Descrição de chapéu The New York Times

Como ligas dos EUA regulamentam ativismo e protestos de atletas

Questão ressurge depois da morte de George Floyd e no retorno de competições

Victor Mather
The New York Times

Depois que Colin Kaepernick e outros atletas do futebol americano causaram agitação em 2016 por se ajoelharem durante a execução do hino nacional antes das partidas, em protesto contra o racismo e a brutalidade policial nos EUA, as ligas esportivas americanas correram para estabelecer regras para esse tipo de manifestação.

Agora, depois da morte de George Floyd e dos protestos nacionais que o caso inspirou, a questão pode bem ressurgir, com o retorno dos esportes dos Estados Unidos. E algumas ligas estão revisando suas regras.

Abaixo, um panorama sobre a posição de alguns esportes sobre manifestações políticas durante a execução do hino.

National Football League (NFL)

Em 2018, a NFL anunciou uma regra que proibia que jogadores de futebol americano protestassem se ajoelhando durante a execução do hino nacional. Eles foram autorizados a ficar no vestiário até que a execução do hino acabe.

Roger Goodell, o comissário da NFL, afirmou então que os protestos causavam “uma falsa percepção, para muitas pessoas, de que milhares de jogadores da NFL não são patriotas”.

Na época, o presidente Donald Trump sinalizou aprovação a parte da nova regra da NFL, mas disse que em sua opinião os jogadores não deveriam ser autorizados a ficar no vestiário em protesto.

Na semana passada, depois que Floyd foi morto e dos protestos que isso gerou, Goodell afirmou em um vídeo curto, que “nós, a National Football League, admitimos que estávamos errados por não ouvir os jogadores da NFL anteriormente, e encorajamos todos a se pronunciarem e a protestarem pacificamente”.

Trump manteve sua posição. “Deveríamos ouvir o hino em pé e em posição de respeito, idealmente com uma saudação ou com a mão no coração”, ele tuitou na semana passada. “Há outras coisas contra as quais você pode protestar, mas não nossa Grande Bandeira Americana. SEM PROTESTOS!”.

Homem negro com máscara em que o jogador de futebol americano aparece agachado no hino nacional e a #blacklivesmatter
Gesto de Colin Kaepernick inspirou máscara de manifestante nos EUA - Roberto Schmidt - 6.jun.20/AFP

Olimpíada

O movimento olímpico mantém há décadas algumas das regras mais severas contra protestos ou declarações políticas, entre todos os esportes.

O incidente mais famoso resultou, em 1968, na exclusão de Tommie Smith e John Carlos, atletas da equipe de atletismo dos Estados Unidos, por fazerem a saudação “black power” durante a execução do hino nacional americano. Embora a atitude deles hoje costume ser elogiada como um momento de heroísmo, as mesmas regras se aplicam aos atletas olímpicos ainda agora.

No ano passado, a arremessadora de martelo Gwen Berry e o esgrimista Race Imboden foram colocados em observação por um ano, pelo Comitê Olímpico e Paralímpico dos Estados Unidos, por terem se ajoelhado durante a execução do hino americano nos Jogos Pan-Americanos.

A presidente do comitê, Sarah Hirshland, disse que admirava o ativismo de ambos mas afirmou também que os atletas “devem respeitar as regras sobre as quais concordamos a fim de garantir que os Jogos tenham sucesso em seus propósitos por ainda muitos anos”.

Na semana passada, Hirshland e Berry falaram por telefone e ambas disseram ter acontecido um pedido desculpas. “Pedi desculpas a ela pelo que minhas decisões a fizeram a sentir, e fiz o melhor que pude para explicar por que as tomei”, disse Hirshland.

Na quarta-feira (10), Thomas Bach, o presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), disse que “temos uma posição muito clara contra a discriminação e contra qualquer forma de racismo”, e apoiou os atletas no uso de sua liberdade de expressão “de maneira digna”. “Acredito que a comissão de atletas esteja averiguando como os atletas se sentem e que suas ações reflitam bem a opinião da maioria."

Antes da fala de Bach, o COI disse ao jornal inglês The Telegraph nesta semana que as regras contra protestos de qualquer espécie continuam em vigor.

Gwen Berry, no topo do pódio, ergue o punho no pódio dos Jogos Pan-Americanos de Lima-2019
Gwen Berry ergue o punho no pódio dos Jogos Pan-Americanos de Lima-2019 - Claudio Cruz - 10.ago.19/AFP

National Basketball Association (NBA)

A NBA tem uma regra para a execução do hino em seus estatutos desde 1981. Os requisitos específicos, na forma como o atual manual de operações da liga os detalha, compelem comissões técnicas e jogadores a “estarem presentes, em pé e em postura digna” durante a execução dos hinos nacionais do Canadá e dos Estados Unidos. A prática padrão é que as duas equipes se alinhem ao longo da marca do lance livre.

Os jogadores da NBA até o momento não pressionaram por uma mudança na regra. A liga divulgou um memorando antes da temporada 2017/2018 lembrando as equipes sobre a regra depois que Adam Silver, o comissário da NBA, expressou a esperança de que “os jogadores continuem a usar o momento [do hino] como uma expressão de união”. Os times foram informados, naquele momento, de que não tinham “autonomia para isentar seus integrantes dessa regra”.

“A regra existe desde que estou envolvido com a liga, e minha expectativa é de que nossos jogadores continuem a ouvir a execução do hino em pé”, disse Silver em setembro de 2017.

Mas Silver e Michele Roberts, diretora executiva da Associação dos Jogadores da NBA, também divulgaram cartas que escreveram juntos, antes das temporadas 2016/2017 e 2017/2018, encorajando os jogadores a “buscar consciência social”.

Na segunda carta, uma frase afirmava que “felizmente, vocês não são só os melhores jogadores de basquete do mundo, e queremos que saibam que a associação dos jogadores e a liga estão sempre à disposição para ajudá-los a encontrar a maneira mais significativa de fazer diferença”.

Depois da morte de Floyd em Mineápolis, quando ele estava sob a custódia da polícia no mês passado, numerosos jogadores da NBA estão na vanguarda dos protestos contra a injustiça racial e a brutalidade policial.

Não se sabe ainda, seis semanas antes da data prevista para o reinício dos jogos da NBA na Disney World, em Orlando, Flórida, se haverá foco renovado na regra ou apelos dos jogadores para que seja mudada, ou mesmo se haverá mudanças na maneira pela qual os hinos são tratados.

A prática usual de convidar cantores profissionais para executá-los conflita com a intenção da NBA de manter um ambiente rigorosamente controlado a fim de combater o coronavírus.

“Como vem sendo o caso já há diversos anos, trabalharemos em parceria com os jogadores, em uma questão importante como essa”, disse Mike Bass, porta-voz da NBA, na terça-feira.

Major League Baseball (MLB)

Em 2017, depois que Bruce Maxwell, do Oakland Athletics, se ajoelhou durante a execução do hino nacional, a direção do beisebol profissional americano divulgou um comunicado no qual afirmava que “a MLB tem uma longa tradição de honrar nosso país antes do começo das partidas. Também respeitamos que cada um de nossos jogadores é um indivíduo com antecedentes, perspectivas e opiniões próprios. Acreditamos que nosso esporte continuará a gerar união entre nossos torcedores, nossas comunidades e nossos jogadores”.

Maxwell não foi punido. Outros jogadores da MLB não repetiram seu protesto

Major League Soccer (MLS)

A liga tem uma regra, datada de 2017, que permite que jogadores se ajoelhem em protesto durante a execução do hino. “Ao fomentar um ambiente de diversidade, igualdade e inclusão, a MLS defende os ideais da liberdade de expressão e o direito a protestos pacíficos que são marcos dos Estados Unidos e do Canadá. Se jogadores e comissões técnicas decidirem ouvir a execução dos hinos em pé ou ajoelhados, ou optarem por exercer seu direito a protesto pacífico de outras formas, durante a execução dos hinos nacionais antes das partidas da liga, eles têm o nosso apoio”.

Até agora, nenhum jogador da MLS se ajoelhou durante a execução de um hino nacional, a liga informou.

Megan Rapinoe se ajoelha ao lado de companheiras, que estão em pé, durante a execução do hino americano antes de partida da seleção
Megan Rapinoe se ajoelha durante a execução do hino americano antes de partida da seleção - Kevin C. Cox - 17.set.16/AFP

Futebol internacional

Depois que Megan Rapinoe se ajoelhou durante a execução do hino em um jogo da seleção feminina dos Estados Unidos, a U.S. Soccer adotou uma regra que afirma que “todas as pessoas que representem uma seleção nacional da federação devem ficar em pé e em posição de respeito durante a execução dos hinos nacionais em quaisquer eventos nos quais a federação esteja representada”.

Mas o conselho de diretores da organização se reuniu na terça-feira e votou pela revogação dessa regra. Empregados da US Soccer colocaram a questão em discussão com a direção da organização na semana passada, e uma declaração da seleção feminina solicitou que a federação revogasse a regra e pedisse “desculpas às nossas jogadoras e torcedores negros”.

A Fifa, que comanda o futebol internacional, anunciou na semana passada que expressões de apoio aos manifestantes, por alguns jogadores na Alemanha, não seria consideradas violações das regras. “Em uma competição da Fifa, as recentes manifestações dos jogadores da Bundesliga receberiam aplausos, não punição”, disse Gianni Infantino, o presidente da organização.

Na Inglaterra, jogadores da Premier League estão planejando uma demonstração de apoio ao movimento Black Lives Matter quando os jogos forem retomados, na semana que vem. A liga não deve se opor.

Tradução de Paulo Migliacci

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