Descrição de chapéu Coronavírus

Prefeitura de Sorocaba, em SP, divulga enquete telefônica como prova de eficácia de 'kit Covid'

Posts foram tirados do ar após críticas; vereadores denunciaram gestão ao Ministério Público

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Americana (SP)

A Prefeitura de Sorocaba (99 km de São Paulo) divulgou monitoramento feito por telefone com 123 pacientes da rede de saúde pública local como prova de eficácia do chamado tratamento precoce contra a Covid-19.

Mesmo com evidências científicas de que esse tratamento –o conjunto de remédios como hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina– não funciona contra a Covid nem preventiva nem profilaticamente, a gestão do prefeito Rodrigo Manga (Republicanos) adotou a prescrição como parte da política de saúde pública local em 19 de março.

Médicos e pacientes relatam que o conjunto de remédios, quando usados em doses inadequadas e contínuas, ou por pessoas com algumas doenças prévias, pode causar efeitos graves como arritmia e hepatite medicamentosa (lesões no fígado, órgão que metaboliza as drogas).

Desde então, as mortes em Sorocaba subiram de 904 para 1.385 (na quarta, dia 14) –um aumento de 53,2%. Já em comparação ao início do ano, o crescimento foi de 144,3%.

De acordo com dados do governo do estado, Sorocaba registrou 110 novas internações de pacientes com confirmação ou suspeita de Covid entre a terça (13) e quarta (14). Na média móvel dos últimos sete dias, a cidade registrava até quarta 73,8% de ocupação de leitos de enfermaria e 91,6% de lotação de leitos de UTI para Covid.

Postagem em rede social mostra comprimidos brancos com um desenho de vírus em cima e uma barra vermelha, como a de "proibido". Acima, se lê "estudo preliminar aponta 99% de eficácia do tratamento precoce
Post da Prefeitura de Sorocaba defende tratamento precoce contra Covid-19 - Prefeitura de Sorocaba no Instagram

Sem detalhar a metodologia, a amostragem ou a validação utilizada, prefeitura anunciou, em posts publicados na quarta-feira (14) no Instagram e no Facebook, que um "estudo preliminar aponta 99% de eficácia do tratamento precoce".

Os textos diziam que a 122 de 123 pacientes monitorados pela Secretaria Municipal de Saúde estavam "curados em domicílio" após usar medicamentos como o vermífugo ivermectina e o antibiótico azitromicina. Abaixo, apareciam as hashtags #cidadehumanizada e #cidadeinovadora.

Após críticas e denúncias por parte dos internautas, as postagens foram primeiro modificadas. A palavra "estudo" foi trocada por "levantamento", e o texto passou a dizer que "aponta 99,19% de recuperados e 0,81% de letalidade entre pacientes monitorados com sintomas da Covid-19 que fizeram tratamento precoce em Sorocaba".

Postagem em rede social da prefeitura de sorocaba alega, sem detalhes, que um "levantamento preliminar" aponta excelentes resultados entre pacientes monitorados com sintomas da Covid-19 que entraram em tratamento precoce em Sorocaba
Post da Prefeitura de Sorocaba defende tratamento precoce contra Covid-19 - Prefeitura de Sorocaba no Instagram

Mais tarde, nova modificação: "Levantamento preliminar aponta excelentes resultados entre pacientes monitorados com sintomas da Covid-19 que fizeram tratamento precoce em Sorocaba". Um asterisco explicava, em letras bem menores, que de 123 pacientes monitorados, 122 se recuperaram.

Os posts foram depois retirados do ar nas redes sociais. Procurada pela Folha, a prefeitura informou que o monitoramento dos 123 pacientes foi feito por telefone. "Não se trata de estudo científico", afirmou.

Texto que ainda está no ar no site da prefeitura explica o cálculo da eficácia. "Um paciente que tinha tomado apenas um comprimido das medicações veio a óbito e já era um caso moderado quando procurou a unidade de saúde e iniciou o tratamento."

Não há comprovação de que os demais pacientes tenham de fato tomado os remédios prescritos ou feito quaisquer outros tratamentos ou intervenções médicas contra a doença.

A prefeitura afirma ainda que um total de "1.113 pacientes optaram pelo tratamento precoce na cidade" –mas omite quantos destes morreram em decorrência da doença ou desenvolveram quadros graves.

Após as publicações nas redes sociais, um grupo de vereadores protocolou uma representação junto ao Ministério Público do Estado de São Paulo contra prefeito e prefeitura.

O documento acusa a gestão Manga de "expor a vida ou a saúde das pessoas a perigo direto e iminente" e "inculcar ou anunciar cura por meio secreto ou infalível" –referentes aos artigos nº 132 e nº 283 do Código Penal. Ambos preveem pena de três meses a um ano de detenção, mais multa.

Segundo os vereadores, ao não detalhar o modo como o suposto estudo foi realizado, a prefeitura induziu "a população a acreditar que os medicamentos do tratamento precoce são responsáveis por impedir a morte de pessoas por Covid-19".

Eles lembram ainda carta divulgada pela Associação Médica Brasileira em 23 de março que afirma que "infelizmente, medicações como hidroxicloroquina/cloroquina, ivermectina, nitazoxanida, azitromicina e colchicina, entre outras drogas, não possuem eficácia científica comprovada de benefício no tratamento ou prevenção da Covid-19, quer seja na prevenção, na fase inicial ou nas fases avançadas dessa doença, sendo que, portanto, a utilização desses fármacos deve ser banida".

Sorocaba autorizou que os médicos da rede de saúde prescrevessem azitromicina e ivermectina "e, se necessário, conforme orientação médica", também paracetamol, dipirona e metoclopramida contra a Covid. A distribuição dos remédios seria gratuita via Unidades Básicas de Saúde (UBS) mediante recomendação médica.

Na ocasião, Manga afirmou que o tratamento teria "um investimento pelo município de R$ 18 por paciente". Agora, ao ser inquirida, a prefeitura respondeu à Folha que a aquisição desses medicamentos não trouxe custos à administração pública, já que haviam sido doados pela iniciativa privada.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.