Descrição de chapéu Coronavírus

No Rio, desempregados se juntam a moradores de rua nas filas por quentinhas

Chefes de família e pessoas que perderam renda engrossam demanda por comida

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Rio de Janeiro

A casa de Bruno tinha dois quartos, sala, cozinha, banheiro e, ele sublinha, até um quintal com um tanque de cimento para lavar as roupas. Ele adorava, mesmo ficando ao lado do baile funk, no morro do Pavão-Pavãozinho, entre Copacabana e Ipanema.

Mas a pandemia começou, a praia que sempre lhe deu sustento fechou, e o dinheiro do aluguel secou. O proprietário tinha dois filhos para criar e também não podia abrir mão dos R$ 250 mensais, portanto o destino possível foi a rua, sem a mulher que o deixou.

Bruno não tem coragem de pedir. É “raspado para Iemanjá” e o candomblé prega trabalho, então foi vender bala no sinal. Os guarda-sóis nas areias do Arpoador, que antes rendiam R$ 115 por dia, às vezes viram proteção durante o sono. Quando dá, arruma um quartinho de hotel no centro da cidade.

Sorrindo, ele soletra seu nome inteiro, tão longo quanto a fila em que esperava o pão com manteiga daquela manhã: João Bruno Oliveira de Souza e Andrade Ferreira, 43 anos. Pegou dois e um cafezinho, acrescentando que quer logo arrumar um canto para ficar.

Há nove meses, ele é um dos desempregados da pandemia que se juntam aos antigos moradores de rua nas filas por quentinhas no Rio de Janeiro e em outras capitais. Chefes de família e mulheres com crianças também são novos perfis vistos com frequência por quem se dedica às doações.

“Se você repara na aparência de alguns deles, não tem nada a ver com situação de rua. Hoje 70% a gente não conhece mais, é muita gente chegando”, diz o zelador e voluntário Hely Ferreira, 56. Ele acorda todo dia às 23h para dar tempo de fazer o café e estar às 6h30 passando manteiga nos 600 pães, com a ajuda do grupo.

Ainda se comove com a quantidade de pessoas pedindo trabalho. “Eu vejo a sociedade julgar muito e entender pouco”, avalia. Em poucos minutos, uma mulher se aproxima e pede ajuda para escrever um currículo. Outro diz precisar de um celular para conseguir emprego.

Esse último é Eric da Cunha, 47, que está na rua desde outubro e sabe ser barman, pintor e auxiliar de limpeza. Saiu de Sorocaba, interior de SP, deixando para trás um passado que inclui 20 anos de prisão, mas ainda não achou oportunidade em terras cariocas.

Com carteira assinada desde os 11 anos, ganhou de Hely um carrinho e passou a vender água, cerveja e Guaravita, mas acabou sendo roubado. “Depois disso não arrumei nada, fechou muita porta de emprego.” Também já garantiu R$ 60 por dia recolhendo barracas e latas na praia, “mas agora está tudo fechado de novo”.

Eric acaba de conseguir um quarto num hotel pela assistência social, onde diz que tem muita gente na mesma situação. O fim do auxílio emergencial em dezembro —de cinco parcelas de R$ 600 e quatro de R$ 300, em geral— piorou a situação.

O benefício abarcou cerca de um terço dos brasileiros e vai voltar a ser pago em abril, mas com valores mais baixos: serão até quatro pagamentos de R$ 150 a R$ 375, limitados a uma pessoa por família. A prefeitura e o estado do Rio também criaram auxílios próprios.

O Ipea estimou que existiam quase 222 mil brasileiros em situação de rua em março do ano passado, um salto de 140% em comparação a 2012, e na época alertou que essa população tendia a crescer com a crise econômica acentuada pela pandemia.

O frei Valdir Moreira, dos Missionários de Nossa Senhora e São Bruno, confirma: “Aumentou muito na nossa fila o número de famílias, pais, mães e filhos, avós com os netos, que estão na rua porque perderam o auxílio, perderam o aluguel e vêm para o Centro achando que vai ter mais oportunidade, mas não tem”.

Distribuindo marmitas diariamente em frente ao Instituto Nacional de Câncer, ele tem notado que até acompanhantes de pacientes que chegam de ambulância de outros bairros ou cidades entram na fila para pedir comida ou água ultimamente, porque não têm dinheiro nem para o dia.

Julia Dannemann, gerente de comunicação da ONG Gastromotiva, que existe há 15 anos, diz que a mudança de perfil é uma realidade também em São Paulo e em Curitiba. Duas das frentes de atuação da organização eram cursos na área da gastronomia e um refeitório com almoços completos na região central carioca, mas foi preciso se adaptar à pandemia.

Agora, a instituição virou um grande banco de alimentos que tem cozinhas solidárias espalhadas por essas cidades. “Ex-alunos começaram a ligar dizendo que a galera da comunidade estava sem comer, então criamos as cozinhas onde eles cozinham em casa e distribuem”, explica.

Se tiverem que ficar parados por um mês, 86% dos moradores de favela no Brasil dizem que terão dificuldades para comprar comida e outros itens básicos, mostrou uma pesquisa do Data Favela/Instituto Locomotiva que entrevistou 1.142 pessoas de 262 comunidades entre 20 e 22 de março.

Na contramão, as doações minguam por causa da implosão do “boom solidário” que aconteceu no início da pandemia, da maior dificuldade financeira da população e também do aumento do preço dos alimentos.

“Quem ajudava não está tendo condições. Antes da pandemia, com pouco mais de R$ 600 dava para montar 35 cestas básicas, agora você precisa de quase R$ 1.000”, diz Delclenes Dias, 68. Ela distribuía cafés da manhã, mas parou com a piora na transmissão do vírus, porque os voluntários são idosos.

O sistema de quentinhas funciona em uma espécie de rede: a cada vez que as cidades fecham e muitos projetos deixam de ir às ruas, os pontos de doação que permaneceram incham. Na praça da Sé, centro de SP, por exemplo, a fila do grupo Dois Pães e Um Pingado virou a esquina na semana retrasada, porque a marmita da noite anterior não havia passado.

Para que não haja um vácuo nas refeições, os grupos buscam alternativas para continuar. A Gastromotiva, que teve queda de 66% nas contribuições, lançou recentemente a campanha Chega de Fome para financiar as cozinhas solidárias e para repassar recursos para outros projetos nas ruas.

O voluntário Hely, que mantém o pão com manteiga com o dinheiro de rifas e bazares na ilha onde mora, em Paquetá, já pensa em abrir uma vaquinha online. Agora que o Rio entrou em um “superferiado” por dez dias, ele vai voltar ao Centro de domingo a domingo.

“Não tem nada que me deixa pior num dia do que o café acabar e alguém ficar sem comer. Quantas vezes chega gente tremendo e eu pergunto se é abstinência, e eles respondem que não, que estão sem comida desde a manhã anterior. A fome vem com pressa, com desespero."


Como doar

A maioria dos projetos aceita dinheiro, alimentos e outros itens

Café da manhã do Hely

  • O que: voluntário independente que distribui café da manhã todo dia no Centro do Rio de Janeiro
  • Telefone: (21) 97175-4895
  • Conta: Itaú / Poupança 07057 2 500 / Agência 6016 / Pix 523.869.969-72

Missionários de Nossa Senhora e São Bruno

  • O que: almoço todos os dias e café da manhã aos domingo na praça da Cruz Vermelha, entro do Rio de Janeiro
  • Site: www.ifmdenossasenhora.com
  • Email: frmissionariosdenossasenhora@gmail.com
  • Telefone: (21) 99791-2541
  • Endereço: Rua Joaquim Murtinho, 109 - Santa Teresa - CEP 20241-320

Dois Pães e Um Pingado

  • O que: café da manhã uma vez por semana no Rio de Janeiro, em Niterói, no Recife, em São Paulo, em Campinas e em Belo Horizonte
  • Instagram: www.instagram.com/doispaeseumpingado
  • Telefone: (21) 99696-0646

Gastromotiva

  • O que: banco de alimentos destinados a vários projetos parceiros, cozinhas solidárias em comunidades, cursos de capacitação, entre outros projetos
  • Site: www.gastromotiva.org
  • Pix: 08.505.223/0001-12
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