Desertor romeno condenado à prisão venceu a Champions duas vezes

Miodrag Belodedici foi campeão com Steaua Bucaresti e Estrela Vermelha

São Paulo

O ex-zagueiro romeno Miodrag Belodedici, 55, atuava pelo Estrela Vermelha (SER) quando, em 13 de maio de 1990, ele e seus colegas de time se viram acuados no vestiário do estádio Maksimir, na Croácia, onde enfrentariam o Dinamo de Zagreb pela última rodada do Campeonato Iugoslavo.

Isso porque, dentro do campo, torcedores croatas munidos de paus e pedras e a polícia iugoslava se confrontavam.

Naquele momento estava prestes a acontecer um fato que incendiaria ainda mais o desejo croata de independência. Era o início de uma das maiores revoluções do século 20, que culminaria na dissolução da Iugoslávia após uma série de guerras que marcaram a década de 1990.

O jogador, hoje funcionário da Federação Romena de Futebol, é um dos entrevistados do episódio de estreia do podcast "Bola de Chumbo", série da Folha que estreia nesta sexta-feira (25) com o episódio "O chute que iniciou uma guerra", disponível em agregadores de podcast e que pode ser ouvido no player abaixo.

Nascido em Socol, vilarejo romeno próximo à fronteira com a Iugoslávia, Miodrag Belodedici chegou ao Steaua Bucareste (ROM) com 18 anos, após se formar nas categorias de base do Luceafarul (ROM).

À época, a Romênia era governada com mão de ferro pelo ditador comunista Nicolae Ceausescu (1918-1989), e um de seus filhos, Valentin, era dirigente do Steaua. Intimamente ligado ao poder, o clube funcionava como um braço esportivo dos militares.

"Não éramos profissionais, éramos amadores. Quando vínhamos ao clube, nos davam uma função e recebíamos um salário de tenente ou de capitão. Havia também os prêmios por vitória. Era esse o salário. O clube podia trazer os melhores jogadores do país porque eram militares, e isso facilitava", diz Miodrag por telefone, em espanhol —aprendido em passagens por times da Espanha e do México— à Folha.

Miodrag Belodedici, que foi zagueiro na seleção da Romênia, durante jogo da Eurocopa de 2000
Miodrag Belodedici, que foi zagueiro na seleção da Romênia, durante jogo da Eurocopa de 2000 - Uefa.com/Divulgação

O controle sobre os atletas na Romênia era rigoroso. Só recebiam passaporte, por exemplo, para poder jogar partidas internacionais. Quando retornavam ao país, os documentos eram apreendidos pelos militares. Esse procedimento evitava a transferência de jogadores para outros países.

Com uma geração forte e toda concentrada no país, fruto da política do Estado, o Steaua conquistou a Champions League na temporada 1985/1986 ao superar na final, de forma surpreendente, o Barcelona (ESP), na cidade de Sevilha. Os catalães desperdiçaram quatro penalidades, todas defendidas pelo goleiro Helmuth Ducadam.

Contudo, apesar da glória esportiva, Miodrag não estava satisfeito em Bucareste. "Não gostava do regime [de Ceausescu], de como se vivia na Romênia. Era tudo muito obscuro, as pessoas não podiam fazer nada", conta.

Com raízes familiares na Sérvia, o zagueiro viu na nação vizinha uma oportunidade de reconstrução da carreira e de sua vida. "Falei com todas as pessoas com quem tinha que falar e me deram o passaporte. Perguntaram porque eu havia sacado dinheiro no banco... Eu, minha mãe e minha irmã fomos à Iugoslávia. E lá pedimos asilo político", lembra o defensor, que deixou seu país em 1988.

Quando chegou a Belgrado, Miodrag Belodedici não tinha clube. Para piorar, como era militar na Romênia, a fuga foi classificada em sua terra natal como deserção, o que lhe valeu uma pena de dez anos em território romeno –não cumprida, pois foi retirada após a revolução de 1989 que derrubou Nicolae Ceausescu do poder.

Sem time para jogar, o romeno tomou uma atitude inusitada. Foi pessoalmente ao escritório do diretor de futebol do Estrela Vermelha, bateu na porta, entrou e se apresentou: "Sou Miodrag Belodedici e quero jogar pelo clube". Depois de explicar por mais de uma vez quem ele era, o dirigente percebeu que à sua frente estava um jogador que havia sido campeão da Champions recentemente. Dessa forma, Miodrag ganhou um contrato.

Punido pela Uefa em uma temporada por não cumprir seu acordo anterior com o Steaua, o zagueiro só voltou a atuar profissionalmente em 1989, ajudando o time a conquistar a liga iugoslava no ano seguinte. Na temporada 1990/1991, já era peça importante da equipe que foi campeã da Champions.

Antes da conquista histórica, porém, Miodrag viveu o dia mais tenso de sua vida. Foi em maio de 1990, na Croácia, que uma semana antes do duelo entre Estrela Vermelha e Dinamo Zagreb havia eleito seu primeiro presidente de forma democrática, Franjo Tudman.

Em meio ao ambiente tenso entre croatas, que sonhavam com a independência, e sérvios, ainda donos do poder central da Iugoslávia, as duas equipes tinham o clássico marcado para o estádio Maksimir.

"Quando íamos jogar na Croácia contra o Dinamo ou contra o Hajduk Split, tínhamos problemas porque éramos de Belgrado. Eu não entendia muito as coisas, vinha da Romênia e não sabia desses problemas. Não nos deixavam sair do hotel, passear na rua", afirma Miodrag.

Antes mesmo de a bola rolar, ainda no aquecimento das duas equipes no gramado, integrantes do Delije, o grupo de ultras (hooligans) do Estrela Vermelha, partiram para cima de torcedores do Dinamo na arquibancada sul do Maksimir. Da arquibancada norte, os ultras do time croata, conhecidos como Bad Blue Boys, deram a resposta e foram defender seus compatriotas.

O confronto foi transferido para o campo de jogo, com torcedores do Dinamo entrando em confronto com policiais. Ao ver um dos fãs sendo agredidos pela polícia, o camisa 10 da equipe local, Zvonimir Boban, correu para cima de um policial e o acertou com uma voadora.

A imagem acabou virando um símbolo do orgulho nacionalista croata e entrou para a história como "o chute que iniciou uma guerra". Isso porque, no ano seguinte, a Croácia se declarou independente e deu início a um conflito sangrento com a Sérvia que durou até 1995.

Jogadores do Estrela Vermelha comemoram a conquista da Liga dos Campeões de 1990/1991
Jogadores do Estrela Vermelha comemoram a conquista da Liga dos Campeões de 1990/1991 - Reprodução

Quando a confusão tomou conta do gramado do Maksimir, Miodrag e os atletas do Estrela Vermelha já estavam dentro do vestiário, de onde só saíram duas horas depois.

"O que eu posso dizer sobre o que eu senti [no vestiário]? Medo, medo, ódio, ódio. E medo", diz Miodrag, enfático. "Ficamos lá até que todos foram embora. Vieram dois carros blindados, subimos em um deles e nos levaram direto ao aeroporto. Nem voltamos com o ônibus."

Bicampeão europeu com dois clubes diferentes, o zagueiro romeno ainda defenderia três times na Espanha (Valencia, Valladolid e Villarreal) e um no México (Atlante), além de disputar uma Copa do Mundo com a seleção da Romênia, em 1994, antes de pendurar as chuteiras no Steaua Bucareste, em 2001.

Uma trajetória muito mais tranquila do que aquela vivida até o início da década de 1990 e que foi justamente o período mais vitorioso de sua carreira.

"Não tínhamos liberdade, era tudo nebuloso. E a 200 metros da fronteira, na Sérvia, tinham liberdade, passaporte. Mas fui para lá e me encontrei com uma guerra. Não entendo como as pessoas podem não se entender ou se odiar tanto. É o pior que pode passar na vida de um homem na Terra", completa o defensor, que hoje vive em Bucareste, não mais como um desertor.

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