Descrição de chapéu Copa Libertadores 2020

Covid-19 deixou marcas nos finalistas da Libertadores e no palco da decisão

Palmeiras e Santos sofreram com coronavírus, e complexo do Maracanã abrigou hospital de campanha

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São Paulo

Palmeiras e Santos farão neste sábado (30), no Rio de Janeiro, uma decisão que tem ligações profundas com a Covid-19. O espectro do coronavírus estará no Maracanã, tristemente sem torcedores (fora os que ganharam convites) em duelo tão importante, mas a presença do Sars-CoV-2 vai além da arquibancada sem público, algo que já se tornou corriqueiro na pandemia.

O terreno do histórico estádio carioca abrigou um dos hospitais de campanha na luta contra a doença. Inaugurado em maio e desmontado em outubro, o centro de atendimento recebeu milhares de pacientes em seus 400 leitos, mas as mortes, que ultrapassaram a marca de 200 mil no Brasil, não impediram a bola de voltar a rolar.

As competições de 2020 foram retomadas após mais de três meses de paralisação, com o calendário da temporada estendido até o início de 2021. A final da Copa Libertadores acabou sendo confirmada para o Maracanã, como estava inicialmente previsto, e as duas equipes que avançaram ao jogo derradeiro foram brasileiras.

Hospital de campanha no complexo do Maracanã
Hospital de campanha no complexo do Maracanã - Ricardo Moraes - 18.jun.20/Reuters

Ocorreu justamente de os clubes presentes na decisão terem sido dois dos mais afetados pela Covid-19. O Palmeiras passou dos 20 casos apenas no grupo de jogadores, e o Santos chegou a se distanciar de seu comandante, Cuca, que foi infectado e sofreu bastante antes de voltar a trabalhar com os atletas.

O treinador de 57 anos recebeu o diagnóstico no início de novembro e precisou ficar internado por nove dias, parte deles em uma unidade semi-intensiva. Ele teve lesões de pulmão, contraiu uma hepatite e deixou o hospital relatando sequelas. “Eu me canso só de subir uma escada”, afirmou, em dezembro.

Foi sem Cuca que a delegação alvinegra viajou a Quito, no Equador, para enfrentar a LDU, nas oitavas de final da Libertadores. Ele já estava em casa, mas não foi liberado para embarcar e procurou manter a comunicação com os demais membros da comissão técnica, o que nem sempre foi feito sem ruído.

“Trocaram o Jean Mota antes da hora. Fiquei doido”, recordou o comandante, que também precisou lidar com baixas recorrentes no elenco. Houve um momento em que, além dele próprio e dos auxiliares Cuquinha e Eudes Pedro, estavam afastados por Covid-19 João Paulo, Alison, Alex, Diego Pituca, Jean Mota, Jobson, Lucas Veríssimo, Madson, Sandry e Vladimir.

A ausência de João Paulo fez John, de 24 anos, que jamais havia disputado uma partida de campeonato como profissional do Santos, ganhar uma oportunidade na meta preta e branca. Ele tomou conta do espaço, foi efetivado como titular e, em meio às semifinais da competição sul-americana, precisou ficar em quarentena também por causa do coronavírus.

João Paulo, então, voltou. Escalado na vitória por 3 a 0 sobre o Boca Juniors que colocou o time da Vila Belmiro na decisão, desabou no gramado ao apito final, emocionado. Agora, ele tem novamente a concorrência de John, e Cuca preferiu não divulgar quem é o escolhido para o duelo derradeiro.

No Palmeiras, o vaivém na formação titular foi ainda mais intenso em decorrência dos casos de Covid-19. Desde o reinício dos torneios, ao menos 22 atletas foram isolados dos companheiros por esse motivo. O técnico Vanderlei Luxemburgo, que viria a ser demitido, também foi afastado, em julho, embora depois tenha concluído que seu teste tenha sido um falso positivo.

Seu substituto no comando alviverde foi Abel Ferreira, que também recebeu diagnóstico de infecção pelo Sars-CoV-2 e passou um período distante do grupo, em dezembro. Antes disso, viveu a fase mais aguda do problema no clube, precisou lidar com um elenco extremamente reduzido e encarou dificuldades mesmo após o retorno dos jogadores.

No momento em que ficou fora, o português deixou para o auxiliar João Martins o contato com o grupo. Responsável por dirigir o time no início das quartas de final da Libertadores, no empate por 1 a 1 com o Libertad, o assistente observou que a recuperação da doença não era mera questão de um resultado negativo no exame.

“Tivemos dificuldade na parte física com os jogadores que vieram de Covid. As pessoas pensam que é só chegar e tudo certo, que vão continuar bem. Mas é um vírus que ataca o corpo, o organismo. Tivemos 22 casos, quase todos na mesma altura. Na volta, os jogadores não começam as partidas nem 50%”, disse Martins.

Raphael Veiga foi um dos que sentiram o baque no retorno. O meia de 25 anos vivia ótima fase quando precisou ser afastado, em novembro, e demorou a recuperar o ritmo. Na semana passada, depois de marcar dois gols contra o arquirrival Corinthians, ele finamente pôde celebrar a recuperação da melhor forma.

“Quando tive a doença, tinha marcado dois gols contra o Ceará, estava em uma sequência muito legal. Aí, não consegui comer, fazer os exercícios, acabei perdendo peso e força. Eu me senti fraco nos primeiros treinos. Nos jogos, meu corpo não respondia como eu queria”, contou o atleta, que chegou a vomitar no intervalo de um jogo, contra o Internacional, e ser substituído.

Superando o problema de Veiga e vários outros, o Palmeiras foi avançando em todas as frentes. Campeão paulista pouco após a retomada do futebol, manteve-se até o fim de janeiro vivo no Brasileiro, na Copa do Brasil e na Libertadores, o que também cobrou um preço: o duelo com o Santos será o 55º desde o reinício, em julho, média de um compromisso a cada 3,5 dias.

De alguma maneira, no atípico cenário do esporte na pandemia, alviverdes e alvinegros alcançaram sucesso suficiente para estabelecer uma final histórica, o primeiro clássico regional brasileiro a decidir o título sul-americano. O campeão, quando recordar o triunfo daqui a cem anos, não poderá fazê-lo sem falar a palavra coronavírus.

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