Unidas por visibilidade, torcidas LGBT buscam impulso com protestos

Torcedores de 14 times brasileiros formam coletivo nacional para reforçar atuação

André Carvalho
Salvador

Grupos de torcedores LGBT de clubes de futebol brasileiros, que ganharam corpo nos últimos meses, esperam alcançar mais visibilidade para as suas pautas em meio à participação das torcidas denominadas antifascistas nos recentes protestos pró-democracia e contra o governo de Jair Bolsonaro (sem partido).

No fim de 2019, esses grupos se uniram na criação do Coletivo Nacional de Torcidas LGBTQ Canarinhos Arco-Íris, a princípio para atuar como redes de sociabilização e proteção para os seus membros nos estádios.

A suspensão das partidas de futebol no país, ocasionada pela pandemia da Covid-19, de certa forma freou esse objetivo, mas também contribuiu para ampliar o escopo das ações. Ainda não se sabe quando será possível voltar a frequentar os jogos.

“A luta antifascista é sobretudo uma luta contra a intolerância, então é natural que os torcedores LGBTQ endossem esses atos”, afirma Onã Rudá, 29, fundador da torcida do Bahia LGBTricolor e um dos idealizadores do Canarinhos Arco-Íris, que reúne movimentos de 14 clubes (veja a lista abaixo). A maioria tem algumas dezenas de participantes.

A convergência de pautas facilitou a adesão desses coletivos aos núcleos antifascistas de torcedores. Alguns participaram da articulação de atos, mas não foram às ruas respeitando recomendações de distanciamento social.

Para Rudá, essa união trará futuramente aspectos positivos no que concerne ao fortalecimento das torcidas LGBTs dentro do estádios, à ampliação da participação delas no cotidiano dos clubes e, sobretudo, à luta contra o discurso homofóbico no ambiente do futebol.

Onã Rudá posa com camisa do Bahia em frente a bandeira LGBT
Onã Rudá, líder da Torcida LGBTricolor do Bahia, antes de jogo da equipe em março - Raphael Muller - 7.mar.20/Folhapress

A emergência do Canarinhos se deu com a sugestão de uma série de medidas contra a LGBTfobia, que foram apresentadas a clubes e entidades, como CBF (Confederação Brasileira de Futebol), STJD, MPF (Ministério Público Federal) e Secretaria Especial do Esporte, entre outros órgãos, em fevereiro.

Dentre as recomendações apresentadas estão proposições contra a transfobia, como o respeito ao nome social de pessoas transexuais nos registros de associados dos clubes e a garantia de que mulheres trans sejam revistadas por policiais mulheres nos estádios.

Também foi proposta a elaboração de campanhas contra a LGBTfobia por parte dos organizadores dos campeonatos de futebol profissional, bem como a criação de um aplicativo para denúncia de casos de homofobia nos estádios, além do estímulo para torcidas e movimentos que ajudem a debater a temática.

A reivindicação realizada pelo coletivo gerou respostas oficiais de apenas dois clubes: o Bahia, que desde 2018 tem um núcleo de ações afirmativas, e o Internacional, que conta com uma diretoria de inclusão social.

Procuradas, as agremiações afirmaram ter compromisso na luta pela inclusão nos estádios e ressaltaram que a maioria das propostas do Canarinhos Arco-Íris já é adotada.

"O Bahia, quando traz discussões como as causas LGBT, por exemplo, sabe que é um enfrentamento pioneiro e corajoso”, afirma o presidente Guilherme Bellintani. Já a diretora de inclusão social do Internacional, Najla Diniz, ressalta que “o clube está atento e à disposição para resolver eventuais conflitos e minimizar a questão da LGBTfobia” no Beira-Rio.

A CBF disse que “as ideias do coletivo serão analisadas para ajudarem no combate aos casos de LGBTfobia” como um braço da campanha "Todos Iguais", que atualmente foca a problemática do racismo no futebol brasileiro.

Em 17 de maio, Dia Internacional contra a Homofobia, a entidade, instada a se pronunciar sobre a data, postou em suas redes sociais uma campanha dizendo que “a paixão é universal e não combina com preconceito e discriminação”.

A CBF já recebeu várias multas da Conmebol e da Fifa por gritos de "bicha" entoados por torcedores da seleção em jogos das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018 e na Copa América de 2019.

Ao ouvir as demandas de torcedores que não se sentiam seguros para ocupar a Fonte Nova, o Bahia acabou por estimular a criação da torcida LGBTricolor, que, atualmente, é a maior do país, com 351 membros.

Eduardo Cruz, Lívia Ferreira e Onã Rudá, da LGBTricolor, antes de jogo da equipe em março
Eduardo Cruz, Lívia Ferreira e Onã Rudá, da LGBTricolor, antes de jogo da equipe em março - Raphael Muller - 7.mar.20/Folhapress

“As ações afirmativas chamaram a atenção da comunidade LGBT, que passou a acompanhar mais o clube. Algo do tipo ‘poxa, o Bahia me viu, entendeu que eu existo, que isso faz parte da minha vida’”, diz Onã Rudá.

“Hoje, muitas pessoas da torcida LGBT tem se associado ao Bahia. É um caminho sem volta. Eu faço questão de demarcar meu espaço, mesmo que ouça alguns xingamentos e seja encarado com olhares tortos”, afirma o funcionário público. “A covardia ainda acontece. Os preconceituosos, em geral, são muito covardes.”

O medo da violência homofóbica muitas vezes leva os torcedores a encarnarem personagens distintos daquilo que são.

“Gays, lésbicas e bissexuais podem ocupar os estádios, desde que sejam invisíveis Quando elas são visíveis, passam a ser um problema. Porque o futebol, assim como a sociedade, é homofóbico”, afirma o palmeirense William de Lucca, 34, que também atua no Canarinhos.

Um torcedor do Athletico que preferiu não se identificar diz que no estádio comemorar um gol abraçando um torcedor é normal, mas, se este for seu namorado, a situação é vista de outra forma.

“Eu me identifico como uma mulher pansexual, e meu namorado é um homem trans. Da última vez que a gente foi ao estádio, tanto na hora da revista quanto na hora que entrou, recebeu vários olhares. Há aquele desconforto de não saber onde é o local mais seguro para ficar”, diz Ana Monteiro, 22, torcedora do Ceará e integrante do Vozão Pride.

Romper essa insegurança criando redes de proteção acaba sendo uma das principais funções dos coletivos, já que em geral as arquibancadas não são respeitosas.

“Ainda temos medo de frequentar os estádios mostrando o que realmente somos. E o Palmeiras Livre é um lugar de acolhimento para as pessoas torcerem, para poderem se manifestar livremente”, diz Thaís Nouze, 36, uma das fundadoras do mais antigo coletivo do agrupamento nacional, surgido em abril de 2013.

Para o cruzeirense Yuri Senna, 24, do Marias de Minas, o mito de que dentro dos estádios “pode tudo” fez com que a população LGBT não fosse tão atraída a frequentar esses ambientes e que manifestações homofóbicas nas arquibancadas se tornassem naturalizadas. Mas pelo menos em parte ele vê que o cenário mudou.

“Hoje em dia, temos mais manifestações de LGBTs dentro dos estádios. Essa luta está crescendo porque a gente chegou em uma época em que as pessoas falaram ‘basta, não dá mais’. Ainda é um ambiente muito hostil e a gente enfrenta desafios todos os dias. Mas quem está disposto a encarar essa situação está disposto, de fato, a mudar, a história do futebol."

Torcidas que integram o Canarinhos Arco-Íris

Orgulho Vermelho (Internacional)
Fundação: Abril de 2019
Membros: 50 torcedores
Facebook: 1.003 seguidores
Twitter: 156 seguidores

Furacão LGBT (Athletico)
Fundação: Setembro de 2019
Membros: 93 torcedores
Twitter: 2.734 seguidores

Coxa LGBTQ+ (Coritiba)
Fundação: Dezembro de 2019
Membros: 21 torcedores
Twitter: 504 seguidores

Paraná LGBTQ
Fundação: Maio de 2020
Membros: 2 torcedores
Twitter: 398 seguidores

Fiel LGBT (Corinthians)
Fundação: Dezembro de 2019
Membros: 25 torcedores
Twitter: 1.766 seguidores

Palmeiras Livre
Fundação: Abril de 2013
Membros: 50 torcedores
Facebook: 10.956 seguidores
Twitter: 549 seguidores

FlaGay (Flamengo)
Fundação: Maio de 2016
Membros: 10 torcedores
Facebook: 622 seguidores
Instagram: 494 seguidores

Marias de Minas (Cruzeiro)
Fundação: Maio de 2019
Membros: 67 torcedores
Twitter: 442 seguidores
Instagram: 1.081 seguidores

LGBTricolor (Bahia)
Fundação: Agosto de 2019
Membros: 351 torcedores
Facebook: 625 seguidores
Twitter: 2.425 seguidores
Instagram: 2.798 seguidores

Orgulho Rubro-Negro (Vitória)
Fundação: Dezembro de 2019
Membros: 30 torcedores
Twitter: 361 seguidores
Instagram: 203 seguidores

Coral Pride - Camisa 24 (Santa Cruz)
Fundação: Março de 2020
Membros: 12 torcedores
Twitter: 505 seguidores
Instagram: 938 seguidores

Sport Recife LGBTQ
Fundação: Abril de 2020
Membros: 2 torcedores
Twitter: 193 seguidores

Vozão Pride (Ceará)
Fundação: Janeiro de 2020
Membros: 5 torcedores
Twitter: 1.730 seguidores

Papão Livre (Paysandu)
Fundação: Maio de 2017
Membros: 18 torcedores
​Facebook: 1.697 seguidores

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