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Vacinação privada traz benefício econômico e agilidade para o SUS, diz médico do Einstein

Para Claudio Lottenberg, setor deve manter uma agenda de prioridades

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O anúncio de que o setor privado negocia a compra de uma vacina indiana contra a Covid-19 tem dividido os especialistas em saúde entre os que veem a medida como benéfica ao SUS e os que a consideram uma “imoralidade” dentro do contexto de uma pandemia que já matou quase 200 mil pessoas e diante da escassez de doses.

O oftalmologista Claudio Lottenberg, 60, presidente do conselho deliberativo da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein e do Instituto Coalizão Saúde, afirma que o setor privado a saúde poderia estimular o processo de vacinação contra a Covid-19 no país e, com isso, trazer mais benefícío econômico e agilidade ao SUS.

Segundo ele, ​o governo deveria entender que o setor privado é de grande valia e, com ele, tentar uma organização para dar conta da vacinação de uma parte da população, a que tem planos de saúde, de forma rápida e eficiente.

O médico Claudio Lottenberg, da Sociedade Israelita Albert Einstein - Greg Salibian/Folhapress

No entanto, Lottenberg considera que é possível que, num determinado momento, esse arranjo resulte em algum tipo de injustiça, como pessoas que não são dos grupos prioritários, mas que têm recursos, serem vacinadas antes da população mais vulnerável. "Eu preferiria correr o risco de cometer alguma injustiça pontual do que correr o risco de cometer a maior das injustiças, que é não vacinar ninguém."

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A oferta da vacina contra a Covid-19 no setor privado cria uma disputa com o SUS em um momento em que há escassez no mundo todo? Se a gente falasse de um país ideal, bem estruturado, com uma liderança de saúde respeitada e que tenha se preparado apesar das dificuldades de uma pandemia, eu diria que [a oferta no privado] seria algo bastante questionável.

O fato é que a gente vive em uma situação que é o oposto disso, com uma estrutura absolutamente caótica, uma liderança sem compromisso, que utiliza informações totalmente equivocadas com mero protagonismo de natureza política, atrapalhando a ciência.

É nesse vácuo que o setor privado decidiu atuar na busca da vacina? Existe um setor da sociedade, legitimamente atendido, inclusive sob o plano constitucional, que é o setor suplementar da saúde, que está querendo de alguma forma estimular o processo de vacinação.

Isso é de todo ruim? Não. Isso é bom. De certa forma, traz benefício econômico para o SUS, traz agilidade. Se considerar só o pessoal da saúde suplementar, seria um quarto das pessoas do nosso sistema de saúde.

Portanto, [vacinar esse público] é uma forma de a gente poder ter o efeito de imunidade de rebanho mais rapidamente. A questão é: serão respeitados os critérios de eleição dentro daquelas populações consideradas vulneráveis?

Se por acaso o Estado não se mobilizar, se as lideranças governamentais não se posicionarem, aí estará o grande o risco. Porque, de fato, pode haver o protagonismo de uma vantagem de natureza mercantil. Para uma situação de pandemia, talvez isso não seja o mais desejado.

Agora, o setor privado participar dos processos de vacinação faz parte da história do nosso país. Não há nada de novo.

O que poderia ser feito para minimizar os riscos? Seguir o Plano Nacional de Vacinação, por exemplo? Eu acho que o plano precisaria ter uma posição forte, por parte da liderança governamental constituída, o que é muito problemático. O ministro da Saúde não é médico e não tem respeito como autoridade médica; o presidente foi uma pessoa que não se mostrou sensível aos problemas da pandemia, cada dia tem uma novidade no que ele fala.

Está difícil encontrar uma voz... Mas, enfim, tem como fazer. [O governo] deveria fortalecer o discurso das priorizações. Em vez de ficar criticando, dizendo que vai criar iniquidade, que isso vai favorecer quem é rico, o governo deveria perceber que isso é fruto do mundo liberal em que a gente vive, que, aliás, é uma das bandeiras desse governo.

Deveria entender que o setor privado é de grande valia e, com ele, tentar organizar para dar conta [da vacinação] dessa parte da população de forma rápida e eficiente. Isso só ajudaria o sistema de saúde brasileiro.

Mas, se a gente agora quer discutir equidade e iniquidade, vamos colocar a pauta da pandemia dentro da agenda de 1988.

As desigualdades social e racial estão bem claras nessa pandemia, com impacto, inclusive na mortalidade. Isso não aumentaria ainda mais o fosso?  Sim, esse é um dado importante. As pessoas mais vulneráveis socialmente foram aquelas que tiveram maior taxa de mortalidade, isso internacionalmente.

Talvez na questão da vacinação você possa priorizar as populações mais vulneráveis socialmente. Na composição entre o público e o privado, há condições de criar esse caminho. Tem pessoas que, embora empregadas e com seguro-saúde, nem sempre moram em boas condições de habitação ou têm um estilo de vida saudável. Quantos funcionários de empresas vivem num cômodo só e moram com sete pessoas? Quantas pessoas estão empregadas e moram dentro de comunidades, de favelas?

Tenho a impressão de que o debate não é se privado entra ou não. O privado tem que entrar, sim, mas procurar manter uma agenda de prioridades. O governo precisa usar as virtudes de ter um parceiro privado. É muito mais ágil na compra, na distribuição, na aplicação, e usa recursos próprios, sem verbas carimbadas.

Mas como garantir que só serão vacinados grupos prioritários? Pode ser que, eventualmente, esse pessoal do privado consiga vacinar todo mundo dentro dos grupos prioritários e sobre vacinas. Mas isso é um outro capítulo. Não fizemos nada ainda. O ideal seria que vacinássemos todo mundo.

Agora, se você olhar para os Estados Unidos, menos de 45% da população quer tomar a vacina. Existe uma dúvida muito grande pelo fato de essas vacinas terem sido aprovadas em tempo recorde. As pessoas têm questionado: será que fizeram todos os testes de segurança? Mas os projetos de vacinação brasileiro, em termos de adesão da população, são melhores do que fora do Brasil. Então não podemos ficar de mãos atadas.

Não podemos abrir mão de um parceiro que é ágil num momento em que não temos nada. Pode ser que, num determinado momento, cometa-se algum tipo de injustiça, mas eu preferiria correr o risco de cometer alguma injustiça pontual do que correr o risco de cometer a maior das injustiças que é não vacinar ninguém. Até agora, é o que está acontecendo. Israel já vacinou mais de 10% da população, os EUA já estão com 1,5% vacinado e, com o [presidente eleito Joe Biden], vai andar mais rápido, Inglaterra está andando.

E nós? Quem está vacinado no Brasil? Só quem entrou nos trials [ensaios clínicos] e teve a sorte de não ter recebido placebo.

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