Descrição de chapéu

Racismo no futebol pede responsabilização coletiva, não só punição individual

Torcedores, clubes, federações e imprensa precisam se sentir responsáveis por suas atitudes

Marcelo Carvalho Roberta Pereira

Diante de uma nova denúncia de racismo no futebol, o que mais causa espanto não é o fato acontecer e ser exposto, mas o assombro de grande parcela da sociedade, como se denúncias de discriminação racial, dentro e fora das quatro linhas, fossem novidades ou fatos isolados. O racismo no futebol não é novidade alguma.

A verdade é que, diferentemente do que muitos informam, o Brasil adotou sim políticas institucionais de segregação. Aqui o racismo é fundante e replicado em ações tangíveis e intangíveis que afetam a população, e assim podemos afirmar que todas as políticas públicas tem digitais racistas.

Com o futebol não é diferente. De modo geral, ele pode ser considerado o esporte mais popular do Brasil, mas a prática profissional, o espetáculo, nada tem de popular e democrático. E nele a lógica do não-lugar desenvolvida por Frantz Fanon se expressa e se reforça quase cotidianamente.

Ao jogador negro é “dada” uma certa margem de humanidade, construída a partir da lógica racista que considera o corpo negro apto tão somente às atividades que exigem força e resistência.

Nesse sentido, a humanidade será retida a partir do momento em que o jogador não alcançar os objetivos esperados, sendo nesse caso imediatamente animalizado e atacado, para que volte às posições subalternas e grotescas.

Tal afirmação tem suas origens nos quase 400 anos de escravidão e é reatualizada cotidianamente, nos diversos esportes. Porém, como no Brasil o discurso da ausência do racismo é fundamentado pela “democracia racial”, o não acesso a bens e serviços, ou o fato de não estar nos postos decisórios, é justificado pela meritocracia.

Importante destacar que o futebol se estruturou no Brasil em bases racistas, ou seja, os insultos, xingamentos e ofensas são apenas uma parte do problema. Este tipo de racismo, caracterizado por Silvio Almeida como racismo individual, é mais fácil de ser identificado por ser geralmente praticado em público, frente às câmeras, no momento de emoção aflorada que o futebol costuma provocar nos torcedores.

E aqui entenda-se como torcedor todo aquele que está inserido do mundo do futebol: jogadores, treinadores, dirigentes, jornalistas.

O futebol, durante muitos anos, permitiu aos envolvidos duas horas de um verdadeiro expurgo. Um terreno fértil para brigas, ofensas racistas, homofóbicas e misóginas, todas sempre ardilosamente mascaradas de paixão e não consideradas preconceito.

Além disso, vivemos num país que tem preconceito de ter preconceito, como dizia o sociólogo Florestan Fernandes. Ou seja, o Brasil seria um país com racismo, mas sem racistas, como revela uma pesquisa em que 87% das pessoas entrevistadas afirmaram haver racismo, mas só 4% se confessaram racistas.

Frente a esse cenário, como tratar os casos de racismo no futebol?

De antemão, a resposta mais comum é a punição individual, com alguma medida jurídica. Entretanto, se no Brasil não há racistas, tal resposta não se concretiza. A maioria dos que são flagrados cometendo um ato racista alegam que estavam com os ânimos aflorados, fora de razão, ou que tudo não passou de uma brincadeira, mal-entendido, opinião. Que não são racistas e inclusive têm amigos negros.

Os clubes, por sua vez, alegam que não podem ser punidos pelo ato praticado por um torcedor ou por uma pequena quantidade deles, que estavam escondidos em meio a uma multidão. Em algumas situações, o clube identifica o agressor para as autoridades, numa tentativa de se eximir da prática racista e de qualquer responsabilidade.

Banana arremessada no gramado do estádio do Pacaembu durante partida amistosa entre a seleção brasileira e a seleção da Guatemala, em ato racista contra o jogador Grafite, em 2005
Banana arremessada no gramado do estádio do Pacaembu durante partida amistosa entre a seleção brasileira e a seleção da Guatemala, em ato racista contra o jogador Grafite, em 2005 - Leo Drummond - 28.abr.2005/Folhapress

Contudo, cabe aos clubes serem responsabilizados pelos fatos. Independentemente de serem punidos ou não, precisam ser responsabilizados e a partir daí promover ações que possibilitem a reflexão e o combate a novos casos, inclusive com canais abertos para recebimento de denúncias, além de apoio psicossocial e jurídico aos jogadores, funcionários e demais integrantes do clube.

O racismo é um problema de nossas estruturas sociais, e seu enfrentamento é um dever coletivo. Os torcedores, clubes, federações, imprensa e demais entidades que compõem o futebol precisam se sentir responsáveis por suas atitudes.

Todos os episódios que ocorrem dentro de um espaço fechado, incluindo os estádios, são de responsabilidade das entidades, clubes e empresas. E aqui podemos enquadrar também os veículos de comunicação, e seus programas de rádio, televisão e internet, onde muitos casos de discriminação são disfarçados de opinião.

O combate ao racismo é mais do que promover punições individuais (muitas vezes utilizada para livrar a instituição da culpa) ou nota de repúdio padrão, que informa que a instituição não é racista e que fez sua parte, mas não provoca qualquer reflexão da sua própria estrutura.

As ações precisam ser pensadas de forma coletiva, afinal o racismo é estrutural e expresso nas diversas áreas da vida. Ou se responsabilizam os envolvidos, de forma ampliada que rompa a punição individual e/ou monetária, inclusive com a criação de espaços que propiciem a reflexão e uma postura antirracista, ou nada irá mudar.

Marcelo Carvalho e Roberta Pereira são integrantes do Observatório da Discriminação Racial no Futebol

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