Com VAR, narradores de rádio não sabem quando gritar gol

Nova tecnologia complica momento do grito de gol e faz narradores terem que 'encher linguiça'

Fábio Zanini
São Paulo

​​A introdução do VAR (árbitro assistente de vídeo) mexeu com um dos maiores símbolos do futebol raiz, as transmissões pelo rádio.

Locutores que por décadas tiveram como única preocupação narrar em velocidade frenética e ainda assim serem compreendidos, agora se veem diante de novos desafios.

Entre os principais, como proceder quando a marcação do VAR vem no meio do grito de gol e o que fazer para preencher os longos minutos em que nada acontece até uma decisão ser tomada.

A TV, afinal, tem o recurso da imagem, enquanto no rádio há apenas o gogó do narrador e dos demais participantes da transmissão

desesperador", diz Silvio Mendes, 73, locutor da rádio Metrópole, de Salvador. "Eu tenho 49 anos de profissão e nunca pensei em gritar gol cinco minutos depois de a bola entrar", afirma.

Pessoas em gramado
Árbitro consulta o VAR durante partida do Palmeiras contra o São Paulo, em março - Ricardo Moreira/Fotoarena/Folhapress

Uma saída é ironizar a confusão. Em suas narrações, Mendes criou o termo "Varreplay" e outros bordões.

"Eu digo: agora a gente fica por conta da quadradinha do juiz. Quando demora muito, eu falo: troca a pilha ou muda de tomada esse negócio".

Apesar do avanço das transmissões por internet e pay-per-view, o rádio resiste. Segundo dados do Kantar Ibope, 13% das pessoas seguem futebol por esse meio.

Assim como o procedimento de uso do VAR ainda não segue um padrão único, locutores ouvidos pela Folha também não têm uma conduta padrão. Parte defende narrar o gol até o fim, como se nada estivesse acontecendo.

"A gente finaliza o grito para não ter dificuldade na edição. O material histórico não vai explicar o que aconteceu. Depois do grito a gente anuncia o VAR", diz José Aldo Pinheiro, 54, narrador da rádio Guaíba, de Porto Alegre.

"Na hora que o gol é confirmado, eu cito a reação da torcida, chamo o repórter, passo para o comentarista, cito estatística, essas coisas", afirma.

Outros adotam como solução gritar na confirmação pelo árbitro de vídeo, inclusive reconstituindo toda a jogada.

"O que o torcedor faz quando confirma o gol? Grita. Você vai na onda e grita também", diz Nilson César, 57, locutor da rádio Jovem Pan de São Paulo. Com 41 anos de profissão, ele tem visão mais otimista da tecnologia. "Dá até uma graça a mais, um charme", diz.

Uma preocupação comum a todos é com o registro do grito de gol para o arquivo. "A área técnica pede para a gente terminar de narrar", diz Mário Henrique Caixa, 46, da rádio Itatiaia de Belo Horizonte, que agregou uma variação do grito de gol quando ele é confirmado. "Eu grito validou, validou, validooooou!".

 

Caixa diz que é inevitável que o momento da confirmação do gol seja de estranheza. "O próprio jogador fica meio sem jeito de comemorar."

Outra mudança que obrigou a uma adaptação foi na ocorrência de impedimento. Para evitar que o trabalho do VAR seja prejudicado, a nova orientação é que os bandeirinhas deixem o lance seguir até o fim para depois anotar a irregularidade.

Isso inclui casos de impedimento escancarado, obrigando o locutor a participar de uma ficção: seguir narrando um lance que sabe não valer.

"Você vê que o impedimento é claro e o lance continua. A gente tem que seguir narrando, temos que ser fiéis ao ouvinte que não está vendo o que está acontecendo, que está só no rádio", afirma Caixa.

Mas nada é pior, dizem os locutores, do que os longos minutos entre o início da checagem de um lance e o veredicto do árbitro de vídeo. A verificação do gol de Gabriel, do Flamengo, contra o Corinthians, em 21 de julho, é considerada o exemplo mais gritante. Demorou cinco minutos.

Para Nilson César, "aquele foi o absurdo dos absurdos". "A sorte é que o pessoal de rádio tem grande capacidade de improviso", diz. 

O gaúcho José Aldo Pinheiro menciona "a cultura de encher linguiça" nestes momentos. "O comentarista fala uma coisa, outro faz uma conjectura, um terceiro especula o que aconteceu..." 

Decano da locução esportiva no Rio de Janeiro, José Carlos Araújo, 79, atualmente na rádio Tupi, diz que aproveita os minutos de indefinição para reclamar do VAR.

"Eu fico criticando esse tipo de comportamento. Hoje camisa de juiz tem patrocínio. Quanto mais tempo leva, mais o patrocinador aparece. Pode ter uma relação", diz.

 

Araújo, que diz ter mais de 4.500 jogos no currículo, afirma que o VAR foi a transformação mais radical que já viu na carreira. "Me lembro de uma frase que o [ex-presidente da Fifa] João Havelange me falou uma vez: o dia que colocarem a tecnologia no futebol, vai acabar a emoção. Vejo que ele estava com a razão", afirma.

Veteranos, os locutores acreditam que, eventualmente, será encontrado um ponto de equilíbrio. Enquanto isso, diz o baiano Mendes, é importante cuidar da voz: "Uma dica aos mais novos: preparem a garganta. Se acontecerem quatro lances de VAR, vão ter que gritar gol oito vezes".

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