maior contingente dos 137 mil óbitos no país. A China e a Rússia pretendem começar suas campanhas antes do fim do ano.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) adota cautela, afirmando que é preciso ter certeza da segurança e eficácia dos produtos com amplos estudos. E diz que uma imunização global poderá demorar até dois anos, se não mais.

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