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Araraquara vê queda de mortes e casos por Covid-19 após lockdown, mas cenário ainda preocupa

Prefeitura fala em 'remédio amargo, mas necessário'; medida gerou protesto no comércio e arrombamento de bancos

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Ribeirão Preto

Casos, mortes e internações em queda. Assim pode ser resumido o cenário de Araraquara (a 273 km de São Paulo) um mês após ter iniciado lockdown devido ao agravamento da pandemia com a circulação predominante da variante brasileira do novo coronavírus. Uma nova aplicação da medida não é descartada em caso de alta nos casos de Covid-19.

Decretado a partir de 21 de fevereiro, com restrições mais severas nos sete primeiros dias, o lockdown foi a saída encontrada pela prefeitura para tentar frear o avanço de casos e mortes e a falta de leitos hospitalares para atender os pacientes diagnosticados com a Covid-19. Quinze deles chegaram a ser transferidos para cidades a até 389 quilômetros de distância.

Mas a medida não foi recebida de forma unânime no município. Houve protesto de um grupo de comerciantes contra o lockdown e, em seu primeiro final de semana de vigência, quatro agências bancárias tiveram a área dos caixas eletrônicos arrombadas por clientes que queriam sacar dinheiro.

Supermercados, postos de combustíveis e até mesmo o autoatendimento nos bancos foram proibidos de abrir as portas nos primeiros dias das severas restrições. Só hospitais, unidades e serviços de saúde, farmácias, coleta de lixo e cemitérios estavam em funcionamento. Supermercados podiam atender via delivery.

Em comparação com o período pré-lockdown, a cidade viu cair a média móvel diária de novos casos de 189, em 21 de fevereiro, para 80, no último domingo (21), uma redução de 58%.

O número de pessoas internadas, por sua vez, caiu 21%, passando de 218, no dia do início das restrições, para 172. Em relação ao pico da pandemia (248 internados em 26 de fevereiro), a queda foi de 31%.

Os óbitos entre 15 e 21 de março estão no mesmo patamar do intervalo de 15 a 21 de fevereiro, 25. Em relação à pior semana, entre 1 e 7 de março, com 41 mortes, a queda é de 39%.

“Para nós funcionou [o lockdown], e continua funcionando porque estamos com medidas restritivas. É um remédio amargo, mas necessário. Não dá nem para comparar os cenários de antes e agora. Tínhamos por dia quase 200 pessoas sendo positivadas, agora são 80. Quando positiva 200, significa que 20% delas, ou 40, vão precisar de leitos em dez ou 11 dias, e metade vai para a UTI. Com 80, penso em 16 internando e oito precisando de UTI, o que dá fôlego para o sistema hospitalar”, disse a secretária da Saúde de Araraquara, Eliana Honain.

O cenário, porém, está longe de ser totalmente confortável. Desde o dia 10 de fevereiro, Araraquara tem registrado mortes todos os dias, sem exceção, e o mês de março já é recorde na pandemia.

Foram 110 óbitos, ante os 89 de fevereiro. Nos últimos cinco dias, foram 13 mortes, 3 delas nesta terça-feira (23).

Além disso, uma parceria foi fechada com uma igreja que, pelos próximos três meses, funcionará como hospital de retaguarda para a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) da Vila Xavier.

“Qualquer descuido pode voltar [a crescer casos e mortes], temos de estar atentos 24 horas por dia. Mas, se houver indício de crescimento dos números, não temos nenhuma dúvida que a gente vai de novo para o remédio amargo.”

Hoje Araraquara segue a fase emergencial do plano São Paulo, desenvolvido pelo governo estadual.

O cenário no município passou a piorar no final de janeiro. Um estudo conduzido no IMT (Instituto de Medicina Tropical) da USP (Universidade de São Paulo) indicou que uma nova variante do coronavírus era a predominante em Araraquara, presente em 93% das 57 amostras de secreção nasofaríngea coletadas de pacientes com Covid-19 entre 25 de janeiro e 23 de fevereiro.

A avaliação da secretária é que, com as medidas existentes até então, a situação seria confortável se não tivesse surgido a variante brasileira.

“Essa transmite mais, é mais grave e tem capacidade de infectar uma faixa etária menor, ao contrário da outra. Se não tivéssemos feito o lockdown, pacientes estariam morrendo sem assistência.”

Imagem mostra funcionário descarregando cilindro de oxigênio em hospital de campanha em Araraquara
Chegada de oxigênio no hospital de campanha implantado em Araraquara, no interior de São Paulo - Rubens Cavallari/Folhapress

Ao menos 15 pacientes foram transferidos para localidades de outras regiões do estado devido à falta de leitos em Araraquara. Cidades como Ilha Solteira, Osasco, São José do Rio Preto, Ribeirão Preto e Barretos atenderam moradores de Araraquara em suas redes de saúde.

Profissionais de saúde, que estavam sentindo o estresse do sistema local nos hospitais, aprovaram a medida, assim como dirigentes de hospitais.

Comerciantes, porém, chegaram a fazer manifestação contra o prefeito Edinho Silva (PT) por conta das medidas adotadas.

Uma decisão judicial da 1ª Vara da Fazenda Pública que permitia uma carreata na cidade foi revertida no TJ (Tribunal de Justiça), após pedido da prefeitura. A carreata já tinha ocorrido, mas o pedido passou a ser válido para outras manifestações do tipo, que não ocorreram.

Embora tenha gerado críticas de comerciantes, nem todos desaprovaram as medidas restritivas adotadas na cidade, como Geovani Gabriel, 22, gerente de uma loja de assistência técnica e acessórios para celulares na região central.

“Aqui não dependemos do cliente que está passando na rua e entra na loja. Temos clientes fixos, que sempre utilizam nossos serviços. Mesmo assim, nosso movimento caiu 65%. Mas não tem o que fazer, precisamos cumprir com as medidas restritivas, até para preservar nossas próprias vidas”, disse.

Araraquara tem, atualmente cem leitos de UTI nas redes pública e privada para pacientes com Covid-19, 40 a mais que antes de surgir a nova cepa.

Nesta terça-feira, havia 84 pacientes internados em leitos de UTI e outros 96 em enfermarias. Dos 180, 99 são de Araraquara e 81 de outras localidades.

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