Debinha é promessa de craque da geração brasileira pós-Marta

Atacante toma emprestado estilo descontraído de seu ídolo, Ronaldinho

Lucas Neves
Le Havre

Com Debinha, 27, a atacante que desponta como a craque da geração que sucederá a de Marta, Cristiane e Formiga na seleção brasileira, os diminutivos acabam no apelido –decorrente da altura modesta: 1,58 m.

Em sua primeira Copa do Mundo, ela tem dado amostras da envergadura de seu futebol a todo momento. Dribla, acelera jogadas, faz infiltrações pelas laterais que não raro desnorteiam as zagueiras adversárias.

A atacante Debinha na estreia da seleção no Mundial, contra a Jamaica
A atacante Debinha na estreia da seleção no Mundial, contra a Jamaica - Denis Balibouse/Reuters

O misto de habilidade e velocidade remete à característica de Ronaldinho, um de seus ídolos –e, porque não, ao perfil de outro modelo para esta mineira de Brazópolis, o piloto Ayrton Senna (1960-1994).

Com esses trunfos, ela espera poder pesar no jogo do Brasil contra a França, neste domingo (23), pelas oitavas de final do Mundial, e começar a reverter um retrospecto amplamente favorável para as europeias. Em sete embates até hoje, houve três vitórias francesas e quatro empates.

Do último encontro, em novembro passado, as agora anfitriãs saíram com um placar favorável de 3 a 1. Debinha reconhece as qualidades das oponentes, mas não se intimida.

Quem a viu cruzar com precisão para Cristiane ampliar a momentânea vantagem do time contra a Austrália, na segunda rodada, ou suspirou com seu quase gol de letra diante da Itália já percebeu que inibidas ficam as rivais.

A sem-cerimônia vem desde a época em que ela articulou a criação de uma equipe feminina de futsal em seu colégio, aos 13 anos. "Eu e mais quatro sabíamos jogar. As outras não curtiam muito, mas eram nossas amigas", diverte-se.

Pouco antes, Debinha chegou a integrar um time juvenil misto, no qual se destacou. Resultado: na edição seguinte, as formações com garotos e garotas foram proibidas.

Aos 14, ela passou na peneira do Santos, mas não quis cruzar a divisa estadual sozinha. A mudança acabaria ocorrendo no ano seguinte, quando ela se juntou ao elenco do Saad em Águas de Lindoia (SP).

"Minha mãe sempre pegava no meu pé", lembra a atacante, desde 2017 no North Carolina Courage (EUA).

"Quando ia jogar com meninas, ela me deixava voltar para casa às 22h30. Mas quando era com meninos, precisava pedir autorização para o meu pai, que acabava deixando, desde que as minhas irmãs mais velhas fossem junto", conta.

Do Saad ela pulou para Portuguesa, Centro Olímpico (SP), São José dos Campos e, a partir de 2013, para Noruega, China e finalmente Estados Unidos, palco de uma das ligas de futebol feminino mais fortes do mundo.

A atleta, porém, não descarta voltar ao Brasil. Uma das principais fragilidades da seleção, evocada inclusive pelo técnico Vadão, é o fato de as jogadoras estarem espalhadas pelo mundo e sujeitas a calendários de treinos, competições e férias que não se sincronizam uns com os outros.

"Nós que jogamos no exterior conversamos sobre essa possibilidade de retornar e como isso ajudaria a melhorar o nível do Brasileiro, que já vem aumentando com os investimentos de muitos clubes em times femininos", afirma.

Depois de alguma insistência, Debinha aceita apontar seus diferenciais: "na velocidade, no individual e no drible, talvez eu me destaque".

Porém, emenda de bate-pronto, para evitar qualquer impressão de pedantismo: "Tem muita coisa para melhorar, a começar pelo psicológico. Não é que eu sinta a pressão ou fique nervosa [por estar em uma Copa]. Isso passa no primeiro jogo. Mas acho que me falta tranquilidade na finalização, por exemplo."

De fato, há quem diga que Debinha às vezes prende demais a bola. Deve ser cacoete de quem, nas horas de lazer, tem na solidão do skate um de seus passatempos preferidos.

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