Descrição de chapéu The New York Times

Discreta e ambiciosa, Osaka busca na Austrália seu 3º Grand Slam

Atual campeã em Melbourne, tenista japonesa enfrenta adolescente Coco Gauff

Ben Rothenberg
Melbourne | The New York Times

Campeã do mais recente Australian Open, Naomi Osaka iniciou sua temporada alguns dias atrás, mas foi comedida ao falar de seus objetivos para o resto do ano.

“Acho que o objetivo é tentar o meu melhor em todas as partidas que jogar”, disse Osaka. “Porque para mim, quando sinto que fiz isso, de alguma forma termino vencendo a partida." Ela reparou no que tinha acabado de dizer e seus olhos se arregalaram. “Oh, isso soou muito arrogante”, ela disse, claramente embaraçada.

Osaka havia acabado de declarar publicamente o que sua raquete já havia deixado claro nos dois últimos anos. Sob seu jeito contido, ela tem uma grande autoconfiança que já a ajudou a conquistar dois títulos de Grand Slam. Em público, ela costuma falar manso, mas tem uma vontade férrea e é muito determinada.

Osaka, 22, mostrou essa força interior de maneira inconfundível na final do US Open que disputou contra Serena Williams, em 2018, fechando o jogo e conquistando o título enquanto Williams entrava em discussões ferozes com o árbitro sobre penalidades e a torcida vaiava o que entendeu como tratamento injusto à ganhadora de 23 torneios de Grand Slam.

Ela seguiu essa vitória com um título no Australian Open do ano passado. Agora, como cabeça de chave número três, Osaka derrotou Zheng Saisai, a 42ª colocada no ranking da WTA, por 6-2, 6-4, em uma partida de segunda rodada, e na rodada seguinte vai encarar Coco Gauff, 15, um novo fenômeno do tênis.

A primeira tentativa de Osaka de defender um título de Grand Slam acabou na quarta rodada do US Open no ano passado, quando ela perdeu para Belinda Bencic, adversária que já a tinha derrotado duas vezes em 2019.

“Há momentos em que aceito derrotas sem questionar”, disse Osaka nesta semana. “Depois da partida, eu fiquei com muita raiva de mim mesma, porque, quando criança, eu costumava sonhar com a oportunidade de lutar para chegar a uma final e vencê-la. Por isso, para mim, achar normal uma derrota na quarta rodada é meio patético."

Foi depois da derrota para Bencic que Osaka decidiu que lutaria por todos os pontos. Ela chegou ao Australian Open com um histórico de 14 vitórias e uma derrota desde então, conquistando títulos em Pequim e em sua cidade natal, Osaka, no Japão, no final do ano passado.

A única derrota que ela sofreu depois do US Open aconteceu contra Karolina Pliskova, a segunda colocada do ranking, nas semifinais do torneio de Brisbane no começo do mês, em uma partida que Pliskova venceu em três sets depois de evitar um match point.

Na quadra, a tenista japonesa vem prosperando ao fazer de um de seus pontos fracos uma força. Uma lesão no ombro a forçou a deixar de lado os torneios de final do ano em Shenzhen, China, mas desde então ela vem fazendo mais “aces” do que costuma, maximizando seu saque para aproveitar ao máximo cada uso de seu ombro. “Minha ideia é a de que cada saque precisa valer”, ela disse, “e isso vem funcionando muito bem”.

Ela também chegou a Brisbane com um novo orientador, o técnico belga Wim Fissette, que treinou Kim Clijsters e Angelique Kerber em suas vitórias em torneios de Grand Slam e também trabalhou com outras das melhores tenistas, entre as quais Simona Halep.

Fissette disse que Osaka se destacava por estabelecer objetivos muito ambiciosos. “Trabalhei com muitas jogadoras do Top 10, mas existe uma grande diferença em termos de ambição; a expectativa seria de que todas fossem parecidas, mas não é o que acontece”, disse o treinador.

Osaka com expressão constrangida leva a mão à cabeça, e Serena sorri ao seu lado e a ampara
Osaka e Serena Williams na premiação do US Open 2018 - Timothy A. Clary - 8.set.18/AFP

Ao contratar Fissette, Osaka rompeu o seu padrão de escolher treinadores que trabalharam antes com as irmãs Williams. Fissette treinou jogadoras em cinco vitórias sobre Serena Williams nos últimos 11 anos, um número maior de vitórias do que qualquer jogadora conquistou contra ela em quadra.

Osaka sempre admirou Williams, desde que começou no tênis, ainda criança. “Eu dizia que queria ser como ela”, declarou Osaka em 2018, descrevendo um trabalho escolar que fez sobre Williams na terceira série.

Na semana passada, ela postou no Instagram uma foto que a mostrava com Serena, durante uma partida de exibição em benefício das vítimas de incêndios na Austrália. A legenda que ela usou foi “eu e minha mãe lol”.

Williams, que nem sempre encara com carinho a jogadoras jovens que se tornaram estrelas ao derrotá-la em decisões de torneios de Grand Slam, respondeu a Osaka, a quem conhece desde 2014, com emojis de coraçõezinhos.

“Eu sempre tive admiração por ela, porque a conheci quando ela era muito, muito jovem”, disse Williams sobre Osaka. “Foi bacana vê-la crescer daquela idade ao primeiro posto do ranking e múltiplos títulos de Grand Slam. Achei a foto fofa e decidi que merecia um ’like’ e um comentário —mas nada dessa coisa de mãe."

Osaka ainda se sente deslumbrada por Williams e outras estrelas do tênis e caracteriza suas interações com a americana como unidirecionais.

“Vou ter de explicar como sou como pessoa”, disse Osaka durante o sorteio das chaves do Australian Open, quando questionada sobre Serena Williams. “Não falo com as pessoas. Fico olhando de longe. Essa é a lição número um. A lição número dois é que, se eu for falar com Serena, ela vai falar comigo, e eu vou me surpreender com isso e não vou saber responder."

Um espaço no qual Osaka vem se sentindo cada vez mais confortável é o de documentar suas opções de moda no Instagram.

“É muito estranho, porque pessoas me dizem que gostam do meu senso de moda”, disse Osaka. “Honestamente, lamento dizer, mas esse é um cumprimento muito maior do que quando dizem que gostam do meu desempenho no tênis."

Tradução de Paulo Migliacci

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