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Futebol Internacional Brexit

Dominante, futebol inglês flerta com volta ao passado com brexit

Revolta contra a União Europeia é, na essência, uma revolta contra a era da globalização

Mathias Alencastro

Em meados dos anos 1990, o "ugly" Arsenal manejava na perfeição o estilo “carrinho e chute de fora da área” encarnado por figuras como David Seaman, Tony Adams e Martin Keown. O futebol inglês estava se recuperando da exclusão pela tragédia de Heysel em 1985, quando torcedores do Liverpool esmagaram seus rivais da Juventus contra uma parede.

Os 39 mortos custaram aos times ingleses uma suspensão de cinco anos das competições da Uefa (seis para o Liverpool). Durante essa era do gelo, o jogo truculento do Arsenal era uma ode ao futebol inglês tradicional que resistia ao tempo e às adversidades.

O holandês Van Dijk e o brasileiro Lucas dividem a bola em partida da Premier League
O holandês Van Dijk e o brasileiro Lucas dividem a bola em partida da Premier League - Paul Childs/Reuters

Tudo mudou em menos de uma década. Em 2003, o "ugly" Arsenal deu lugar ao time que ganhou o apelido de “Invincibles”. Tinha Thierry Henry e Dennis Bergkamp, uma formação virada para a construção do jogo e criação de espaços que serviu de modelo para times radicalmente avessos ao estilo britânico.

Mais importante ainda, a passagem do estilo rústico ao gourmet foi uma consequência da internacionalização massiva do plantel. Em 2005, o time de Londres foi o primeiro a alinhar um onze na Premier League só com estrangeiros. No mesmo ano, o referendo sobre a nova constituição europeia era cancelado no Reino Unido, e o psicodrama da relação com a União Europeia, mais ou menos resolvido durante o governo Tony Blair, começava a voltar com força no debate nacional.

A sensação de que a Inglaterra estava perdendo a sua identidade não se limitava ao gramado. Tottenham, Chelsea, Manchester United, Liverpool e muitos outros clubes foram adquiridos por proprietários estrangeiros.

Em alguns casos, os novos patrões criaram uma relação de carinho com a torcida. Em 2018, o Leicester sofreu horrores com a morte do seu presidente, o tailandês Vichai Srivaddhnaprabha. Mas na maior parte das vezes a entrada de um estrangeiro foi vivida como a privatização de um recurso público. Associações de torcedores em Manchester e Liverpool tentam resgatar a propriedade do clube por todos os meios.

A revolta contra a União Europeia é, na sua essência, uma revolta contra a era da globalização.

Globalização que permitiu aos times ingleses terem os melhores jogadores, independentemente de onde eles tenham nascido. O resultado disso é o domínio dos clubes da Premier League em competições europeias na atual temporada. O Chelsea venceu o também londrino Arsenal na final da Liga Europa, em Baku. Liverpool e Tottenham disputam a final da Champions League, neste sábado (1º), em Madri.

Orientada por um técnico com sotaque incompreensível e liderada por jogadores toscos mas valentes, a seleção inglesa na última Copa realizou, de alguma forma, o desejo de regresso aos velhos tempos formulado pelos defensores do brexit.

O time de 2018 não tinha nada a ver com o time de 2006, recheado com estrelas caprichosas como Beckham –um dos raros ingleses a brilhar no exterior– um técnico sueco, e jogadores politicamente engajados como Sol Campbell. Mas o regresso ao futebol autêntico também traz os seus riscos. Embora a federação inglesa tenha oferecido garantias de que o brexit não afetará o mundo do futebol, as restrições na relação com a União Europeia terão um impacto profundo nas formações de base.

Será mais difícil, por exemplo, para jovens jogadores de países europeus continuarem a sua formação em times ingleses. Um mercado importante que rendeu craques como Patrick Vieira e Gerard Piqué. No futebol como na vida real, a busca obsessiva pelo passado pode acabar no mais puro retrocesso.

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