Sucesso no Mundial contrasta com caos nos bastidores do surfe brasileiro

Com afastamento de presidente, última etapa do Circuito Brasileiro sequer foi realizada

Filipe Toledo participa de campeonato de aéreos paralelo à primeira etapa do Circuito Mundial de Surfe

Filipe Toledo participa de campeonato de aéreos paralelo à primeira etapa do Circuito Mundial de Surfe Matt Dunbar/Getty Images/WSL

Luiza Ferraz
São Paulo

Desde que Gabriel Medina se sagrou campeão do Mundial de surfe pela primeira vez, em 2014, e o mundo conheceu a “Tempestade Brasileira” (como é chamada a atual geração de atletas do país), o futuro da modalidade nunca esteve tão nebuloso.

Enquanto o país domina a elite do esporte com 13 surfistas na elite do circuito mundial, somados homens e mulheres, a estrutura local sofre para formar novos atletas.

Somente no final de fevereiro foi divulgado o calendário de competições da atual temporada nacional, mas sem garantias de que a confederação terá recursos para bancá-las.

Mesmo a preparação da seleção para o Pan-Americano de Lima não está definida, embora a entidade afirme ser o seu foco em 2019. No ano passado, a última etapa do Circuito Brasileiro Profissional nem sequer foi realizada.

Esse cenário é reflexo de uma crise enfrentada pela 
CBSurf (Confederação Brasileira de Surfe), que se agravou em setembro do ano passado e culminou no afastamento do presidente Adalvo Argolo pela Justiça por dois meses.

“O surfe corre o risco de não ter uma geração igual a essa que está aí. É preciso que as pessoas tenham mais humildade, lembrar que não há dono, cada um tem a sua importância, e pensar a médio e longo prazo”, diz Luiz Campos “Pinga”, que foi diretor da marca esportiva Oakley por 15 anos e responsável por descobrir talentos da atual geração.

Na época em que os campeões mundiais Gabriel Medina, 25, e Adriano de Souza, 32, começaram no esporte, existia um circuito nacional consolidado, em diversos estados.

Ao fim, a competição formava uma seleção dos mais bem colocados, que disputavam o ISA Games, torneio internacional da modalidade inferior à Liga Mundial em relevância.

“Tínhamos um bom relacionamento com o governo federal, e as contas desses projetos eram sempre aprovadas, nunca tivemos problema”, disse Juca de Barros, ex-presidente da CBSurf.

Gabriel Medina disputa bateria da etapa de Gold Coast do Mundial de Surfe
Gabriel Medina disputa bateria da etapa de Gold Coast do Mundial de Surfe - Matt Dunbar/Getty Images/WSL

Fatores externos também ajudaram essa geração. Com o dólar mais baixo em relação ao real, as marcas que investem no esporte tinham mais capital para realizar projetos.

“A gente dava assistência médica, curso de inglês e os mandava para o exterior, onde surfavam ondas de nível mundial”, diz Pinga, hoje agente de Ítalo Ferreira, quarto colocado na Liga Mundial em 2018.

Em 2010, o atual presidente da confederação, Adalvo Argolo, assumiu o cargo pela primeira vez. Ele afirma que, nos últimos anos, a entidade teve dificuldade para vender projetos de eventos nacionais.

“A partir do momento em que não conseguimos mais vender os projetos, as federações estaduais que têm condições passaram a organizar o campeonato nacional em seus estados”, afirma Argolo.

Por isso, nos últimos anos, etapas do circuito ocorreram somente no Nordeste, o que deixou o torneio inacessível para alguns surfistas. Jovens do Sul e do Sudeste sem patrocinadores tinham dificuldade para bancar as viagens.

Em setembro do ano passado, a crise no surfe do país foi escancarada. Os atletas que representariam o Brasil no ISA Games, no Japão, que classificava para os Jogos Pan-Americanos, em julho deste ano, foram avisados que a viagem estava cancelada poucos dias antes do embarque.

Segundo o Comitê Olímpico do Brasil (COB) a verba para a viagem foi aprovada em 17 de julho, com o repasse previsto para 1º de agosto. Nessa data, porém, a CBSurf estava impossibilitada de receber recursos por atraso na prestação de contas de outros projetos.

O COB ofereceu ajuda para custear a viagem, mas a confederação preferiu esperar. Assim que regularizou suas pendências, em 3 de setembro, iniciou o planejamento.

 

Como a competição começaria em 12 dias, os dirigentes encontraram dificuldades na contratação de hospedagem, alimentação, aluguel de veículos e passagens aéreas. Àquela altura só estavam disponíveis voos com conexão nos EUA, mas não havia mais tempo para solicitar os vistos para os atletas inscritos.

O caso fez com que o vice-presidente da confederação, Guilherme Pollastri, solicitasse o afastamento de Argolo, alegando falta de prestação de contas e divergência de endereços fornecidos para o edifício-sede da confederação. O pedido foi acatado pela Justiça Federal em Brasília.

“O trabalho da confederação é buscar todas as verbas disponíveis para serem investidas através de projetos bem elaborados. Outras instituições não confiavam mais em parcerias pela falta de organização”, diz Pollastri. Após vencer as disputas judiciais, Argolo voltou ao cargo em janeiro.

Nesse período, todas as verbas repassadas pelo COB à entidade ficaram congeladas. Assim, não foi possível realizar a última etapa do circuito brasileiro profissional de 2018.

No fim de fevereiro foi divulgado o calendário com as competições de 2019, incluindo quatro etapas do circuito amador: duas no Nordeste, uma no Sul e outra no Sudeste.

Segundo a entidade, o objetivo agora é levar a seleção para o Pan de Lima, acompanhar a performance dos atletas no Mundial e organizar a viagem para o ISA Games, realizado novamente no Japão.

Esses três campeonatos distribuem vagas para Tóquio-2020. Na Olimpíada serão 20 homens e 20 mulheres no total, sendo permitida apenas a inscrição de dois surfistas por gênero para cada país.

Os representantes brasileiros devem ser definidos na Liga Mundial deste ano, que classifica os dez melhores homens e as oito primeiras mulheres para Tóquio.

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