Descrição de chapéu Seleção Brasileira

Domínio gaúcho na seleção brasileira passa de 4.500 dias

Desde 2006, apenas técnicos do Rio Grande do Sul foram escolhidos para o cargo

Alex Sabino Toni Assis
São Paulo

O ano era 2007 e o Grêmio havia eliminado o Santos nas semifinais da Libertadores, dentro da Vila Belmiro. A classificação havia acontecido apesar da derrota por 3 a 1. Depois da partida, o então técnico santista, Vanderlei Luxemburgo, disse que um dia ganharia o torneio sul-americano, mas jogando um futebol bonito, ofensivo, sem retranca. Era uma alfinetada no rival.

No outro vestiário, o gaúcho de Passo do Sobrado, Mano Menezes, treinador gremista, foi informado da reclamação do adversário.

“Saber se defender também é bonito”, rebateu.

Tite antes do início de treino da seleção brasileira em junho
Tite antes do início de treino da seleção brasileira em junho - Lucas Figueiredo-13.jun.19/CBF

Dentro dos estereótipos que podem prevalecer no futebol, a escola gaúcha de técnicos é vista muitas vezes como defensiva, adepta da força em detrimento da técnica. Mas se é assim, como explicar os técnicos do Rio Grande do Sul dominarem a seleção brasileira, a mais vitoriosa na história das Copas do Mundo? São 13 anos em sequência sob o comando de profissionais do Estado.

Depois da saída do carioca Carlos Alberto Parreira, em julho de 2006, Dunga (duas vezes), Mano Menezes, Luiz Felipe Scolari e Tite, que vai dirigir a seleção em amistoso nos EUA nesta sexta-feira (6), contra a Colômbia, ocuparam o cargo.

Em 1969, quando o moral do futebol nacional era baixo após a eliminação na primeira fase da Copa do Mundo na Inglaterra, três anos antes, foi um gaúcho de Alegrete quem restabeleceu o futebol ofensivo da seleção: João Saldanha.

“É mais mito do que verdade [a existência de uma escola gaúcha de técnicos]”, diz Mano Menezes, que comandou a equipe nacional de 2010 a 2012 e contratado na última terça (3) pelo Palmeiras. “Existem técnicos defensores das mais variadas filosofias de jogar futebol em todo o Brasil. Até mesmo entre os gaúchos, a maneira de armar as equipes é diferente. E mais: os próprios técnicos mudam durante a carreira.”

São 4.515 dias consecutivos que a seleção tem um gaúcho como treinador. Na história oficial da equipe, iniciada em 1914, o estado teve o técnico em 6.978 dias. O Rio de Janeiro vem a seguir, com 6.760, embora na quantidade de nomes que ocuparam o cargo os cariocas tenham 10 contra 9 do Rio Grande do Sul.

“Quem assume a seleção brasileira não é pela certidão de nascimento, é pela capacidade. Essa pergunta é feita há bastante tempo, mas a única conclusão possível é que se trata de uma coincidência. E olha que tem muito treinador gaúcho que poderia ter chegado à seleção e ainda pode chegar”, afirma Valdyr Espinosa, campeão mundial com o Grêmio em 1983.

Espinosa é uma das duas referências de Renato Gaúcho na profissão. A outra também é sempre citada por Tite como uma das suas maiores inspirações. Ao ser contratado pela CBF, em 2016, ele prometeu honrar a memória do também gaúcho Ênio Andrade, campeão brasileiro em 1979 (pelo Internacional), 1981 (pelo Grêmio) e 1985 (pelo Coritiba). Ele morreu em 1997.

“Seu Ênio trouxe o sentido de organização e da inteligência em campo, sempre com disciplina. Basicamente, é a ideia de que é possível jogar bonito e vencer”, disse Tite, em entrevista para o livro que leva seu nome, escrito pela repórter da Folha Camila Mattoso.

Andrade seria, na teoria, contraponto a outra escola gaúcha em que a maior referência foi Carlos Froner, considerado mestre de Felipão. Tricampeão gaúcho pelo Grêmio na década de 1960, Froner representava a imagem da força física e da disciplina tática em campo.

Gaúchos foram técnicos da seleção brasileira em 4 das 5 Copas do Mundo neste século. Felipão venceu o título em 2002 e caiu nas semifinais de 2014. Dunga levou o time até às quartas em 2010, mesmo fase da eliminação de Tite em 2018. A exceção foi o Mundial de 2006, na França, quando o treinador foi Carlos Alberto Parreira.

Na Copa América, apenas em 2004, quando Parreira foi campeão, o técnico não era do Rio Grande do Sul. Os títulos de 2007 e 2019 foram obtidos por Dunga e Tite, respectivamente.

“A seleção exige um determinado perfil e os gaúchos se enquadram. Mas dois pontos são muito importantes nessa escolha: os resultados e a meritocracia”, afirma Celso Roth, campeão da Libertadores de 2010 pelo Internacional.

A imagem do futebol de força associado à escola do Rio Grande do Sul continua a aparecer de tempos em tempos. Pouco importa que Renato Gaúcho repita a cada jogo que o seu Grêmio mostra o melhor futebol do país. “E nos últimos três anos, conquistamos seis títulos”, ressalta.

Eliminado na semifinal da Copa do Brasil, o Grêmio está nas semifinais da Copa Libertadores, em que enfrentará o Flamengo. Quanto mais títulos conquistar, mais se credenciará para continuar a sequência gaúcha quando Tite decidir deixar o emprego.

“Minha hora vai chegar na seleção. Quando? Eu ainda não sei”, diz.

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