Ídolo de Maradona fez torcedor celebrar título de rival na prisão

Ricardo Bochini foi o herói da conquista do Independiente no Argentino de 1977

São Paulo

Diego Armando Maradona recebe a bola, olha para o lado e passa para um companheiro. "Nesse momento, senti que estava fazendo uma tabelinha com Deus", disse o camisa 10, depois que a Argentina venceu a Bélgica pela semifinal da Copa do Mundo de 1986.

A divindade a quem Maradona se referiu naquela ocasião é Ricardo Bochini, então com 32 anos, maior jogador da história do Independiente e principal inspiração no futebol do ex-camisa 10 da seleção argentina.

O grande ídolo argentino e seu herói só jogaram juntos por cinco minutos, justamente os instantes finais da vitória argentina sobre os belgas, no Mundial do México. O suficiente para que Maradona realizasse o sonho de atuar ao lado de quem mais admirou futebolisticamente.

Ricardo Bochini, do Independiente, cabeceia contra o gol do Talleres na primeira partida da decisão do Argentino de 1977
Ricardo Bochini, do Independiente, cabeceia contra o gol do Talleres na primeira partida da decisão do Argentino de 1977 - Clarín

Meio-campista de técnica refinada, Ricardo Bochini, um dos personagens do segundo episódio do podcast Bola de Chumbo, da Folha, também foi um camisa 10 capaz de mexer com o imaginário de todas as torcidas da Argentina. Ou quase todas, porque a rivalidade com o Racing praticamente não permite admiração mútua.

​Mas há na história desses dois clubes um caso que mostra como o talento do jogador conseguiu transpor a barreira do fanatismo e fez com que um torcedor do Racing passasse a admirá-lo para sempre.

​Independiente e Talleres decidiram o Campeonato Argentino de 1977. Na partida de ida em Avellaneda, realizada somente no dia 21 de janeiro de 1978, as equipes terminaram empatadas em 1 a 1.

Quatro dias depois, no duelo de volta, em Córdoba, o Talleres precisava apenas de uma vitória simples para conquistar um título inédito para a agremiação. E era a chance de conquistá-lo diante de um gigante como o Independiente, àquela altura já hexacampeão da Libertadores e dono de dez títulos do Argentino.

A possibilidade da taça não atendia só ao óbvio interesse do Talleres, mas também a uma figura em especial: Luciano Benjamín Menéndez, comandante do 3º Corpo do Exército argentino e ilustre torcedor do clube.

Para Menéndez, uma conquista do Talleres significaria um triunfo da província de Córdoba e o consequente aumento de sua popularidade, o que poderia levá-lo, como ele desejava, à presidência da Argentina, que desde 1976 vivia sob regime militar.

No livro "El Partido Rojo" (O Jogo Vermelho, em espanhol), o jornalista Cláudio Gómez descreve de que forma os militares de Córdoba tentaram influenciar o resultado daquela final.

"Há testemunhos que indicam que antes da partida, Menéndez entrou no vestiário dos árbitros. O juiz se chamava Roberto Barreiro. Não se sabe sobre o que conversaram, mas durante o jogo ocorreram muitas irregularidades. O que faz com que se suspeite da influência do militar sobre o árbitro", diz Gómez à Folha.

O Independiente até conseguiu abrir o placar no estádio La Boutique, com gol de Norberto Outes ainda no primeiro tempo. Contudo, o Talleres chegaria à virada em dois lances polêmicos.

Na etapa final, Ricardo Cherini converteu pênalti duvidoso marcado pelo árbitro Barreiro e deixou tudo igual. Depois, Ángel Bocanelli virou para os donos da casa.

O gol de Bocanelli revoltou os atletas do Independiente. Reclamaram que o rival usou a mão para marcar e partiram para cima do juiz. Por reclamação, Barreiro expulsou três jogadores do time de Avellaneda: Enzo Trossero, Rubén Galván e Omar Larrosa.

"A arbitragem não foi ruim, foi péssima", lembra Bochini, hoje com 65 anos, em entrevista à Folha. "Marcou um pênalti para eles que não foi, um gol com a mão que se viu claramente que o jogador toca com a mão. E depois nos expulsou três jogadores. Mais que isso, um árbitro não pode fazer."

Com oito em campo, a equipe do técnico José Pastoriza tinha apenas 20 minutos para tentar o empate que lhe daria o título. Enfrentava, além de uma arbitragem rigorosa, para dizer o mínimo, a pressão dos 25 mil torcedores do Talleres que lotavam as arquibancadas. Para a sorte do Independiente, entre os oito jogadores que restavam, estava Ricardo Bochini.

Após tabela com Daniel Bertoni e Mariano Biondi, "El Bocha", como também era conhecido, chutou da entrada da área para empatar o duelo em 2 a 2, resultado que confirmou a 11ª taça de campeão argentino ao Independiente.

Ricardo Bochini, com o goleiro do Talleres caído (esq.), chuta para marcar o gol do título no jogo de volta da final, em Córdoba
Ricardo Bochini chuta para marcar o gol do título no jogo de volta da final, em Córdoba - Club Atlético Independiente/Divulgação

"A mentalidade era muito ganhadora, era um time muito forte, com jogadores de muita personalidade. Fiz gols contra a Juventus (ITA) [no Mundial de 1973], contra o River Plate em uma final de Nacional, vários gols importantes. E esse foi um deles", diz Bochini.

A alguns quilômetros do estádio La Boutique, palco daquela final, o advogado Carlos Hairabedian sabia que o Independiente e o Talleres decidiam o campeonato. Não porque estava assistindo pela televisão ou escutando pelo rádio, mas porque os guardas do centro de detenção onde ele estava preso desde março de 1976 não escondiam a euforia com a possibilidade de o clube de Córdoba ser campeão.

Torcedor do Racing, ele foi capturado pelo regime por um suposto envolvimento com os Montoneros, um grupo armado de esquerda. Hairabedian escutava os gritos dos soldados durante a partida, mas não tinha uma ideia clara do que se passava.

Só o silêncio da penitenciária é que foi capaz de confirmar o que um soldado lhe havia contado: o Independiente havia conquistado o campeonato. E Hairabedian, mesmo sendo torcedor do Racing, comemorou.

"Nesse dia, devo ter feito a maior das traições para um torcedor do Racing. Me converti em torcedor do Independiente, porque entendia que um triunfo do Talleres seria negativo para nossa sorte. Seria o triunfo do 3º Corpo do Exército", lembra o advogado de 83 anos.

"O inimigo para ele não era o Independiente, o inimigo para ele eram os militares. E ele me diz uma frase muito linda: 'Para mim, Bochini é meu herói secreto'", conta Cláudio Gómez, que entrevistou Hairabedian para seu livro.

Carlos Hairabedian foi solto do centro de detenção apenas em 1979. Torce pelo Racing até os dias de hoje.

"O Independiente era a reivindicação de todos os nossos sonhos, de todas as nossas aspirações como prisioneiros. Valia mais minha condição de prisioneiro que a de torcedor de futebol", completa Hairabedian.

O então presidente e ditador Jorge Videla comemora vitória da seleção de futebol da Argentina na Copa realizada no país, em 1978
O então presidente e ditador Jorge Videla comemora vitória da seleção de futebol da Argentina na Copa realizada no país, em 1978 - 25.jun.1978/AFP

Se para o advogado a conquista do rival representou uma vitória política, para Luciano Benjamín Menéndez a derrota do Talleres freou suas aspirações de chegar à presidência do país. Meses depois, a Argentina conquistaria a Copa do Mundo em casa, com o presidente Jorge Rafael Videla entregando o troféu ao capitão Daniel Passarella.

Administrador do centro de detenção clandestino La Perla, em Córdoba, além de responsável por cerca de três mil casos de sequestros, torturas e assassinatos, Menéndez morreu em fevereiro de 2018, aos 80 anos de idade e com 13 condenações à prisão perpétua por crimes contra a humanidade, sem nunca ter mostrado arrependimento por sua atuação durante o regime militar.

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