Descrição de chapéu Copa do Mundo Feminina

Maior artilheira das Copas, Marta goleava até em chão de terra batida em BH

Atleta jogou de 2003 a 2004 na capital mineira, dividindo casa e recebendo salário mínimo

Fernanda Canofre
Belo Horizonte

​​Quase dois anos depois de embarcar no ônibus que a levou de Dois Riachos (AL), onde nasceu, até o Rio de Janeiro, Marta Vieira da Silva se viu sem clube para jogar futebol. Ela recebeu a notícia que o Vasco estava encerrando o time feminino logo depois de disputar a Copa do Mundo sub-19 com a seleção brasileira, no Canadá. 

Ser jogadora era o único sonho que importava para Marta, então com 16 anos. Foi aí que uma colega de equipe, Ludmila, pegou o telefone e ligou para a técnica com quem tinha trabalhado em Belo Horizonte e pediu uma vaga para "uma menina que foi destaque no Mundial" e estava sem nada. Do outro lado da linha, Vera Lúcia estava cética.

No seu time, só entravam "atletas com nível de seleção brasileira", como Miraildes Maciel Mota, a Formiga.

Mesmo assim, Vera aceitou fazer um teste com a tal Marta. Pagou as passagens de ônibus para que as duas pudessem viajar para a capital mineira. 

"A gente fez o primeiro treino e já viu: essa menina joga mesmo. Não só pelos passes, mas pelo chute dela de esquerda —ela tem um chute fortíssimo de esquerda. Ela punha a bola onde ela queria", lembra Vera, hoje com 75 anos. 

Foi assim que Marta, 33, chegou ao Santa Cruz-MG, clube criado em 1951 no bairro Maria Virgínia, na capital mineira.

No campo de terra batida, ela ganhou todas as taças que disputou nos dois anos em que ficou por lá, muitas delas em competições amadoras.

Quando Marta estava em campo, os placares eram sempre elásticos. Seu time marcava de 15 a 25 gols por jogo, e a atacante, ainda antes de ser rainha, era sempre artilheira, chegando a fazer por volta de 15 ou 17 gols sozinha. As zagueiras que tentavam marcá-la não eram bem-sucedidas. 

"Ela mantinha muito a bola nos pés. Com esse drible dela, dribles mais curtos", conta João Bosco, que chegou a treiná-la no início. "Eu pedia para ela chegar mais cedo aos treinos, para treinar a perna direita dela, porque ela chutava só com a esquerda". 

As atletas viviam em uma casa emprestada por Bosco e em um apartamento cedido por Soninha, amiga e auxiliar de Vera. Todos os dias, a treinadora passava nos dois locais de Kombi para buscar as jogadoras para o treino.

Marta vivia no apartamento de dois quartos com outras sete atletas. Às vezes, se acontecia alguma briga entre elas, ela passava um tempo na casa de Vera. Era também uma das poucas que recebia salário para jogar —na época, cerca de R$ 240 (R$ 780 em valores corrigidos pela inflação).

"Quando eu vi a Marta jogando, eu disse: meu Deus, vai ser a maior jogadora do mundo se o futebol feminino vingar. A Marta brincava de jogar bola, jogava melhor do que qualquer homem aqui", diz o presidente do Santa Cruz, Cláudio Henrique Soares. 

Mas do clube as jogadoras usavam apenas o nome e o campo. Quem cuidava do time feminino eram Vera e Soninha. As duas, que também foram atletas e nunca encontraram apoio, usavam o próprio dinheiro para manter a equipe ativa, disputando torneios. 

Vera não lembra de quando se apaixonou por futebol. Mas ainda criança se enfiava entre os meninos para jogar no campo de várzea, às escondidas. Se o pai descobrisse, lhe dava uns tapas, conta. "No outro dia, eu sabia que ia ter corretivo, mas ia assim mesmo, porque valia a pena." 

No começo dos anos 1980, já separada do marido, ela e outras cinco mulheres casadas saíram batendo de porta em porta para convidar vizinhas para jogar futebol. Maridos e namorados ficavam possessos com a ideia do grupo. 

Em 1982, três anos depois do fim da proibição do futebol feminino no Brasil, o Racing delas já era o primeiro campeão metropolitano de Belo Horizonte. Na época, havia cerca de 300 times na região, segundo Vera. 

"Tinham muitos homens que iam para o campo só para me ver jogar. Porque eu era craque mesmo. Eu era a Marta do Racing", brinca Vera.

Os pais e a irmã gêmea nunca aprovaram sua incursão no futebol, nem viram seus gols, porque diziam "que era coisa de homem". "Pois eu já acho diferente. Futebol é coisa de mulher sim!", afirma. 

A gana para provar isso a tornou uma obstinada pelo futebol feminino. E, muitas vezes, dura. Vera lembra de uma vez que teve que deixar Marta de castigo quando era técnica dela. A atacante foi jogar em uma quadra de salão e faltou ao treino. Acabou tendo que assistir ao time sentada na arquibancada. Cabisbaixa, Marta jurou que nunca mais iria fazer aquilo.

Quem lembra da alagoana na capital mineira se recorda de sua personalidade forte, na maior parte das vezes séria, mas também brincalhona, que gostava de sair, como todo adolescente.

Foi numa tarde de treino dessa época que chegou à sede do Santa Cruz um fax: Marta estava convocada para disputar a Copa do Mundo de 2003 pela seleção principal. 

Nela, Marta foi descoberta pelo Umea, da Suécia, e o resto é história. Na última terça-feira (18), fez seu 17º gol em Copas do Mundo. Ninguém marcou mais do que ela em Mundiais. Fez gols em cinco edições do torneio. 

Na França, Marta entrou em campo com as cores azul e rosa nas chuteiras, sem patrocínio. Pede igualdade entre homens e mulheres no esporte. Eleita melhor do mundo seis vezes, coisa que nenhum homem conseguiu, ela já não aceita receber menos que os atletas da seleção masculina. 

Vera, hoje técnica voluntária de um grupo de meninas na periferia, também busca apoio. Sonha em retomar o Juventus, time que criou quando deixou o Santa Cruz, para disputar o Campeonato Mineiro. 

Ela e Marta nunca perderam o contato. Há poucos dias, preocupada com a notícia da contusão e ao ver Marta fora da estreia da seleção na Copa, a técnica trocou mensagens com ela por WhatsApp. Tem um carinho de mãe pela rainha do futebol brasileiro. 

"Acho que quando ela nasceu, Deus falou: essa vai brilhar", diz Vera, enquanto segura o par de chuteiras com o qual Marta jogou a Copa de 2003. "Ela teve muita dificuldade de chegar aonde chegou, mas o que Deus faz, ninguém desfaz. Ela é gênio".

Isto é Marta

Nome completo Marta Vieira da Silva
Nascimento Dois Riachos (AL), em 19.fev.1986 (33 anos)
Posição Atacante
Clubes Vasco (2000-2003), Santa Cruz-MG (2003-2004), Umea (2004-2009), Los Angeles Sol (2009-2010), Santos (2009-2011), Gold Pride (2010), Western New York Flash (2011), Tyreso (2012-2014), Rosengard (2014-2017), Orlando Pride (2017-atual)
Principais conquistas 6 vezes a melhor jogadora do mundo (2006, 2007, 2008, 2009, 2010 e 2018), 2 pratas olímpicas (2004 e 2008), vice-campeã mundial (2007)

A jogadora brasileira Marta durante partida contra a Itália na Copa do Mundo de 2019 - Phil Noble - 18.jun.2019/Reuters

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