Ex-promessa olímpica se livra das drogas e tenta retomar boxe

David Lourenço fugiu de concentração e passou por clínica de reabilitação

Retrato do boxeador campeão dos Jogos Olímpicos da Juventude de 2010, David Lourenço (27), promessa de medalha para Londres 2012, Rio 2016 e Japão 2020, que ao invés de vencer no esporte foi parar em centro de reabilitação para alcoólatras, e agora tenta dar a volta por cima passando a boxe profissional.
Retrato do boxeador campeão dos Jogos Olímpicos da Juventude de 2010, David Lourenço (27), promessa de medalha para Londres 2012, Rio 2016 e Japão 2020, que ao invés de vencer no esporte foi parar em centro de reabilitação para alcoólatras, e agora tenta dar a volta por cima passando a boxe profissional. - Bruno Santos/Folhapress
Eduardo Ohata
São Paulo

O ano de 2010 foi inesquecível para o boxeador David Lourenço, então com 18 anos. Primeiro, veio a conquista do título mundial juvenil, em maio daquele ano, no Azerbaijão. Três meses depois, em agosto, conquistaria o ouro na edição inaugural dos Jogos Olímpico da Juventude, em Cingapura. Logo, foi alçado à condição de “certeza” de medalha olímpica em Londres, Rio e Tóquio.

Ao lembrar das conquistas, David Lourenço, hoje com 27 anos, deixa escapar, durante breves segundos, um discreto sorriso. Mas logo um semblante sério toma conta de seu rosto. Ele conta que acabou de deixar uma clínica de recuperação para alcoólatras e dependentes químicos em Itapecerica da Serra, região metropolitana de São Paulo.

“Tive problemas com álcool, até cocaína, fiquei um ano em tratamento em uma clínica, os três primeiros meses internado, logo comecei a trabalhar na própria clínica como monitor, depois como coordenador, e já podia sair”, revela David. “Uma vez por semana frequento reuniões de grupo da Igreja Bola de Neve, um dá força para o outro.”

Como uma promessa como David Lourenço desperdiçou a oportunidade de transformar em ouro seu potencial, é um dos maiores enigmas do esporte olímpico nesta década.

“Fiquei empapuçado daquilo, de só se falar nas medalhas, no que eu iria fazer na Olimpíada, perceber que tinha gente da família mais preocupada com o dinheiro que eu estava ganhando, ou poderia ganhar”, conta David.

“Eu chegava em casa, em Guarulhos, no fim de semana e um [familiar] perguntava o que eu estava fazendo ali, que era melhor eu ter ficado na [sede da] seleção treinando do que em casa. Mas eu não sou uma máquina de lutar, tenho sentimentos.”

David diz que tudo o que queria naquele momento era ter dado um tempo na carreira, ter tirado férias do boxe.

“Todo mundo vinha falar comigo só sobre medalhas, o que esperavam de mim”, diz David, irritado.

Chegou uma hora que eu virava as costas, ia embora, e deixava as pessoas falando sozinhas, eu deveria ter dado um tempo”, afirmou.

A mídia, à época, registrou o primeiro sumiço de David, que deixou a concentração da seleção brasileira de boxe, em Santo Amaro, não voltou para casa, e ficou desaparecido durante dias. Isso passou a ser cada vez mais frequente.

 

“Às vezes ia para casa de um amigo, outras, dormia dentro do carro mesmo, eu queria esquecer o boxe”, diz David.

Daí para a frente, tudo o que poderia piorar para o campeão, piorou. David viu seu salário na seleção nacional diminuir; seu lugar, antes intocável, ser ocupado por outros. Foi de estrela da academia a sparring (parceiro de treinos).

“Cheguei a pensar em tirar a minha vida”, confessa o atleta.

Como na célebre música de Raul Seixas, “Ouro de Tolo”, o que na teoria pareceu ser algo muito positivo para a carreira de David, o fato de ter se tornado o melhor lutador do mundo em sua categoria de peso, acabou à época trabalhando contra o jovem atleta. 

Resgatado por seu primeiro treinador, Ricardo Rodrigues, graças a um bate-papo despretensioso via mídia sociais, David voltou a treinar, perdeu peso, retomou contato com a seleção brasileira, chegou a sonhar em representar o Brasil na Olimpíada do Rio, em 2016, mas retomou os velhos hábitos. Engordou e chegou aos 110 kg (havia sido campeão da Olimpíada da Juventude com 75 kg). 

Desta vez, porém, David recebeu um ultimato do técnico: “Primeiro vá se tratar, para eu voltar a trabalhar com você.”

David aceitou. “Foi a primeira vez que fui para uma clínica, e funcionou. Agora, para não ‘escorregar’ participo de reuniões semanais, cada um dá força para o outro”, conta.

Após concluir o tratamento e de muita reflexão, o boxeador abriu mão do sonho olímpico. O plano de atleta e técnico, amparados por um “mecenas”, Sandro Rocha, dono da academia Rocha Fight, em São Caetano do Sul, disposto a apostar no projeto.

Ele disponibiliza psicóloga, nutricionista, fisioterapeuta, e até coaching, para que David lute boxe profissional. Acreditam que ele pode conquistar algum cinturão mundial.

A estreia no profissionalismo deve acontecer até maio. Pela programação, David deve subir ao ringue uma vez por mês até o final deste ano, para acelerar a carreira.

Incentivo é o que não falta. Além de comemorar a marca de mais de um ano sóbrio, ele reúne forças pensando na filha Laura, nascida em dezembro de seu relacionamento com a namorada, Silveria.

“Agora não luto por medalha, mas para por comida na mesa. É por elas [Silveria e Laura] que subo no ringue”.

 
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