Descrição de chapéu Tóquio 2020

Caderno de tempos da infância vira amuleto de velocista na crise

Reserva do revezamento campeão mundial se apegou ao objeto ao ficar sem clube

Daniel E. de Castro
São Paulo

De todos os objetos que um atleta pode ter como seu amuleto, um caderno infantil não está entre as escolhas mais óbvias. Mas foi exatamente isso que ajudou Vitor Hugo Mourão, 23, no momento em que ele mais precisou.

Um dos principais velocistas do país, o carioca compôs como reserva o time vencedor da prova 4 x 100 m no Mundial de revezamentos, realizado em Yokohama, no Japão, no último dia 12. Antes de participar da conquista, porém, ele precisou se recuperar de uma maré negativa na carreira.

Em abril de 2017, Vitor Hugo lesionou a coxa quando corria para fechar a prova eliminatória do Mundial de revezamentos, naquele ano, disputado nas Bahamas. Após sentir a fisgada, teve que sair da pista amparado. O Brasil acabou eliminado da disputa sem brigar por medalhas. A lesão encerrou de forma precoce a sua temporada.

Em 2018, veio outra notícia desanimadora, dessa vez fora das pistas. A B3 (ex-BM&F), equipe defendida pelo corredor, na época era a mais poderosa do país, anunciou o encerramento de suas atividades.

Assim como dezenas de outras atletas, ele se viu sem salário e estrutura para continuar treinando em alto nível.

Foi aí que surgiu o amuleto. Sem que a mãe, que vive no Rio de Janeiro, soubesse, ele levou para a casa onde mora com a esposa em São Paulo o caderno que o acompanha desde as competições da categoria pré-mirim (11 e 12 anos).

Eram nas páginas do caderno que Márcia Cristina Pereira anotava os tempos obtidos pelo garoto nas competições. Apesar do aspecto surrado, obra do desgaste sofrido pelo anos, passou a ter uma nova função para o velocista.

“Ganhei algum dinheiro aqui em São Paulo, fiquei um pouco estável, e depois perdi praticamente tudo quando acabou a equipe. Foi um baque muito grande financeiramente. O caderninho foi me relembrando tudo o que passei e vivi para chegar até aqui, e olhando para ele me dá mais força de vontade, porque já pensei bastante em desistir”, diz Vitor Hugo.

Apontado como um dos velocistas mais promissores do país no último ciclo olímpico, ele começou no esporte aos 10 anos. O carioca de Curicica (zona oeste do Rio de Janeiro) se destacou no projeto de atletismo da escola municipal Silveira Sampaio, que fica no mesmo bairro. As dificuldades financeiras, no entanto, atrapalharam no início.

Vitor Hugo em sua casa com o caderno de tempos da infância
Vitor Hugo em sua casa com o caderno de tempos da infância - Gabriel Cabral/Folhapress

“Um dia, minha mãe falou que só tinha arroz e feijão para comer, e ali caiu a ficha que minha maior vontade era fazê-la feliz. Quando eu chegava em casa com medalha, ela anotava no caderninho meu tempo e ficava feliz, e isso me deixava com mais vontade de ver ela sorrindo”, diz.

Vitor Hugo cresceu, evoluiu e mudou-se para São Paulo, onde entrou no time da B3. Em 2018, com o fechamento da equipe, passou a treinar no Núcleo de Alto Rendimento Esportivo (NAR), em Santo Amaro, na zona sul da capital. Em competições, ele defende a Orcampi, clube de Campinas, mas não ganha salários.

Hoje, o corredor depende exclusivamente do dinheiro que recebe da Bolsa Atleta e do que recebe pelo programa de alto rendimento para esportistas das Forças Armadas.

O fim do time da B3, que funcionava em São Caetano do Sul, região metropolitana de São Paulo, alterou radicalmente a rotina de Vitor Hugo. O trajeto de casa para o local de treinamento, antes feito em dez minutos de carro, virou motivo de preocupação e estresse.

“Ou eu saio 5h30 para não pegar trânsito e treinar bem, ou pego uma hora e meia de trânsito e treino mal. Às vezes eu chegava já desanimado, estressado por causa disso e não treinava bem”, afirma.

Em 2016, o carioca foi o único representante brasileiro nos 100 m rasos na Olimpíada do Rio, ao registrar seu melhor tempo até hoje —10s11, um centésimo abaixo da marca que conseguiu no ano passado.

O caderno com os tempos de Vitor Hugo
O caderno com os tempos de Vitor Hugo - Gabriel Cabral/Folhapress

Apesar de ter o quarto melhor tempo entre os velocistas brasileiros em 2018, ele ficou na reserva do revezamento campeão, já que outros fatores, como confiança e entrosamento na passagem do bastão, também são determinantes para definir o time titular.

Mesmo assim, Vitor Hugo diz que conseguiu ajudar passando calma para os companheiros e até para o treinador Felipe de Siqueira, 32. “A pior parte é ver do lado de fora, porque ficamos mais nervosos e ansiosos. A gente sofre pelos quatro. É como ver alguém bater um pênalti”, compara.

O índice para participar dos Jogos Pan-Americanos de Lima, com início no dia 26, não veio, mas ele diz estar tranquilo, já que a meta é voltar a reunir boas condições para o segundo semestre.

Em setembro, os campeões tentarão se manter no topo no Mundial geral de atletismo, em Doha, evento mais relevante que a competição específica de revezamento.

No Qatar, a equipe terá um sexto elemento, mas ainda não há definição de quem serão os titulares e reservas.

“Vou treinar bastante para tentar voltar a ser titular, e eles vão treinar bastante para se manter, então vai ser uma briga saudável para melhorar o revezamento”, afirma Vitor Hugo, certo de que tem com ele um poderoso aliado para os momentos difíceis.

Vitor Hugo (ao centro) na prova dos 100 m rasos da Rio-2016
Vitor Hugo (ao centro) na prova dos 100 m rasos da Rio-2016 - Olivier Morin/AFP
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