Caso de assédio na base mostra omissão da Federação Francesa de Futebol

Apesar de demitir instrutor, entidade permitiu que ele passasse por várias equipes do país

Tariq Panja Romain Molina
The New York Times

Na academia nacional de futebol da França, um instrutor foi investigado depois de enviar dezenas de mensagens perturbadoramente afetuosas a um menino de 13 anos. Mas ele só foi demitido depois de convidar o menino para almoçar.

No clube seguinte em que trabalhou, o homem passou a ser alvo de suspeitas depois que a mãe de um jovem jogador abordou um dirigente do time e perguntou se era normal que os meninos tivessem de tirar a roupa para passar por uma pesagem. Mas ele só foi demitido depois de ser apanhado em um conluio com um agente para tirar jogadores do clube.

Quando ele se tornou diretor das equipes juvenis de ainda outro clube francês este ano, duas pessoas informadas sobre o comportamento passado do homem ligaram para o presidente da equipe a fim de alertá-lo. Mas a federação francesa de futebol, que anteriormente demitiu o profissional em questão de um emprego em seu centro nacional de treinamento depois que ele passou por interações inapropriadas com um jovem orientado, nada disse.

Jogadores da seleção da França em treino no CT de Clairefontaine
Jogadores da seleção da França em treino no CT de Clairefontaine - Franck Fife - 9.nov.20/AFP

Em lugar disso, a entidade permitiu que seu antigo empregado se transferisse de emprego a emprego, pelos oito últimos anos, sempre mantendo o precioso certificado conferido por ela que facilita que ele continue a trabalhar no esporte. As informações de contato sobre ele continuam disponíveis no site da federação.

O homem, David San José, jamais foi alvo de queixas oficiais de abuso sexual ou de contato físico inapropriado com uma criança. Mas o fato de que tenha podido continuar a trabalhar com jovens atletas apesar de tantos sinais de impropriedade desperta novas questões sobre a incapacidade, ou desinteresse, das organizações esportivas quanto a conduzir investigações significativas sobre adultos encarregados de trabalhar com crianças.

Nos últimos anos, a falta de fiscalização resultou em escândalo e acusações criminais em casos envolvendo ginastas nos Estados Unidos, jogadores de futebol no Reino Unido e patinadores e nadadores na França. Em quase todos eles, investigações constataram mais tarde que rumores e acusações de comportamento indevido eram bem conhecidos, mas foram ignorados.

Quando contatado para discutir sua passagem pelo centro nacional de treinamento do futebol francês em Clairefontaine e seu histórico de trabalho depois de sair de lá, San José se recusou a comentar. Mas outras pessoas, entre as quais treinadores que trabalharam para a federação, dirigentes, empregados e dez antigos colegas de time do menino que recebeu as mensagens de texto concordaram em conceder entrevistas.

“Ainda não compreendo de que modo San José pode trabalhar com crianças depois do que aconteceu em Clairefontaine”, disse Gérard Prêcheur, o antigo diretor do centro de treinamento. “Não compreendo como ele ainda está no futebol.”

Mensagens de texto, e um alerta

As mensagens, de acordo com colegas de time e com a mãe do menino, às vezes vinham em sequência: cumprimentos, convites, declarações de amor. Para o menino de 13 anos que as recebia, elas causavam confusão. Por que um adulto, e especialmente o instrutor de uma das academias de futebol de elite no planeta, estaria dedicando tanta atenção a ele?

Por algum tempo o menino –que agora tem 23 anos e cuja identidade não será mencionada para proteger sua privacidade– manteve o silêncio sobre a mensagens. Ele sabia que tinha sorte por ter sido selecionado como parte de um grupo de duas dúzias de garotos que receberam as cobiçadas vagas para viver e treinar no centro nacional de futebol da França em Clairefontaine, talvez a melhor das escolas de aperfeiçoamento futebolístico do planeta. Ele sabia que Clairefontaine tinha servido como plataforma de lançamento para dezenas de futebolistas profissionais franceses. Assim, em lugar de se pronunciar sobre as mensagens perturbadoras, o menino optou por nada dizer aos colegas, treinadores ou aos seus pais.

A primeira indicação de que havia alguma coisa de errado surgiu em uma viagem de ônibus em 2012. O time de talentosos adolescentes estava animado como sempre. Eles estavam zombando uns dos outros quando Tiago Escorza, um dos jogadores, apanhou o celular do companheiro. Escorza, 23, recorda ter vistos mensagens do instrutor ao menino, dizendo que ele o amava. Sua reação foi cair na risada –e em seguida ler as mensagens em voz alta para os demais jogadores.

“Nós todos perguntamos a ele se as mensagens eram do pai dele ou de alguém mais”, disse o goleiro Hedi Mehnaoui, que estava presente.

Os garotos mal tinham entrado na adolescência, disse Mehnaoui em uma entrevista recente, e não eram maduros o bastante para divisar o impacto que as mensagens poderiam ter sobre o menino, ou os motivos que San José poderia ter para enviá-las.

Mas, em retrospecto, diz Mehnaoui, ele agora recorda que seu amigo falava muitas vezes sobre deixar a academia.

“Ele nunca explicou o motivo”, disse Mehnaoui, que dividia o quarto com o menino. “Ele era um cara bem reservado, e, por isso, eu não fazia perguntas demais.”

Poucos meses mais tarde, a mãe do menino também descobriu sobre as mensagens. Ao ligar um celular novo que tinha comprado para o filho, encontrou uma mensagem de texto de San José.

O marido dela ficou furioso com a mensagem, ela disse, mas estava enfrentando uma doença grave na época, e por isso a mãe do jogador decidiu que ela confrontaria San José, em pessoa. Ela o fez, entregando uma carta a ele em Clairefontaine que o instruía a não enviar novas mensagens ao filho dela e não ficar sozinho em companhia dele, em qualquer circunstância. Ela revelou que San José a desarmou ao lhe dizer que, em sua cultura –suas origens são espanholas–, era rotina dizer coisas como “eu te amo” mesmo a pessoas que não são parte de sua família.

O assunto poderia ter se encerrado ali, se não fosse por uma conversa ouvida por dois vigias encarregados de proteger o time, durante uma inspeção noturna rotineira. Outros meninos lhes mostraram mensagens –encaminhadas a dois deles– que, pelo que havia sido informado aos adolescentes, tinham sido escritas por San José.

“Estou cansado de ser sempre eu que digo ‘eu te amo’”, uma das mensagens afirmava, de acordo com um dos vigias.

Na manhã seguinte, um deles informou o treinador dos meninos, Philippe Bretaud, e Prêcheur, o diretor do centro de Clairefontaine, sobre o que tinha descoberto. Prêcheur, que deixou seu posto em Clairefontaine em 2014, disse que sua reação inicial foi de indignação. “Fiquei furioso”, ele disse.

O dirigente afirmou que ligou na hora para os pais do menino e os aconselhou a apresentar uma queixa, mas eles se recusaram, temendo que fazê-lo colocasse em risco as perspectivas de uma carreira no futebol, para o garoto. Prêcheur em seguida mostrou as mensagens ao seu superior, François Blaquart, o diretor técnico do futebol francês.

“Lembro-me de que eram mensagens de amor, completamente inadmissíveis com relação a uma criança”, disse Blaquart.

Blaquart colocou San José, cuja responsabilidade era a educação não futebolística dos meninos que viviam no centro de treinamento, em licença, e o instruiu a deixar Clairefontaine, ele disse, e depois seguiu as normas estabelecidas e repassou o dossiê ao departamento de recursos humanos da federação francesa de futebol.

A federação francesa insistiu em que investigou as acusações rigorosamente, conduzindo múltiplas entrevistas e recorrendo a um psicólogo para conversar com o menino. Mas afirmou que não havia identificado provas de quaisquer mensagens de natureza sexual ou romântica entre San José e o menino, e que não poderia fazer qualquer coisa mais com relação às acusações.

Diversas tentativas foram feitas para entrar em contato com San Joé via telefone e mensagem de texto, antes de ele enfim responder a uma mensagem via LinkedIn na qual pedíamos que falasse sobre sua passagem por Clairefontaine e sua carreira posterior. San José recusou. Em seguida., bloqueou quaisquer tentativas posteriores de contatá-lo por meio daquela plataforma. Pouco depois, ele desativou seu perfil no site.

Silêncio em meio aos sussurros

Ian Ackley, que sobreviveu aos abusos contra ele cometidos por um importante treinador de futebol britânico, agora encabeça um grupo que apoia vítimas que passaram por experiências semelhantes no futebol inglês. Ele disse que os potenciais casos de abuso eram em muitos casos resolvidos discretamente, e que havia esforços para atrair o mínimo possível de atenção para eles.

“Mas isso produziu problemas em outras áreas”, disse Ackley, que disse ter sofrido abusos por quatro anos, até chegar aos 13, da parte de um membro da comissão técnica do Manchester City. “Eles não querem o estrago que um inquérito ou investigação público pode causar à sua reputação, e não querem chocar as pessoas”.

Na falta de qualquer constatação de abuso ou assédio, San José foi autorizado a deixar seu posto discretamente e a manter seu certificado de qualificação conferido pela federação. A federação informou que o certificado permite que San José trabalhe como voluntário, e nos termos da lei francesa não existe obrigatoriedade de verificar rigorosamente os antecedentes de treinadores voluntários

Uma de suas passagens profissionais seguintes foi pelo Olympique de Valence, um clube que joga nas divisões inferiores do futebol francês, em uma cidade a cerca de uma hora de distância de Lyon. Malik Vivant, o diretor esportivo do clube, recorda-se de ter ficado surpreso por alguém tão qualificado quanto San José estar disponível. Por conta da passagem de San José por Clairefontaine, Vivant considerava uma façanha ter contratado alguém com aquelas qualificações para treinar a equipe juvenil sub-15 do Valence. Mas dentro de poucos meses, Vivant começou a ter suspeitas.

Primeiro, a mãe de um jovem jogador, preocupada, procurou o tesoureiro do clube e lhe perguntou por que os jogadores tinham de tirar a roupa para a pesagem. Novos sinais de alerta dispararam quando dirigentes do clube descobriram que um jovem jogador do clube tinha passado uma noite na casa de San José.

Prêcheur, o ex-diretor de Clairefontaine, disse que quando descobriu que San José estava trabalhando no Valence, entrou em contato com dirigentes do clube para lhes dizer o que tinha acontecido na academia. O Valence terminou por demitir San José, mas não por suas interações com os juvenis; ele foi despedido depois que o clube descobriu que estava trabalhando com um agente para oferecer jogadores da equipe a outros clubes.

“Eu já tinha dúvidas, e não hesitei em demiti-lo”, disse Vivant.

San José permaneceu na região, porém, trabalhando em escolas e mais recentemente em um clube amador, o FC Rhône-Vallées. Vivant e Prêcheur dizem ambos ter avisado o time que não contratasse San José e que descreveram para os dirigentes do clube os incidentes acontecidos em Clairefontaine e no Valence.

O clube anunciou na semana passada que cancelaria o contrato de San José.

A federação francesa de futebol, no entanto, continua a insistir em que nada fez de errado, e que sem provas não está em posição de barrar San José de empregos no futebol, ou que envolvam contato com crianças. (A federação concedeu a ele uma de suas licenças mais elevadas como treinador, em 2017.) Mas o Ministério do Esporte da França, abalado por um escândalo de abuso sexual na natação e na patinação artística, afirmou em declaração ao The New York Times que suas normas significavam que tinha a obrigação de averiguar as acusações –e as medidas tomadas pela federação de futebol francesa.

Enquanto essa investigação acontece, outras pessoas estão arrependidas das decisões que tomaram. A federação de futebol contratou um consultor de comunicação especializado em crises, pouco depois de receber as perguntas do The New York Times sobre San José. Prêcheur disse que ainda estava indignado com a inação da federação quanto a proteger os jovens jogadores. O menino que teve papel central no caso não está mais envolvido com o futebol, e seu ex-colegas de time dizem agora que gostariam de ter feito mais para ajudá-lo. Até mesmo a mãe do menino, que em um esforço por preservar seu sonho de uma carreira no futebol optou por fechar os olhos, reviu sua posição.

Oito anos depois de encontrar a mensagem no celular de seu filho, ela disse que o que gostaria de ter feito era procurar imediatamente a polícia.

Tradução de Paulo Migliacci

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