Descrição de chapéu Financial Times Coronavírus

A pandemia de coronavírus está terminando na Índia?

Casos caem acentuadamente, aumentando perspectivas de que regiões estejam próximas da imunidade de rebanho

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Amy Kazmin
Nova Déli | Financial Times

Na maior parte dos últimos 11 meses, a doutora Sushila Kataria trabalhou 15 horas por dia, sete dias por semana, cuidando de uma maré crescente de pacientes de Covid-19 no Hospital Medanta, uma importante instituição privada nos arredores de Nova Déli.

Desde os primeiros casos no hospital —turistas italianos que adoeceram em março—, o Medanta tratou mais de 11 mil pacientes de Covid em seus pavilhões, unidades de tratamento intensivo, instalações de quarentena em hotéis e programas de atendimento em casa. A carga da Covid atingiu o pico em novembro, com cerca de 450 pacientes internados e outros 50 a 100 em uma lista de espera por leitos.

Cartaz com figura do premiê indiano, Narendra Modi, propagandeia maior programa de vacinação do mundo
Cartaz com figura do premiê indiano, Narendra Modi, propagandeia maior programa de vacinação do mundo - Francis Mascarenhas - 15.jan.21/Reuters

"Foi totalmente avassalador", disse a doutora Kataria, especialista em doenças infecciosas que chefia o atendimento no Medanta. "Novembro foi o pior. Só podíamos receber o número de pacientes que pudéssemos dispensar. Estávamos lidando com pacientes muito, muito doentes no ambulatório, pois não havia espaço na UTI."

Mas os médicos na área de Nova Déli que tratam a Covid estão tendo agora um alívio inesperado. O número diário de novas infecções na capital caiu acentuadamente nas últimas semanas. O Medanta tem apenas 25 pacientes de Covid hoje, e outros hospitais da cidade também relatam muitos leitos vazios nas alas de Covid.

"Para nosso alívio e surpresa, o número de casos começou a cair drasticamente", disse a doutora Kataria.

A tendência vai além da capital. No plano nacional, as novas infecções confirmadas de coronavírus na Índia caíram precipitadamente, de quase 100 mil novas infecções por dia em meados de setembro para uma média de 13 mil a 14 mil por dia na semana passada. Ao mesmo tempo, pesquisas de saúde indicam que pode ter havido muito maior exposição do público ao vírus do que se percebia antes.

Em um momento em que muitos outros países combatem segundas e terceiras ondas e alarmantes novas variantes do coronavírus, a queda em infecções traz uma perspectiva fascinante: a pandemia começou a se extinguir na Índia?

Alguns médicos e pesquisadores começam a especular que as populosas cidades indianas podem estar se aproximando das primeiras etapas da "imunidade de rebanho" natural —mesmo antes que uma vacina esteja amplamente disponível—, fazendo a disseminação do patógeno subitamente perder força.

"O que parece que fizemos foi deixar o vírus seguir seu caminho", disse o virologista T. Jacon John, professor aposentado do Colégio Cristão de Medicina em Vellore, no estado de Tamil Nadu, no sul do país. "Ao não achatar a curva no início, a Índia passou pela barreira da imunidade de rebanho, e a epidemia parece estar regredindo naturalmente."

Isso, por sua vez, alimenta um otimismo cauteloso de que a Índia esteja saindo da sombra da pandemia, permitindo que repare uma economia golpeada por um lockdown rígido, restrições posteriores e o medo do público.

"Tenho esperança de que o pior tenha terminado", disse o doutor Randeep Guleria, diretor do Instituto de Ciências Médicas de Toda a Índia e membro da força-tarefa da Covid-19 do governo indiano. "Em certas áreas, como as grandes cidades, podemos ter chegado perto de alcançar um bom nível de imunidade —se não a de rebanho, perto dela."

O normalmente contido Reserve Bank da Índia foi ainda mais efervescente em um boletim recente, elogiando a "crescente probabilidade" de uma recuperação econômica mais forte que a esperada, conforme a ameaça da doença recua.

"A Índia 'a dobrou como Beckham'", disse o banco central sobre a curva pandêmica do país. "Excetuando-se o surgimento de uma segunda onda, o pior ficou para trás. A recuperação está se reforçando, e logo o inverno de nosso descontentamento se transformará em um glorioso verão."

'Ninguém está contando'

Depois que a Índia detectou suas primeiras centenas de infecções pelo coronavírus, em março do ano passado, o primeiro-ministro Narendra Modi impôs um lockdown draconiano em todo o país, esperando romper a cadeia de transmissão viral e conter o patógeno.

Com o transporte público suspenso durante meses e os consumidores limitados a comprar comida, remédios e produtos de limpeza, a economia da Índia se contraiu 24% em uma base anual no trimestre de abril a junho.

Mas o lockdown não conseguiu conter a disseminação do vírus em um país onde milhões de pessoas vivem aglomeradas, compartilhando banheiros e torneiras comunitárias, em favelas superpopulosas. Das cidades, o patógeno aparentemente foi levado para o interior, conforme trabalhadores migrantes demitidos voltaram a suas aldeias.

Ao todo, a Índia relatou mais de 10,7 milhões de infecções confirmadas por coronavírus, a segunda conta mais alta no mundo, depois dos Estados Unidos. Mas especialistas em saúde concordam que o total verdadeiro foi muito maior, com a maioria das infecções não reconhecidas ou registradas.

"Os casos relatados não refletem nem remotamente os casos reais —eles refletem só as pessoas que foram testadas", disse Vikram Patel, professor de saúde global na Escola de Medicina de Harvard. "Por motivos que não conhecemos totalmente, o vírus se disseminou como fogo no mato na Índia —mais que em qualquer outro país."

Em cidades como Déli, Mumbai e Puna, estudos de soroprevalência —que medem anticorpos que sugerem uma exposição anterior ao vírus— indicaram que mais da metade dos moradores já foram expostos ao vírus. Um desses estudos no estado de Karnataka avaliou que houve 31 milhões de infecções lá até meados de agosto, incluindo 44% da população rural e 54% da urbana.

Mas muitas pessoas com anticorpos não se lembram de que estiveram doentes. "As estimativas são de que 30% a 40% dos indivíduos podem ter tido infecções assintomáticas ou brandas e não foram testados", disse o doutor Guleria. "Muitos que desenvolveram sintomas moderados podem ter tido Covid-19 sem perceber."

A Índia relatou mais de 154 mil mortes pela Covid-19. Mas, assim como a contagem real de infecções, o número real de mortos nunca será conhecido, pois a maioria dos indianos ainda morre em casa, sem ter a causa da morte determinada formalmente. "Nunca saberemos quantas pessoas morreram —ninguém está contando", disse o doutor John.

Mesmo levando isso em conta, alguns pesquisadores dizem que o índice de mortalidade por Covid na Índia provavelmente não foi tão alto quanto em outras regiões.

Um motivo disso poderia ser a relativa juventude da população indiana. Apenas 6,5% dela tem mais de 65 anos, comparada com 20% na Europa.

Alguns especialistas também indicam fatores ambientais que afetam os sistemas imunes —embora os cientistas enfatizem que essa hipótese precisa ser mais estudada. "Estamos tendo uma doença muito menos grave que o resto do mundo, e infecções muito mais assintomáticas", disse a microbiologista Gagandeep Kang, que participou da produção da vacina contra o coronavírus no país. "Parte do motivo pode ser exposição anterior a muitos outros patógenos."

"Vivemos em um ambiente onde estamos expostos a todo tipo de patógenos o tempo todo e aprendemos a não reagir muito", acrescentou ela.

A Índia faz muito pouco sequenciamento viral, o que permitiria aos cientistas monitorar a variante particular da doença que predomina no país, algo que o governo agora tenta corrigir. Mas o economista de saúde Rijo John, baseado em Kerala, sugere que a Índia até agora teve uma cepa muito menos virulenta que outros lugares.

"É geralmente aceito que temos na Índia uma forma muito branda do vírus", disse ele. "Mas é difícil prever o futuro."

O número diário de novos casos relatados certamente é menor que o verdadeiro total de novas infecções —especialmente nas áreas rurais, onde a infraestrutura de testes é mais fraca—, mas especialistas dizem que não há dúvida de que a pandemia está em forte declínio na Índia.

"Parece que o vírus realmente se espalhou amplamente pelo país", disse a doutora Kang. "Talvez o motivo de os números estarem despencando seja que a maioria das pessoas já foi infectada, e a infecção lhes dá pelo menos 80% de proteção durante meses."

'Espaço para aumento de casos'

Com a ansiedade pública sobre a doença hoje diminuindo, a economia indiana se recupera, e segundo estimativa do HSBC a economia está em 94% dos níveis pré-pandemia. Mas a recuperação continua desigual, com a demanda por bens voltando aos níveis pré-pandêmicos, mas a demanda por serviços ainda em queda de 30%.

A vida também continua severamente interrompida de outras maneiras. A maior parte dos 270 milhões de escolares do país não vão às escolas desde março, embora alguns estados tenham permitido a volta de um número limitado de estudantes mais velhos. Profissionais de colarinho-branco têm trabalhado principalmente de casa há 11 meses, enquanto muitos idosos quase não saíram de casa, pela possibilidade de que continuem suscetíveis à infecção.

Ramanan Laxminarayan, diretor do Centro para Dinâmica de Doenças, Economia e Políticas, adverte que novas medidas no sentido da normalidade —como a reabertura de escolas e locais de trabalho— poderão ser acompanhadas de um novo aumento dos casos, pois indivíduos sem imunidade serão expostos ao vírus.

"Muito disso ficou para trás, mas não quer dizer que acabou de vez", afirmou ele. "Temos uma situação artificial em que alcançamos um equilíbrio, mas se voltarmos à vida normal ainda haverá muito espaço para o aumento de casos."

A Índia lançou uma ambiciosa campanha de vacinação, visando inocular 300 milhões de pessoas até o final de agosto, incluindo trabalhadores de saúde e idosos. Mas com apenas 3 milhões de vacinados desde o início da campanha, há duas semanas, atingir essa meta provavelmente será um processo lento e prolongado.

Enquanto isso, há probabilidade de surtos localizados do coronavírus —como o que está ocorrendo em Kerala, o estado no sul que antes foi elogiado pelo bem-sucedido controle do vírus. "Se você examinar os locais que se saíram bem no controle inicial, são aqueles que têm um alto nível de infecção hoje", disse a doutora Kang. "E se surgir uma variante que escape às reações imunes todo mundo estará novamente no jogo."

No Hospital Medanta, em Déli, a doutora Kataria diz que a pressão constante no ano passado --juntamente com o isolamento físico de seu marido e dois filhos adolescentes, para mantê-los em segurança-- teve um preço. "Eu dizia a mim mesma: 'Fiz tudo o que pude fazer'", disse ela. "Não podemos pensar que somos deuses. Somos humanos no fim das contas."

Embora esteja cautelosamente otimista de que o pior já passou, ela adverte contra a complacência, diante do potencial de novos surtos de casos, especialmente se uma variante mais virulenta se espalhar pelo país. "Se a situação continuar assim por um mês, poderemos dizer que alcançamos números baixos sustentados por causa da imunidade e da vacinação", disse ela. "Mas temos de cruzar os dedos. Esses bons tempos podem não durar para sempre."

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

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