Técnico do Santos dirigiu time em árvore, cruzou América e virou piada na Argentina

Jorge Sampaoli foi contratado para comandar equipe paulista em 2019

Sampaoli durante partida da Argentina contra a Croácia na Copa do Mundo da Rússia
Sampaoli durante partida da Argentina contra a Croácia na Copa do Mundo da Rússia - Ivan Alvarado-21.jun.18/REUTERS
São Paulo

Se para o Santos foi uma contratação que caiu do céu, para Jorge Sampaoli, 58 anos, vir para o Brasil é uma oportunidade de recomeço. Segundo um dos seus assessores, ouvidos pela Folha, ele vê no clube paulista, time sem grandes estrelas e que não vem de uma temporada expressiva, a chance de fazer trabalho semelhante ao que realizou na Universidad de Chile. Foi o momento em que conseguiu erguer seu nome e torná-lo um dos mais valorizados do mercado no continente.

Em 2011, ele fez a equipe vencer a Copa Sul-Americana jogando um futebol ofensivo e envolvente.

Ele também pode na Vila Belmiro retomar a imagem de técnico obcecado por futebol, de ampla visão tática e detalhista ao extremo. Virtudes que sempre cultivou e foram comprometidas pela sua passagem na seleção argentina.

Sampaoli quase foi demitido após a derrota para a Croácia, no segundo jogo da fase de grupo no Mundial e viu os boatos que os jogadores haviam tomado o poder de decisão, especialmente Messi, se tornarem quase insuportáveis.

Classificada graças a um gol do zagueiro Marcos Rojo nos minutos finais contra a Nigéria, caiu na partida seguinte, nas oitavas de final, diante da França.

Após a apresentação, na última terça (18), Sampaoli voltou para a Argentina e avisou que volta em 1º de janeiro. Espera que até lá o clube tenha conseguido viabilizar as contratações combinadas com a diretoria. Ele pediu um volante, meia, atacante que atue pelas laterais do campo e um centroavante. Paulo Henique Ganso, o chileno Eduardo Vargas e o argentino Emmanuel Gigliotti estão na lista.

 

Antes do sucesso em solo chileno em 2011, Sampaoli nasceu e cresceu no futebol argentino e amadureceu seu trabalho no Peru.

Boleiro frustrado e fã do louco

Seu berço é a cidade de Casilda, perto de Rosario, na Argentina. De lá também vieram nomes como Lionel Messi, Cesar Luis Menotti e Marcelo Bielsa, seu ídolo máximo.

Sampaoli é tão “bielsista” que ficou mudo na primeira vez que o encontrou. Não conseguia dizer nada. Foi tão estranho, que até Bielsa, apelidado de El Loco, achou aquilo estranho. Ele gravava as palestras de Bielsa antes da partida para ouvir depois.

Marcelo Bielsa, ídolo de Sampaoli, hoje é técnico do Leeds United, na segunda divisão da Inglaterra
Marcelo Bielsa, ídolo de Sampaoli, hoje é técnico do Leeds United, na segunda divisão da Inglaterra - Leeds United/Divulgação

Além disso, também foi torcedor do River Plate e costumava viajar a Buenos Aires para assistir aos jogos da equipe. Como a situação financeira não era das melhores, por vezes o trajeto teve que ser feito até pedindo carona na beira da estrada.

O novo técnico do Santos teve  curta carreira de jogador, conhecido por ser um habilidoso canhoto, que atuou como volante, meia esquerda e lateral. Chegou a integrar as categorias de base do Newell’s Old Boys entre 1977 e 1979, mas deixou os gramados aos 19 anos com lesões na tíbia e na fíbula.

Foi justamente nessa época que conheceu Bielsa, que era jogador do time profissional do Newell's.

Como treinador, também iniciou seu trabalho na região de Rosario, porém em clubes com muito menos fama que o Newell’s. Sua primeira oportunidade veio no Clube Atlético Alumni, pequeno time de sua cidade natal que hoje foca suas atividades na escola de futebol infantil. Foi onde ficou entre 1994 e 1996.
Os anos seguintes passou alternando entre clubes da Liga Casildense, torneio da região de Santa Fe onde fica Casilda, e da Primeira Divisão Metropolitana, equivalente à 5ª divisão.

Conquistou o título do Casildense com o Clube Atlético Belgrano de Arequito em 1996 e recebeu a oportunidade de treinar o Argentino de Rosario, clube gerenciado pelo Newell’s, no ano seguinte. Passou pouco tempo lá. Retornou ao Alumni em 1997 e repetiu a passagem pelo Belgrano em 1998. Venceu o bicampeonato do Casildense em 1999 e 2000 no comandando o Aprendices Casildenses, o que lhe rendeu nova chance no Rosario, em 2000, e outro retorno ao Alumni, em 2001.

Aventureiro

Depois do início da Argentina, Sampaoli decidiu quebrar o ciclo regional e se aventurar no Peru, de onde veio uma proposta do Juan Arich. Foi sua primeira oportunidade como treinador de um clube de primeira divisão, em 2002.

Jorge Sampaoli cumprimenta torcedor do Santos ao chegar para a apresentação como técnico da equipe
Jorge Sampaoli cumprimenta torcedor do Santos ao chegar para a apresentação como técnico da equipe - Paulo Whitaker-18.dez.18/Reuters

O Juan era um time de grande torcida, mas que passava por um momento de grave crise financeira. Lá foi demitido após quatro meses e apenas uma vitória. Ele tinha tanta certeza que não daria certo que levou mala com roupas para três semanas. Nunca mais voltou a morar em Casilda.

Durante sua passagem em seu primeiro time peruano a situação era tão difícil que ele chegou a ter que morar de favor na casa do brasileiro Rafael Bondi, então meia da equipe, porque o clube deixara de pagar sua hospedagem no hotel.

Foi quando começou seu giro por clubes fora da Argentina. Passou pelo Sport Boys, teve boa passagem pelo Coronel Bolognesy e recebeu oportunidade no conhecido Sporting Cristal (todos do Peru). Saiu do país para trabalhar no O’Higgins (CHI) e o Emelec do Equador até que, finalmente, até ter a ascensão meteórica na Universidad de Chile.

Seduziu o futebol da seleção chilena, que comandou de 2012 a 2016, vencendo a história Copa América de 2015, em casa. Contratado pelo Sevilla, chegou a manter o time na disputa pelo título espanhol por algumas rodadas, disputando com os gigantes Barcelona e Real Madrid.

A profecia

Quando patinava em pequenos clubes locais, Sampaoli trabalhou em um banco de Casilda para ganhar algum dinheiro. Fez amizade com o gerente, a quem disse que um dia seria técnico da seleção argentina.

"Ah, tá bom. E eu vou ser presidente da República", riu o amigo.

O sonho, quando virou realidade, não foi como o esperado.

Sampaoli foi contratado pela seleção argentina em 20117 para suceder Edgardo Bauza e recebeu a missão de classificar o país para a Copa da Rússia de 2018.

Já na apresentação, mais uma fez o treinador foi profético.

“Não é feliz agora que alcançou seu sonho?” perguntou um repórter. “Não creio que seja feliz, era muito mais feliz em Casilda”, respondeu ele.

Sampaoli até conseguiu fazer a Argentina se classificar para ao Mundial, mas viu sua equipe ser eliminada nas oitavas após uma pífia campanha em campo e trágica nos bastidores. Foi demitido logo depois.

Técnico em cima da árvore e meio time no ataque

O estilo de futebol de Sampaoli pode ser resumido em um misto de muita energia e muita tática.

Um dos primeiros sinais de seu estilo a beira do gramado veio, na verdade, do topo de uma árvore. Quando treinador do Belgrano, ainda no início da carreira, o efusivo técnico foi expulso de um jogo com apenas 15 minutos jogados.

Sampaoli não teve dúvidas de como resolver o problema: achou uma árvore com vista para o campo, subiu e comandou o time de la. Uma foto do episódio foi publicado no jornal La Capital e chamou a atenção do presidente do Newell’s Old Boys, Eduardo López, que lhe ofereceu um cargo de técnico do Argentino de Rosario.

Já no Peru, quando técnico do Sport Boys, chegou a conseguir a incrível marca de ver seu time balançar as redes 85 vezes em 52 partidas. O problema é que sua defesa sofreu o mesmo número de gols.

Os times de Sampaoli carregam a filosofia de atacar, às vezes com até seis jogadores. Quando perde a bola, a marcação já se inicia no campo adversário, mas, se não recuperar, a ordem é para que formem linhas de defesa compactas. Uma vez que tenha retomada a posse, o objetivo é chegar ao ataque o mais rápido possível.

É um estilo que requer dedicação máxima a seus jogadores, marcação forte e futebol verticalizado. Não à toa ele gosta de aliar a experiência de jogadores mais velhos com jovens pouco conhecidos, mas de muito brio.

Antes do último Mundial, publicou um livro polêmico na Argentina (“Mis latidos”, as batidas do meu coração, em espanhol) em que disse acreditar que tudo no futebol é fruto do improviso e que não planeja nada. Após a campanha argentina na Rússia, a obra virou motivo de piada no país, com os próprios livreiros de Buenos Aires colocando um pedaço de papel em cima da capa com a expressão “vende humo” (gíria para designar charlatão).

Em algumas livrarias, a publicação chegou a ter seu preço reduzido de 275 pesos para 3, ou promoções de compre um e leve dois.

Polêmica antes da Copa

Quando visitou sua cidade natal antes da viagem para Copa do Mundo, Sampaoli se meteu em confusão ao sair de um casamento à noite. Alcoolizado, foi barrado por um agente de trânsito e reclamou.

Jorge Sampaoli antes da partida das oitavas de final da Copa do Mundo, contra a França
Jorge Sampaoli antes da partida das oitavas de final da Copa do Mundo, contra a França - Carlos Garcia Rawlins-30.jun.18/Reuters

"Você ganha 100 contos por mês!", ironizou.

 O incidente foi filmado e pouco depois estava em todos os veículos de comunicação da Argentina. O treinador se desculpou. 

Roqueiro proibido

O futebol não é a única obsessão do treinador nascido em Casilda (67 km de Rosário, na Argentina). Suas tatuagens fazem alusão a bandas de rock de que gosta. Amigo de Patricio Fontanet, líder da banda Callejeros, foi um dos que mais fizeram campanha pela liberação do músico. 

Imagem de tatuagem no braço esquerdo de Sampaoli, que segura a camisa do Santos
Imagem de tatuagem no braço esquerdo de Sampaoli, que segura a camisa do Santos - Paulo Whitaker-18.dez.18/Reuters

​Fontanet foi liberado em maio deste ano após ficar sete anos preso pelo que ficou conhecido como a tragédia de Cromañon, em que aconteceu incêndio durante show da banda em que morreram 194 pessoas.

Uma das tatuagens mais que Sampaoli mais gosta está em seu braço e está escrito “no escucho y sigo porque mucho de lo que está prohibido me hace vivir” (não escuto e sigo porque muito do que está proibido me faz viver, em espanhol), trecho da letra da música “Prohibido”, do Callejeros. Segundo o treinador, esta é uma de suas filosofias de vida.

Preceito que esqueceu durante a Copa da Rússia e que sempre considerou um dos segredos do seu sucesso. Pode reencontrá-lo na Vila Belmiro.

João Gabriel, Alex Sabino e Klaus Richmond
Erramos: o texto foi alterado

Ao contrário do publicado, a tradução do título do livro "Mis latidos" não é "Meus latidos". Em tradução livre do espanhol, o correto seria "As batidas do meu coração". 

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