Querem tirar dignidade de pessoas trans, diz atleta de vôlei Tifanny

Jogadora tenta barrar projeto que limita atuação de transgêneros no esporte em SP

Carlos Petrocilo João Gabriel
São Paulo

Aos 34 anos e com a consciência de que não terá mais um longo tempo de carreira pela frente, Tifanny Abreu, a primeira jogadora transexual na Superliga feminina de vôlei, divide suas atenções entre as quadras e a plenária da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp).

Na última terça (8), a atleta trocou o tênis pelo sapato, vestiu roupa social e foi para a Casa. Ela é uma das pessoas que tentam barrar o projeto de lei que limita a atuação de transgêneros no esporte paulista.

A proposta do deputado Altair Moraes (Republicanos) estabelece que o sexo biológico seja o único critério para definir se um atleta deve competir na categoria feminina ou masculina. Se aprovada, determinará que mulheres trans só poderão competir entre homens, e homens trans, entre mulheres.

Tifanny Abreu, primeira jogadora trans a atuar na Superliga feminina de vôlei, durante entrevista à Folha
Tifanny Abreu, primeira jogadora trans a atuar na Superliga feminina de vôlei, durante entrevista à Folha - Adriano Vizoni - 8.out.2019/Folhapress

"Querem nos proibir de estar no mercado de trabalho e buscar outro tipo de vida digno como queríamos. Não que as meninas na prostituição deixem de ser dignas. Algumas gostam e, se gostam, têm esse direito. Mas a maioria está ali porque não tem outra opção", diz em entrevista à Folha.

Tifanny ganhou notoriedade ao estrear na Superliga feminina de vôlei pelo Bauru, no final de 2017. Criada em uma família com católicos e evangélicos, sofreu desde então com críticas vindas de políticos representantes dessas bancadas. "Vivemos em um governo onde tem deuses. Tem Deus na boca e não no coração", afirma.

A atuação da jogadora no país é avalizada pela Confederação Brasileira de Vôlei, que segue os critérios do COI (Comitê Olímpico Internacional). A determinação da entidade é de que mulheres trans podem competir na categoria feminina se comprovarem ter nível de testosterona abaixo de 10 nmol/L.

Caso a lei em discussão na Alesp seja aprovada, você teme pelo fim da sua carreira? Não vai mudar em nada na minha vida, não existe time de vôlei somente em São Paulo e posso jogar em qualquer lugar do mundo. Eu pretendo jogar no Brasil até o ano que vem e [depois] vou voltar para a Europa. Se for aprovada, só [entrará em vigor] depois que acabar a Superliga [o torneio começa em novembro e vai até abril].

Então como ela afetaria sua vida? Estou aqui lutando por crianças e adolescentes trans, que têm o sonho de serem cantor, ator, repórter ou atleta profissional. Eu não perco mais o meu dia de sono, como já cheguei a perder, porque esse homem [Altair Moraes] só quer ganhar fama. Mas a justiça de Deus não falha. Ele vai pagar por isso, e eu vou estar na Europa, bem bonitinha, batendo palma.

Como estão outros atletas trans e a comunidade esportiva em geral diante dessa lei? Não existem atletas trans no Brasil. As atletas [de vôlei em geral] estão pasmas com tanta falta de caráter. Nós estamos perplexas, ainda mais por entrar em regime de urgência [na tramitação da Casa], sendo que urgência no estado deve ser educação, saúde e segurança pública. A urgência é parar as pessoas trans no esporte? A comunidade esportiva, no geral, só se preocupa com o COI, que está acima das confederações, federações. O COI determina, e as entidades seguem. Essa lei vai contra as decisões do COI, e com qual embasamento?

O projeto afirma que o nível de testosterona entre homens e mulheres é bem diferente... Não tem uma pesquisa. Ele simplesmente se juntou com a [ex-jogadora de vôlei] Ana Paula e fez isso. Mas não tem nenhum embasamento. Em 2016, o COI decidiu as novas diretrizes e, então, [disse] que não necessitava cirurgia de sexo, era só a testosterona. Fiz [também] a cirurgia, e minha testosterona nunca vai subir porque não tenho produção.

O deputado diz que fez esse projeto baseado em sua experiência de 'quase 40 anos como faixa-preta de karatê'. Pergunta se ele lutou contra algum homem trans? Qual a vivência, qual o contato em uma luta para saber se a força é igual, maior ou menor de um homem trans? Ele compara Michael Phelps com Joanna Maranhão. O Michael Jordan com a Hortência. Giba com Sheilla. Não se compara homem com mulher. Estamos falando de mulheres trans e homens trans. É só pegar os meus pontos da Superliga e comparar com as outras jogadoras, vai estar tudo igual. Isso ele não faz, porque sabe que vai ser um estudo inconclusivo para ele.

O que o projeto significa em um dos países onde, segundo a ONG Transgender Europe, há mais crimes contra a população LGBT? Alimenta o ódio, proíbe as pessoas de trabalhar e obriga a ir para a prostituição, onde tem muito mais risco de assassinatos. Querem nos proibir de estar no mercado de trabalho e buscar outro tipo de vida digno como queríamos. Não que as meninas na prostituição deixem de ser dignas. Algumas gostam e, se gostam, têm esse direito. Mas a maioria está ali porque não tem outra opção.

Como você vê as pautas trans e LGBT na política brasileira? Pouco a pouco estamos conseguindo nossos espaços. A Erica [Malunguinho, do PSOL, primeira deputada trans eleita em São Paulo] está aqui na Alesp, mas enfrenta várias resistências. Assim como eu enfrento, outras mulheres e homens trans enfrentam no mercado de trabalho. É difícil para a gente viver em um país onde você tenta ser digna, mas um político tira a sua dignidade.

Tifanny discursa ao lado da deputada Erica Malunguinho (PSOL) durante ato na Assembléia Legislativa de São Paulo
Tifanny discursa ao lado da deputada Erica Malunguinho (PSOL) durante ato na Assembléia Legislativa de São Paulo - Adriano Vizoni - 8.out.2019/Folhapress

O projeto cita incorretamente que você foi eleita a melhor jogadora do país em 2018. Acredita que já deveria ter sido eleita a melhor do Brasil ou ter sido chamada à seleção? Não é injustiça, os números não mostram isso. Até quando falaram de seleção, meus números estavam abaixo das outras atletas. Como vou ganhar uma coisa que não fiz por merecer? Eu ser eleita a melhor atleta de um jogo é uma coisa, cada dia uma está melhor na partida. Mas para ser a melhor da Superliga é preciso de uma regularidade muito grande, e eu não tive. Eu fui, sim, a melhor do Brasil nas redes sociais pelos transfóbicos e homofóbicos, que espalharam que a melhor jogadora era homem. Fake news.

Você já foi criticada pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). Sente-se ameaçada por ele ou foi um episódio isolado? Vivemos em um governo onde tem deuses. Tem Deus na boca e não no coração. Fazem o que querem, como querem e da forma que querem. Estão afundando nosso país. Quando entrou [o novo presidente], rezamos para dar certo, mas estamos vendo que não é isso que acontece. Fazem críticas pesadas, mas são hipócritas.​​

Você acredita que o vôlei e a prática esportiva em geral podem contribuir na luta pela igualdade de gênero? O esporte é onde se junta pessoas, o rico joga contra e do lado do pobre, assim como o negro com branco, o índio com o europeu. Somos todos unidos por um objetivo, pessoas que se respeitam. Muita criança filhinha de papai perde o espaço para o menino da favela. O esporte é o lugar onde se encontra respeito.

Protesto na entrada da Assembleia Legislativa de São Paulo, contra a aprovação do projeto de lei que limita a atuação de trans no esporte paulista
Protesto na entrada da Assembleia Legislativa de São Paulo, contra a aprovação do projeto de lei que limita a atuação de trans no esporte paulista - Adriano Vizoni - 8.out.2019/Folhapress

Qual importância do esporte na sua vida? É o que me fez viver, a ter forças de ser essa pessoa e querer jogar sempre. Minha preocupação é o impacto que essa lei vai fazer no país futuramente. Eu acho que, se o nosso governador sancionar essa lei, estará junto com a discriminação. Daqui a alguns anos, a história mostrará que o governador sancionou uma lei que fere o estado.

De tudo o que você ouviu por ser uma mulher trans, o que mais a chateou? A pior ofensa é de chegar numa Câmara onde deveriam ter pessoas cultas e que se comunicassem com clareza e ser tratada como animal, como bicho, por homofóbicos, transfóbicos.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.