Ex-sucessor de Sócrates vira administrador de fortunas de jogadores

Mitsuo, que defendeu São Paulo, Corinthians e Flamengo, tem atletas como clientes

Alex Sabino
São Paulo

O meia-atacante brasileiro Mitsuo Alves desembarcou em Atenas no verão de 1991 porque tinha uma proposta do Athinaikos, time do futebol grego. Encontrou no aeroporto o empresário Spiros Karagiorgis, responsável pela intermediação, com expressão desolada.

O clube havia decidido contratar outro estrangeiro, numa época em que cada equipe podia ter apenas dois atletas de outros países. Alves teria de procurar outro destino.

Era apenas mais uma frustração na carreira do jogador que pulava de clube em clube, imaginando que poderia ter sido um craque e tentando esconder que não tinha os ligamentos do joelho direito.

 Mitsuo Alves, ex-jogador que se transformou em administrador de fortunas de atletas profissionais, com camisas de jogadores que são ou foram seus clientes
Mitsuo Alves, ex-jogador que se transformou em administrador de fortunas de atletas profissionais, com camisas de jogadores que são ou foram seus clientes - Zanone Fraissat/Folhapress

Sem alternativa, Mitsuo passou uma semana na Grécia na companhia de Karagiorgis, empresário ligado a Bernard Tapie, ex-presidente do Olympique de Marselha, acusado de comprar resultados e vitórias para o clube no final da década de 1980 e início da de 1990. 

“No dia em que você parar de jogar, quero que venha trabalhar comigo”, disse-lhe o grego.

Começava a morrer ali o Mitsuo Alves atleta profissional. Nascia o Mitsuo Alves administrador de fortunas, que chegou a ter 180 nomes brasileiros e internacionais, na ativa ou aposentados, em sua carteira de clientes. Hoje são 60. Seis meses depois do aviso de Karagiorgis, resolveu pendurar as chuteiras. Estava com 27 anos.

“Em conversa com Spiros, ele perguntou o que os jogadores brasileiros faziam com dinheiro. Disse que gastavam. Contei que eu investia em obrigações do tesouro e ações em uma corretora francesa. Ele ficou assustado e começou a perguntar se eu sabia o que era uma opção, câmbio e outras coisas. Eu sabia tudo porque meu pai trabalhava no mercado financeiro”, explica Mitsuo, hoje com 55 anos.

Quando deu a notícia aos amigos que iria parar de jogar, ninguém entendeu.

“Eu não queria mais continuar no mundo da bola. Era muito sofrido. Machuquei o joelho quatro vezes, cada final de ano tinha de lutar para conseguir clube. Não queria mais estar naquele meio. Se eu tivesse de ser um craque, já teria sido”, completa.

Mitsuo trocou o futebol por dias de trabalho de 16 horas. Era ouvinte nas manhãs em curso de economia na Universidade de Genebra. Depois ia para o escritório Spiros Karagiorgis, onde ficava à tarde, aprendendo. À noite, trabalhava em um bar para completar a renda. Morou 25 anos na Suíça, abriu sua própria empresa e hoje vive nas Bahamas.

Ele desanda a contar histórias de jogadores com os quais trabalha ou trabalhou. Algumas são impublicáveis. Entre os nomes que permite citar como seus clientes estão Dudu, atacante do Palmeiras, Rivaldo, ex-jogador campeão do mundo em 2002, e Renato Gaúcho, amigo dos tempos de atleta e atualmente técnico do Grêmio.

O que o empresário grego viu nele foi também oportunidade única. Estava ali um brasileiro que entendia de mercado financeiro, bom de conversa e com excelentes contatos. O maior patrimônio do jogador passou a ter foi sua agenda telefônica. “Eu sempre fiz networking. Antes mesmo de essa palavra existir."

A carreira de Mitsuo prometia muito. Depois de passar pelas categorias de base de Corinthians e São Paulo, chegou ao time profissional do Suzano. Aos 18 anos, em 1982, foi contratado pelo Flamengo por 3 milhões de cruzeiros (R$ 195 mil em valores atuais) em um tempo em que atletas amadores não eram comprados por outras equipes.

A transferência não lhe foi boa no futebol. Pensava que subiria para o profissional, mas aquele era o Flamengo com o mesmo elenco campeão mundial de 1981 e que ganharia o Brasileiro de 1983. Mas foi muito útil para ele começar a montar sua agenda de contatos. Há gente daquela equipe que ainda tem seu dinheiro administrado por Mitsuo. O meia-atacante Treinou também com a seleção brasileira sub-20 que venceria a Copa do Mundo no México no ano seguinte. Foi ali que conheceu Dunga.

Ele voltou para o Corinthians em 1984 para fazer parte de elenco que ainda tinha Sócrates e resquícios da “Democracia Corintiana”. Alto, barbudo, o garoto lembrava o capitão do time na aparência física e chegou a ser apontado como possível sucessor do camisa 8.

Emprestado ao Rio Preto, rompeu o ligamento cruzado do joelho direito e passou o resto da carreira fazendo musculação para fortalecer a articulação e esconder dos médicos seu histórico físico. Se fizesse muito exercício no local, conseguia suportar os 90 minutos.

Por causa do atacante Gaúcho, ex-Palmeiras e Flamengo, seu grande amigo, morto em 2016, conheceu o empresário que o levaria para a França em 1989. Mitsuo havia sido a revelação do Campeonato Gaúcho do ano anterior pelo Aymoré e campeão do primeiro turno do Pernambucano pelo Náutico.

“Quando estava no Caen [equipe francesa], ajudava os outros a abrir conta no banco, traduzir o que estava escrito. Isso já me deu experiência para saber o que fazia."

Ele usou a Suíça como base para viajar pela Europa para conversar com jogadores.

“Ia para Roma ver o Aldair, tinha o Dunga na Fiorentina, Careca no Napoli. Já era amigo do Valdo e do Ricardo Gomes, que estavam no Benfica, de Portugal. Eu ia falar com os caras. Perguntava o que faziam com o dinheiro. Como eu sabia que jogador de futebol não é guardador, falava para aplicarem comigo”, diz.

Mesmo quando ainda aprendia o que fazer com os recursos dos outros, Mitsuo tinha o mais importante para a empresa de Spiros Karagiorgis e para sua própria: os clientes. Ele era administrador de fortunas sem a fortuna. Mas com a capacidade de atrair cobiçados jogadores brasileiros.

“Eu nunca disse ou digo para a pessoa: você vai ficar milionário. Eu pergunto quanto tempo ainda vai jogar. Eu não tenho o dinheiro, ele tem. Eu preciso trabalhar, mas se ele me escutar, não vai precisar”, finaliza.

É tarefa sigilosa porque entra na intimidade do jogador. Precisa saber onde ele gasta o dinheiro, quanto tem na conta bancária, salário, projetar o futuro. É preciso conversar com a família sobre os planos. Mãe, mulher, irmãos. Nesse caso, a negociação pode ficar feia porque pode significar fechar torneiras de dinheiro usado por agregados do atleta.

Ele conta que a mulher de um então cliente o chamou e pediu para ter uma conta separada do marido, atleta famoso. Ela continuou cliente de Mitsuo por anos. O boleiro gastou US$ 1,5 milhão em um ano (R$ 6 milhões) e torrou boa parte da fortuna que tinha.

Outro atacante  tinha um empresário que comprou uma casa, no nome do jogador, em que a prestação era maior que o salário recebido por ele.

A pergunta é inevitável: qual é o investimento que ele faz, em nome dos atletas, profissionais que muitas vezes ganham mais de R$ 500 mil mensais?

Mitsuo Alves ao lado do sócio Antonio Calil no escritório deles em São Paulo
Mitsuo Alves ao lado do sócio Antonio Calil no escritório deles em São Paulo - Zanone Fraissat/Folhapress

“No Brasil, o investimento mais rentável são títulos do governo. Mas claro que temos nossos próprios produtos em que conseguimos turbinar os rendimentos”, se limita a responder.

Não é uma conversa confortável para quem quer fazer o jogador de futebol não gastar dinheiro, mas guardar. “Jogador de futebol não é investidor. É só guardador e às vezes. Deveria ser investidor. Isso é o que a gente tenta mostrar a ele."

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