Com interferência, Medina colocou em risco vaga na Olimpíada

Surfista cometeu infração proposital para superar seu adversário, Caio Ibeli

São Paulo

A interferência intencional provocada por Gabriel Medina sobre Caio Ibelli nas oitavas de final da etapa de Pipeline da Liga Mundial de Surfe (WSL) ajudou o bicampeão mundial a se manter na disputa pelo título contra Italo Ferreira, mas poderia ter lhe custado a vaga nos Jogos Olímpicos de Tóquio-2020.

O artigo 171.11 do regulamento da WSL estabelece que interferências “intencionais, antidesportivas e graves” podem ser punidas com a perda do melhor resultado do ano ou até mesmo de todos os pontos da temporada. Nos dois casos, Medina seria ultrapassado por Filipe Toledo no ranking e, consequentemente, na corrida pela vaga olímpica.

 

O Escritório de Competição e o Diretor Disciplinar da WSL, ao analisar a interferência, no entanto, entendeu que a ação de Medina, apesar de intencional, não foi “antidesportiva” e “grave”.

“A manobra foi considerada um artifício legal e não representou um risco à segurança de nenhum competidor”, afirmou à Folha Pat O’Connell, comissário da WSL.

A interpretação, no entanto, não é unânime e dividiu o mundo do surfe. Enquanto alguns trataram a interferência como um golpe de mestre, muitos ainda a consideram antidesportiva, em interpretação diferente da feita pela WSL. 

“Eu apenas joguei o jogo, sabia que não era minha prioridade. Sabia que se eu cometesse a interferência só valeria minha melhor onda. Faltavam apenas 20 segundos, então tudo bem. Ele [Caio Ibelli] precisava de algo na casa dos 5, mas eu não sei, estava muito difícil lá. Às vezes se tem algo em jogo, você precisa jogar. Eu sabia na minha cabeça o que eu estava fazendo”, disse Medina.

A explicação não convenceu a todos, especialmente Ibelli, que falou em “jogo sujo” e relatou indignação ao ver, de dentro do mar, o pai e técnico de Medina, Charles, orientando o filho: “Pode rabear, pode rabear”. A imagem foi flagrada e Medina respondeu dando um sinal de positivo, com o polegar da mão esquerda.

Medina durante a disputa de Pipeline, no Havaí
Medina perdeu a final de Pipeline e consequente o título mundial de 2019 para Italo Ferreira - Ed Sloane - 19.dez.2019/WSL

Rabear é, na gíria do surfe, entrar na frente de outro surfista em uma onda, considerado pela WSL como uma interferência.

“Na minha onda seguinte, que seria a minha melhor, ele me rabeou. Isso mostra o tipo de competidor que ele é. Ele joga duro, ele joga sujo se precisar e faz de tudo para vencer. É assim que deve ser a mente de um campeão”, comentou Caio, que ouviu pedido de desculpas de Medina.

“Eu perguntei ‘O que é isso cara?’, e ele falou: ‘Me desculpa, me desculpa...” E eu respondi, ‘desculpar o quê?’ Isso me faz querer vencer mais e derrotá-lo na próxima vez”, afirmou Ibelli.

Onze vezes campeão mundial, o americano Kelly Slater, que em 2017 já sofreu uma interferência de Medina em situação similar à de Ibelli, fez um post em seu Instagram sugerindo que Caio que entrasse com representação na WSL, indicando inclusive artigo 171.11 do regulamento.

Segundo o empresário do surfista brasileiro, Luiz Pinga, o atleta não pretende entrar com representação contra o compatriota.

O maior beneficiado em eventual punição de Medina na corrida pela vaga olímpica seria Filipe Toledo. A assessoria de imprensa do atleta disse que ele não se pronunciaria sobre o caso por ser parte interessada no resultado.

Nos bastidores da liga já se fala na possibilidade de um ajuste na regra para evitar a repetição de casos desse tipo, em que um surfista acaba sendo premiado por impedir que outro surfe.

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