Time dos judeus de Londres, Tottenham já sediou jogo da Alemanha nazista

Amistoso entre ingleses e alemães aconteceu em 1935, no estádio do clube

Bruno Rodrigues
São Paulo

Na década de 1970, quando o hooliganismo emergia com força no futebol inglês, não eram raros os cânticos antissemitas direcionados aos torcedores do Tottenham nos estádios do país.

"O seu rabino sabe que você está aqui?" e "Os Spurs estão a caminho de Auschwitz, Hitler jogará gás sobre eles novamente" eram alguns dos mais comuns, acompanhados de saudações nazistas e um som que imitava a liberação do gás nas câmaras.

Alemães fazem a saudação nazista no amistoso entre Alemanha e Inglaterra, em 1935
Alemães fazem a saudação nazista no amistoso entre Alemanha e Inglaterra, em 1935 - British Pathé/Reprodução do YouTube

O que os fãs do clube londrino decidiram fazer? Incorporar a identidade. Passaram a se autoproclamar "Yid Army", o Exército Yid –palavra em inglês de cunho ofensivo utilizada para denominar judeus. Foi no início do século passado que o Tottenham começou a construir a imagem de time da comunidade judaica.

Emigrantes judeus deixaram o leste europeu no fim da década de 1880 em um movimento de fuga rumo a Londres, onde se estabeleceram inicialmente na região leste da cidade, para depois migrar em bom número ao norte, onde a pujante indústria local oferecia empregos no bairro de Tottenham Hale.

O clube de futebol da região era o caminho natural para uma comunidade que buscava pertencimento na terra que os acolheu. Especialmente a segunda geração de judeus, já nascida no país.

Hoje, segundo o Jewish Chronicle, jornal da comunidade em Londres, o contingente judaico na torcida da equipe não passa de 5%, mesmo índice aproximado do Arsenal. Ao contrário do Tottenham, o rival nunca abraçou a identidade de "yid".

Na década de 1930, contudo, era quase impossível dissociar os Spurs dessa marca. Um repórter do Daily Express escreveu, em 1934, que estava "cercado de fãs judeus na arquibancada" de White Hart Lane. No ano seguinte, jornais londrinos chegaram a noticiar cerca de 10 mil judeus em jogos do Tottenham, o equivalente a um terço do total.

Foi justamente em 1935 que essa história de pertencimento e identificação viveu seu episódio mais emblemático. E para os judeus torcedores do time, o mais sombrio.

Inglaterra e Alemanha disputaram um amistoso em dezembro de 1935. À época, os alemães já eram governados por Adolf Hitler e a seleção nacional era mais um importante instrumento de propaganda do nazismo.

O local para sediar o amistoso não poderia ser mais controverso: o White Hart Lane. Segundo a federação inglesa, a escolha foi involuntária, fruto de um revezamento pensado para que a equipe inglesa jogasse em várias localidades diferentes na cidade e no país.

Receber a seleção nazista gerou reações diversas por parte da sociedade londrina. Os grupos anti-fascistas e coletivos judeus, é claro, repudiaram a realização do confronto. "Os judeus reclamam do tratamento dos nazistas aos seus compatriotas na Alemanha e exigem o cancelamento do jogo", dizia um texto do Tottenham Weekly Herald.

No mesmo jornal, um leitor, proprietário do carnê de ingressos para toda a temporada, enviou um artigo ao diário com o título "Inglaterra para a Inglaterra", no qual dizia que "os Spurs sempre terão apoio suficiente do torcedor inglês sem se preocupar com os 'yids'. Será muito bom assistir a uma partida da Inglaterra só com torcedores ingleses", escreveu.

Para tentar minimizar o desgaste, autoridades dos dois países tentaram elaborar uma espécie de plano diplomático para que o jogo não virasse palco de manifestação política. A princípio, bandeiras com suásticas foram proibidas.

O acordo diplomático reinou somente até a entrada das equipes no gramado. Perfilados, os atletas da seleção alemã fizeram a saudação nazista, gesto repetido por boa porção de White Hart Lane e não só pelos 10 mil torcedores germânicos presentes.

Uma bandeira nazista foi hasteada na Main Stand, principal arquibancada. Ernie Wooley, um torcedor do Tottenham fabricante de ferramentas, percebeu que os quase 800 policiais dentro do estádio não tiravam os olhos dos torcedores. Ele se deslocou até a West Stand, subiu no telhado da outra arquibancada e, com uma faca, cortou a bandeira.

Quando desceu, foi preso. Mas não perdeu a oportunidade de dizer que "a bandeira nazista é odiada neste país". Poucos minutos depois outra bandeira foi hasteada a meio mastro.

No campo, a Inglaterra venceu por 3 a 0, com gols de George Camsell (2), atleta do Middlesbrough, e Cliff Bastin, jogador do Arsenal.

Após a partida, a federação inglesa recebeu os oficiais alemães para um jantar de confraternização no Victoria Hotel. Foi feito um brinde ao Rei George 5º. Em seguida outro, desta vez para Adolf Hitler.

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