Brasil perde para a França e se despede da Copa do Mundo

Anfitriãs venceram por 2 a 1 e avançaram às quartas de final do Mundial

Lucas Neves
Le Havre

É preciso chorar no começo para poder rir no final. Com essa máxima, a atacante Marta, 33, instou as jogadoras mais novas, após o Brasil ser eliminado da Copa neste domingo (23), a trabalhar duro para fazer evoluir o futebol feminino no país.

A seleção, que veio em uma ascendente de consistência e volume de jogo no torneio, repetiu a campanha de 2015 e caiu nas oitavas de final. Mas vendeu caro a derrota para as anfitriãs francesas, que precisaram de um gol na prorrogação para prevalecer por 2 a 1.

Ao fundo, francesas comemoram a classificação às quartas de final do Mundial
Ao fundo, francesas comemoram a classificação às quartas de final do Mundial - Franck Fife/AFP

Ainda assim, trata-se do pior desempenho do time desde a segunda edição do Mundial, em 1995, quando não avançou para a fase decisiva.

Depois do embate no qual encerrou sua quinta participação em Copas, Marta fez um chamamento a atletas em começo de carreira –evitando, porém, qualquer tom de despedida.

“Precisa treinar mais, precisa se cuidar para poder sorrir no fim”, disse, sem endereçar o comentário a interlocutoras específicas. “Não vai ter uma Formiga para sempre, uma Marta, uma Cristiane. Mas existe gente bem mais velha do que eu aí. Estou só com 33 anos. O Dani Alves tem 36 e está na seleção. Presta atenção!”

Segundo a atacante, “quem sonha em estar na seleção precisa começar a fazer agora”. “Vou dizer que não tomo uma cerveja? Tomo, mas na hora em que é conveniente.”

A também atacante Andressa Alves, que se contundiu em um treino durante a fase de grupos e não disputou as últimas duas partidas, fez coro.

“Quer ir para festa? Tudo bem, mas come direito, dorme. Tem que abrir mão... só aprendi a ser 100% profissional quando vim para a Europa”, afirmou ela, hoje no Barcelona.

Além disso, as jogadoras falaram da importância de um trabalho continuado na seleção, na contramão da praxe de períodos curtos de treinamento (às vezes, de apenas alguns dias) antes de competições e amistosos.

“A seleção permanente [para a Olimpíada de 2016] ajudou muito. Quanto mais treinamos juntas, melhor é o resultado”, avaliou a goleira Bárbara, que afirma ter fechado no domingo sua carreira em Mundiais –ela ainda espera disputar a Olimpíada de Tóquio, em 2020.

Na mesma linha, Marta salientou que a formação de um grupo competitivo demanda tempo. “A geração de 2004 a 2008 [que foi vice do Mundial e duas vezes prata em Olimpíadas] ofereceu a ocasião ideal para a gente começar a lapidar outros talentos. Mas a gente a perdeu.”

Para a atacante, “não dá para fazer as coisas a curto prazo, o trabalho não vai produzir efeito em meses”. “A França joga junta há 300 anos. O Lyon [hegemônico na liga feminina] é a base desse grupo.”

De fato, 7 das 23 jogadoras do conjunto anfitrião defendem o clube do leste francês –ao todo, 21 atuam em seu próprio país, o que contribui decisivamente para o entrosamento do grupo. A título de comparação, apenas 7 brasileiras estão na liga nacional.

Também após a derrota, algumas jogadoras mencionaram a necessidade de o futebol feminino ser levado mais a sério pelos clubes do Brasil. “Precisam dar estrutura boa, comissão que entenda o que é o esporte jogado por mulheres”, disse Thaisa, autora do gol brasileiro, ecoando a zagueira Mônica. “Que os clubes não ofereçam só a camisa.”

O time de Marta, Cristiane e Debinha deu trabalho à equipe da casa e fez um jogo quase sempre parelho, mas a superioridade francesa acabou se mostrando intransponível.

O retrospecto de confrontos (5 empates e 3 vitórias das europeias) e a posição das equipes no ranking da Fifa (o Brasil é o décimo, seis posições atrás da adversária) faziam da França a favorita.

As brasileiras não tomaram conhecimento da numeralha. Conseguiram segurar o ímpeto ofensivo francês, algo para que contribuiu muito a volta de Formiga --que cumpria suspensão no jogo anterior. E também criaram oportunidades, com Marta, Debinha e Cristiane.

O primeiro tempo foi tenso, com muitas divididas duras, erros de passes dos dois lados e reclamações sobre a arbitragem, sobretudo após a anulação de um gol francês reavaliado com o uso do VAR.

As francesas voltaram do intervalo fazendo mais pressão e conseguiram abrir o placar aos 7, depois de Tamires (em dia ruim) não conseguir segurar Diani pela direita e ver o cruzamento curto dela ser interceptado por Gauvin.

O Brasil igualou aos 19, num chute forte de Thaisa no canto esquerdo após cruzamento de Debinha.

Na prorrogação, o time europeu se impôs desde o começo, mas faltava eficiência na finalização. A pontaria foi ajustada no início do segundo tempo, depois de um cruzamento pela direita encontrar o pé esquerdo de Henry.

O riso ficou todo no campo francês.

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