Descrição de chapéu Campeonato Brasileiro 2020

Carta que autoriza venda de Marinho gera desgaste no Santos

Documento é assinado pelo presidente afastado do clube, José Carlos Peres

São Paulo

Uma carta assinada por José Carlos Peres, atualmente afastado da presidência do Santos, autoriza um empresário a negociar o atacante Marinho, 30, com clubes de países árabes.

A data do documento, que aumenta o desgaste no já tumultuado ambiente político da agremiação, é 4 de outubro de 2020, seis dias após Peres ter sido retirado do cargo pelo conselho deliberativo do clube, sob acusações de má gestão.

A autorização, em teoria, ainda é válida. O texto, ao qual a Folha teve acesso, diz que ela expira após o dia 16 de novembro. Segundo especialistas em direito esportivo ouvidos pela reportagem, esse tipo de documento serve para garantir exclusividade ao agente em transferências de atletas.

Marinho é o destaque do Santos nesta temporada - Ivan Storti 11.out.2020/Santos FC

“Essas autorizações concedidas pelos clubes a agentes são de enorme relevância prática, pois garantem exclusividade para a negociação do jogador em determinado país. Assim, havendo proposta de um clube daquele país, e sendo realizado o negócio, é garantido ao agente uma comissão sobre a transação", diz o advogado Eduardo Carlezzo.

Não há notícias de que até agora tenha chegado ao Santos qualquer oferta por Marinho, principal jogador do time no ano e vice-artilheiro do Campeonato Brasileiro, com 12 gols. O contrato entre a equipe e o atleta tem duração até o final de 2022.

Nesta quarta (4), o comitê de gestão do clube protocolou no conselho deliberativo um pedido para que o fato seja apurado, assim como a responsabilidade de Peres no caso.

Procurado pela Folha, ele afirma que assinou cartas como presidente, no máximo, até o mês de setembro.

“Algumas já venceram. Uma ou duas têm vigência até o dia 15”, disse em mensagem, sem detalhar o teor dos documentos.

A carta sobre Marinho, escrita em inglês, foi enviada a uma pessoa chamada Mamdou Sayed Ibrahim, que seria empresário. O atual presidente do Santos, Orlando Rollo, eleito como vice de Peres e rachado com ele, e os demais integrantes do comitê de gestão dizem não saber quem é Ibrahim. A reportagem não conseguiu localizá-lo.

A diretoria do Santos afirma ter tomado conhecimento da existência da carta no último dia 15, quando o agente de Marinho, Jorge Machado, mandou uma mensagem para Rollo. O clube fez uma ata notarial da conversa, registrada no 8º Tabelião de Notas da cidade do litoral paulista.

"Olha que merda", disse Machado após enviar cópia do documento para o atual presidente, que respondeu jamais ter o visto.

Marinho não poderia ser vendido na data compreendida pela carta sem aprovação do conselho deliberativo. Segundo o estatuto do clube, o presidente não pode decidir sozinho pela venda ou compra de atletas a três meses ou menos da eleição.

Machado afirmou que Marinho não tem interesse em deixar o Santos e que, procurado por Ibrahim, não levou a conversa adiante. Segundo ele, o jogador acredita que, com a sequência de boas atuações no time alvinegro, poderá realizar o sonho de jogar na seleção brasileira.

“Ele [Ibrahim] me procurou com um jeito de conversar estranho, e eu logo encaminhei para a diretoria do Santos, porque o Marinho não quer sair. A minha participação como agente é blindar o Marinho. Ele não quis sair lá atrás, porque estava com esperança na seleção, e não quer agora”, declarou Machado.

Na denúncia de Rollo ao conselho, o presidente diz que o documento causou desgaste na relação com o atacante e afetou, inclusive, o seu rendimento dentro de campo.

“A carta-autorização foi enviada ao clube pelo agente do jogador, o senhor Jorge Machado, e causou tremendo e desnecessário desgaste na relação com o atleta e seu agente, prejudicando inclusive o desempenho técnico desportivo do jogador, já que se viu envolvido numa negociação sem ter a devida ciência”, escreveu.

Decisivo nos jogos do Santos em 2020, Marinho chamou a atenção nesta quarta-feira (4), na derrota diante do Ceará por 1 a 0, por uma atuação apagada e a confusão que causou após o apito final, quando partiu para cima do árbitro Leandro Vuaden. O placar culminou na eliminação da equipe nas oitavas de final da Copa do Brasil.

Marinho, que tinha recebido cartão amarelo por reclamação, teve de ser contido pelo companheiro Madson e o preparador físico Omar Feitosa. Vuaden aplicou cartão vermelho para o santista e relatou os xingamentos de Marinho na súmula.

O jogador pediu desculpas à torcida pelas redes sociais. “Acabei me exaltando hoje, devido ao calor do jogo. Me alterei. Vou evoluir e melhorar. Seguir lutando e sabendo o peso da camisa que visto. Hoje não foi um dia bom! Mas sempre vai ter amor à camisa que uso. Máximo respeito. E juntos vamos dar a volta por cima”, escreveu Marinho.

O presidente do conselho deliberativo, Marcelo Teixeira, tem até o próximo dia 27 para realizar uma assembleia de sócios que vai confirmar o afastamento de Peres ou reconduzi-lo ao cargo. A próxima eleição no Santos está marcada para 12 de dezembro. Nem o presidente afastado nem Rollo são candidatos.

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