Descrição de chapéu The New York Times

Visto como agitador na NBA, amigo de Floyd lidera atos antirracistas

Jackson, que jogou por 14 anos na liga, diz que poderia estar no lugar da vítima

Marc Stein
The New York Times

Poucos meses depois de ter seu contrato com o Indiana Pacers rescindido e de ser contratado pelo Golden State Warriors, em 2007, Stephen Jackson ajudou seu novo time a eliminar o Dallas Mavericks, que tinha conquistado 67 vitórias na temporada regular, na primeira rodada dos playoffs.

No começo da temporada seguinte, Jackson tinha conquistado um novo posto e deixado para trás o rótulo de encrenqueiro que havia resultado em sua dispensa pelos Pacers.

Don Nelson, o treinador dos Warriors na época, o chamava de “capitão Jack”. “Ele era nosso líder”, disse nesta semana o armador Baron Davis, reconhecido amplamente como melhor jogador daquela equipe, sobre Jackson.

Jackson se viu envolvido em controvérsias muitas vezes, durante suas 14 temporadas na NBA, mas colegas de time prestigiados, como Davis e o astro Tim Duncan, do San Antonio Spurs, que já se aposentou, o elogiaram muitas vezes ao longo dos anos por sua liderança, lealdade e por seu instinto de proteção.

Essas mesmas qualidades vêm sendo exibidas nas últimas duas semanas em Minnesota, onde Jackson voltou a chamar a atenção do público como ativista em apoio a George Floyd, um velho amigo seu da região de Houston morto em 25 de maio quando estava sob custódia da polícia de Mineápolis.

“As pessoas têm me dito que agora estou na quadra para o jogo mais importante da minha vida”, disse Jackson em uma entrevista por telefone. “Quando recebo mensagens assim, isso me comove e empolga."

Jackson havia acabado de acordar de uma soneca no sofá de sua casa com a filha Skylar, 6, quando viu pela primeira vez o horrendo vídeo que mostra o pescoço de Floyd sendo comprimido contra o concreto pelo joelho de um policial branco de Mineápolis, Derek Chauvin, por quase nove minutos.

Chauvin foi acusado de homicídio em segundo grau, e três policiais que não intervieram foram acusados de cumplicidade.

Jackson não percebeu de imediato que o homem que buscava ar desesperadamente, no vídeo, era seu amigo do complexo de habitação popular Cuney Homes, no Third Ward de Houston, até que desligou o vídeo e começou a receber mensagens de texto de amigos preocupados. Os gritos que se seguiram, contou Jackson mais tarde ao programa “Today”, apavoraram sua filha.

Desde então, o sono vem sendo difícil para Jackson, que viajou a Minnesota determinado a contar a história de Floyd e a atrair mais atenção para o acontecido com ele. Não demorou muito para que Jackson se tornasse um porta-voz imprevisto para a família de Floyd e o movimento Black Lives Matter, que vem ganhando impulso em todo o mundo.

Depois de dias de aparições públicas, mensagens no Instagram e entrevistas de televisão em apoio à campanha –entre as quais um discurso apaixonado durante uma entrevista coletiva realizada em 29 de junho na prefeitura de Mineápolis–, Jackson viajou a Houston na terça-feira (9) para o funeral de Floyd na igreja Fountain of Praise, onde se sentou ao lado de Gianna, 6, a filha de Floyd.

Na quinta-feira, Jackson planejava voltar a Mineápolis para um protesto diante da secretaria de Justiça local, com um objetivo específico. “Tenho de continuar a batalha até que consigamos condenações”, disse Jackson, em referência a Chauvin e aos outros três policiais acusados pela morte de Floyd.

Jackson, 42, foi apresentado a Floyd na metade da década de 1990 por um amigo comum, antes de ser selecionado pelo Phoenix Sun com a 42ª escolha no draft de 1997.

Stephen Jackson, com luvas azuis nas mãos, empunha um microfone e gesticula enquanto fala
Stephen Jackson discursa durante protesto em Mineápolis - Kerem Yucel - 25.mai.20/AFP

Os dois fizeram amizade rapidamente por terem os rostos muito parecidos –costumavam se descrever como “gêmeos”– e se tornaram amigos muito próximos, a ponto de Jackson levar Floyd como seu convidado para o fim de semana do All-Star Game da NBA em 2001, em Washington, no qual ele participou do desafio dos calouros, representando o New Jersey Nets.

Jackson tinha circulado bastante pelo mundo do basquete antes de ir parar no Nets, jogando em ligas profissionais da Austrália, Venezuela e República Dominicana, e também na Continental Basketball Association, uma liga menor de basquete dos Estados Unidos.

Em meio a tudo isso, viagens para visitar Floyd em Houston eram uma constante na vida de Jackson, que mais tarde presentearia o amigo com roupas quando este se mudou para Minneapolis para tentar recomeçar a vida, depois de uma série de prisões e detenções.

“A cada vez que assisto ao vídeo, me vejo no lugar dele, porque somos tão parecidos”, disse Jackson. “Poderia facilmente ter sido eu, ali. Bastava que eu fosse parado por um policial que estivesse passando por um dia ruim e não gostasse do fato de que meu carro é bacana”.

Jackson disse que ele e Floyd estavam “seguindo a mesma estrada”, em sua juventude, passando tempo “nos mesmos bairros, nos mesmos carros, fazendo as mesmas coisas”.

“Mas eu tive mais oportunidades”, disse Jackson. “O motivo para que precisemos mudar como as pessoas nos veem e para que precisemos investir mais nas áreas habitadas por minorias é que não há oportunidades nelas."

Ele acrescentou que “se tenho a oportunidade de defender uma mudança no mundo e a união de todos, para fazermos história com nossos protestos e batermos às portas até que tenhamos justiça social e mudemos algumas dessas leis –bem, se o presidente não vai cuidar disso, eu me encarregarei de batalhar por isso”.

Como resultado, Jackson recebeu telefonemas e mensagens de encorajamento de diversos luminares da NBA, entre os quais LeBron James, Chris Paul e o comissário Adam Silver. Algumas das expressões de apoio mais importantes vieram dos treinadores Steve Kerr, dos Warriors, seu antigo colega de time nos Spurs, e Ryan Saunders, do Minnesota Timberwolves.

“Que dois treinadores brancos tenham me procurado”, disse Jackson sobre Kerr e Saunders, “foi muito importante para mim”.

Nenhuma conversa marcou tanto Jackson quanto a que ele teve com a mãe de Hardel Sherrell em seu primeiro dia em Mineápolis, no mês passado. Sherrell morreu na cadeia do condado de Beltrami, em Minnesota, em 2018, a despeito de ter se queixado de problemas de saúde. A mãe de Sherrell, Del Shea Perry, afirma que os sintomas de seu filho foram ignorados durante dias, antes de sua morte.

“Ela estava na rua, chorando, sozinha, quando passamos a caminho do protesto”, disse Jackson. “Agora, sempre que falo tento destacar a morte do filho dela, porque ele não tinha um Stephen Jackson como amigo. Eu quero ser a voz daqueles que não têm voz."

Foi Nelson, o treinador mais vitorioso em temporadas regulares da NBA, que fez de Jackson oficialmente o capitão de seu time, pela primeira vez, no começo da oitava temporada dele na NBA, em 2007/2008. Para Davis, armador duas vezes selecionado para o All-Star Game, Jackson como capitão era natural.

“Stephen Jackson sempre disse o que pensa e lidera com o coração”, afirmou Davis. “Acho que o Stephen Jackson que vemos agora mostra o progresso que uma pessoa pode fazer, e lidera não só com o coração, mas também com a cabeça.

Tradução de Paulo Migliacci

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