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Coronavírus Trincheira Covid

A angústia da sala de espera

Até poder dividir o olhar solidário de desconhecidos em situação semelhante a pandemia nos roubou, escreve médica

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Fernanda Wendel

Médica com residência de Medicina de Família e Comunidade, atua como socorrista do Samu e em pronto-socorro de São Paulo

São Paulo

Um dos cenários mais desoladores que a Covid impôs foi a solidão. Não só para quem está saudável, tentando se proteger do vírus, mas principalmente para quem se contaminou. Os doentes leves que seguem as orientações médicas penam por duas semanas sem sair de casa, esquivando-se de seus coabitantes para não os colocar em risco. Os que não têm a mesma sorte e veem seu quadro agravar partem para uma batalha hospitalar, distanciados de sua rede afetiva.

Vejo a dor da despedida na porta da ambulância ou do pronto-socorro, geralmente encerrada com a frase “vai ficar tudo bem, viu?”, como se fosse uma prece. Para quem fica do lado de fora, nem a solidariedade da sala de espera se tem mais. Aquele lugar geralmente desconfortável, em que famílias diversas acabam entrando em sintonia no aguardo de atualizações sobre seus doentes.

Até isso a pandemia nos roubou: poder dividir o olhar solidário de desconhecidos que estão em situação semelhante. Não é mais seguro sofrer em proximidade física.

Sobra então a espera à distância, a expectativa do telefone tocar com notícias. O tempo parece que se estende. O intervalo entre um boletim e outro dura uma eternidade para quem precisa confiar na voz do outro lado da linha, sem poder olhar para seu querido, tirar suas conclusões, pegar na mão, dar um beijo de esperança.

Por mais que a equipe traga as informações essenciais, a evolução do paciente, as mudanças que tiveram de ser feitas no tratamento, a sensação é de que os dados nunca são bastantes. Parece que é tudo dito muito rápido, que o contato com quem está do lado da sua pessoa preciosa se encerra num átimo em comparação à espera alongada. E para quem está do outro lado da linha, a impressão é justamente a contrária.

Compreendemos a angústia e a expectativa por notícias. E são de muitas famílias. Muita gente aguardando nosso telefonema. A brevidade acaba sendo necessária para não deixarmos ninguém sem atualização. Essa é só uma das funções a serem cumpridas numa lista enorme que a rotina hospitalar exige. Sem contar as intercorrências que aparecem no plantão, atrapalhando o cronograma.

Seria muito mais fácil se sempre tivéssemos novidades boas para transmitir. Que o telefonema se baseasse em “o paciente está evoluindo muito bem, cada dia melhor”, ou “provavelmente amanhã conseguimos dar alta, então prepare-se para vir buscá-lo”. Mas isso está longe de ser a regra.

Por mais que passemos por treinamentos e que a situação se repita com frequência, nunca é missão fácil levar más notícias à família. Se é dolorido recebê-las, acredite, é muito duro transmiti-las. Sofremos também. Somos lembrados da nossa impotência, das nossas limitações na cura. Sentimos o luto, e ele tem durado demais. Muitas perdas, por muito tempo seguido. A espera pela melhora está demorando além da conta.

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