Descrição de chapéu Futebol Internacional

Domínio europeu sobre o sul-americano no futebol começa na base

Além do dinheiro, boa formação de atletas também ajuda a explicar supremacia recente

Quatro homens vestidos de azul andam em gramado com bandeiras da França
Franceses comemoram título da Copa do Mundo após vitória sobre a Croácia  - Mladen Antonov/AFP
Bruno Rodrigues
São Paulo

​O título da França na Copa do Mundo da Rússia trouxe à tona tema recorrente nos últimos anos: a superioridade do futebol europeu sobre o sul-americano.

Neste século, o Brasil aparece como intruso na lista de campeões mundiais, com o título de 2002. As outras quatro Copas desde então foram vencidas por seleções europeias.

Outra competição que evidencia essa supremacia é o Mundial de Clubes. Foram apenas 4 títulos para a América do Sul no século 21, enquanto a Europa faturou os outros 13, em alguns casos enfrentando times de outros continentes na final, já que alguns campeões de Libertadores ficaram pelo caminho e nem sequer disputaram a decisão.

Chama a atenção também a perda de força nos Mundiais de base. A Argentina já foi potência nas categorias inferiores e conquistou a principal competição sub-20 em 1995, 1997, 2001, 2005 e 2007.

Só o Brasil, entre os sul-americanos, voltou a trazer o troféu para este lado do Atlântico com o título em 2011. Essa conquista é a última do continente, seja no sub-20 ou no sub-17 —nesta última o desempenho é ainda mais pobre.

Um dos fatores que explicam esse distanciamento é financeiro. É para a Europa que vão praticamente todos os atletas que se destacam em alguma parte do mundo.

Há também as infraestruturas de clubes e federações, complexos ultramodernos com instalações e profissionais capacitados que ajudam a potencializar o talento dos jogadores em formação.

A Uefa (entidade que comanda o futebol na Europa) participa ativamente desse processo, reinvestindo nas federações o dinheiro que entra de patrocinadores e direitos de TV. Aplica, principalmente, em países com menos poder financeiro e futebolístico.

É o caso da Islândia, que foi ajudada pela entidade na construção de mais de 100 pequenos campos com calefação, usados durante o inverno rigoroso no país.

Com esse plano de investimentos, chamado de "Hat-Trick", a Islândia atingiu seus melhores resultados na história, classificando-se tanto para a Eurocopa como para a Copa do Mundo pela primeira vez.

A Uefa estima que o investimento nas federações de futebol totalize 2,6 bilhões de euros (cerca de R$ 11,6 bilhões) de 2004 a 2024.

Mas há também, ao que parece, um problema na formação de jogadores. É o que defendem algumas pessoas que trabalham ou trabalharam diretamente com os jovens.

"Antes, eles [os europeus] corriam, eram fisicamente extraordinários, mas tinham pouca técnica. Vimos neste Mundial que eles melhoraram a técnica, e nós perdemos isso ao escolher correr mais. Penso que estamos nos equivocando por esse caminho", diz à Folha o argentino Hugo Tocalli, 70, que participou da era de ouro da base argentina nas duas últimas décadas.

Ex-goleiro, Tocalli fez parte da comissão técnica encabeçada por José Pékerman, que conquistou os Mundiais sub-20 de 1995, 1997 e 2001.

Quando Pékerman assumiu a seleção argentina principal para o ciclo da Copa do Mundo de 2006, Tocalli o acompanhou. Juntos, haviam deixado o caminho pavimentado para a formação de novos atletas.

No elenco argentino que caiu diante da Alemanha nas quartas de final em 2006, havia 10 medalhistas de ouro da Olimpíada de 2004.

A Argentina ainda conquistaria mais um ouro na Olimpíada de 2008, em Pequim, mas a medalha dourada já parecia marcar o fim de um ciclo no futebol de base do país, que desde então não conquista nenhum dos principais títulos de relevância mundial.

A impressão de que a mudança de prioridades na formação de atletas tem potencializado essa diferença entre europeus e sul-americanos é compartilhada por quem já esteve do lado de lá e agora está deste lado do muro.

Pierre Sarratia, 56, é francês e trabalhou por 30 anos na Federação Francesa de Futebol. Hoje, é o responsável pela área de metodologia da base do Nacional, do Uruguai.

Participou, inclusive, no desenvolvimento do centro de treinamentos em Clairefontaine, que viu desde sua fundação, em 1988, a França ser bicampeã do mundo e campeã europeia com jogadores formados em suas instalações.

Mais recentemente, Clairefontaine ganhou os holofotes do mundo por ter contribuído para a formação de Kylian Mbappé, destaque no título mundial francês na Rússia.

Mas Sarratia pontua que o atacante de 19 anos é uma exceção. O segredo está no método para que se formem bons jogadores com a característica do futebol francês.

Os clubes do país têm um compromisso com a federação de futebol na formação dos atletas. Precisam ter dirigentes, treinadores e demais profissionais capacitados para trabalhar com a captação e desenvolvimento de crianças e adolescentes.

Depois que os clubes oferecem as bases, a federação leva os jogadores com mais aptidão para centros de formação que ela organiza. Nesses centros, divididos em regiões para manter os jovens próximos de casa, os atletas mergulham na metodologia que vem rendendo frutos à França.

"Há um equívoco em procurar formar times. Há de se formar os homens, os jogadores. [Na América do Sul] há jogadores de qualidade, não é esse o problema. Só que esses garotos têm que estar preparados com algo mais. A federação francesa, desde os anos 1970, apostou num processo de formação de técnicos e jogadores. Para mim, há um trabalho", afirma Sarratia, que vive em Montevidéu desde 2011.

Clairefontaine, a nave-mãe desse processo de formação dos franceses, serviu de inspiração para outros centros espalhados pela Europa. Entre eles, o complexo de St. George's Park, na Inglaterra, inaugurado em 2012.

Seis anos depois, os ingleses já enxergam um sinal de evolução no futebol de base.

Em 2017, as seleções inglesas sub-20 e sub-17 conquistaram o Mundial de suas categorias. Passo importante para um país cuja liga, apesar da badalação, é frequentemente questionada pela falta de protagonistas ingleses em suas próprias equipes. "Os ingleses deram a volta. Estão ganhando tudo", diz Sarratia.

Hoje no futebol uruguaio, o francês tenta trazer um pouco do que aprendeu nas três décadas de trabalho com jovens franceses para lapidar futuras estrelas uruguaias e, mais importante, estabelecer a metodologia para que a descoberta de talentos não seja apenas pontual, mas um processo contínuo.

O Uruguai viu, por exemplo, dois de seus melhores jogadores na última Copa do Mundo estrearem profissionalmente por clubes de outros países.

Torreira e Bentancur surgiram para o futebol no Pescara (ITA) e no Boca Juniors (ARG), respectivamente, e não têm identificação com equipes uruguaias. Um erro dos clubes do país, que não souberam identificar e priorizar a formação desses talentos, assim como de tantos outros.

"Há de se ter paciência, paciência, paciência", diz Pierre Sarratia. "[Nós franceses] não somos um povo esportista. E não temos jogadores como vocês [sul-americanos], que surgem do nada. Então temos de formá-los, formá-los, formá-los", completa.

Investir em métodos de formação de atletas e em melhorias das condições para fazer com que eles floresçam parece ser um caminho necessário se a América do Sul quiser diminuir a diferença para a Europa no médio e longo prazo.

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