Descrição de chapéu Futebol Internacional

Aposta do Vélez poderá ter que escolher entre Brasil ou Argentina

Lenny Lobato, 19, nasceu em Búzios, é filho de argentinos e já assinou contrato profissional

São Paulo

Quando chegou para fazer teste no Vélez Sarsfield, time da primeira divisão da Argentina, em 2017, Lenny Ivo Lobato Romanelli não chamou a atenção. Para os técnicos, a princípio não passava de mais um garoto de 16 anos a tentar a sorte no clube de Buenos Aires. Toda a semana apareciam dezenas como ele.

Foi quando alguém disse que aquele menino era brasileiro. "Vieram me perguntar se era verdade, por que estava ali, como tinha chegado. Pediram para ver meus documentos. Demoraram para acreditar", diz o meia-atacante, hoje com 19 anos.

Lenny Lobato em ação em jogo da equipe reserva do Vélez Sarsfield
Lenny Lobato em ação em jogo da equipe reserva do Vélez Sarsfield - Divulgação/Vélez Sarsfield

Uma conversa com ele não deixa dúvidas da nacionalidade. Seu sotaque é típico do Rio de Janeiro. Lenny nasceu em Búzios (170 km de capital).

O jogador tornou-se uma das revelações das categorias de base da agremiação portenha, campeã da Libertadores e do Mundial de 1994. Assinou seu primeiro contrato profissional, costuma treinar com a equipe principal e foi inscrito na última Copa Sul-Americana para ganhar experiência. O Vélez acabou eliminado na semifinal pelo também argentino Lanús.

Lenny, o único brasileiro que faz parte do elenco de um time argentino da elite, integra uma geração de jovens que causa expectativa na torcida, dirigentes e é comentada pela imprensa do país. Além dele, há o atacante Florián Monzón, 20; o meia Facundo Cáceres, 19; o zagueiro Damián Fernández, 20; e, principalmente, o meia-atacante Thiago Almada, 19, apontado como novo craque do país.

"Thiago joga muito mesmo", concorda o brasileiro, ele mesmo chamado de "joia da base do Vélez" por sites especializados em campeonatos amadores.

Nesta terça (9), Almada e outro jogador do elenco, Miguel Brizuela, foram denunciados sob acusação de abuso sexual. O caso teria acontecido em uma festa de um colega de time.

Para Lenny, atuar na Argentina sempre foi uma carta na manga. Ele buscou chances em diferentes clubes brasileiros, sem sucesso. Aos 15 anos, passou seis meses no Madureira, que disputa a primeira divisão do Estadual do Rio. Quando foi dispensado, sem empresário para cavar novas vagas, percebeu que o melhor era ir para o país vizinho.

Toda a sua família é argentina. Seus pais se mudaram para Búzios para abrir uma pousada, onde ele nasceu. A mãe, Gabriela, ainda mora na cidade e toma conta do empreendimento. O pai, Adrián, morreu quando o filho tinha três anos.

O garoto chegou a Buenos Aires para morar na casa de tios e não teve nenhum problema de adaptação. Ele conhecia bem a cidade, onde havia passado férias várias vezes. Sua primeira peneira foi no Club Atlético All Boys, time do bairro da Floresta, atualmente na segunda divisão e onde o atacante Carlos Tévez iniciou a carreira.

"Fui aprovado, mas eu ainda não tinha a documentação para jogar. Então não pude permanecer. Um dos meus tios é torcedor fanático do Vélez e descobriu algum tempo depois que haveria uma peneira. Ele me levou, também fui aprovado e fiquei", explica.

As brincadeiras com os 7 a 1 sofridos pelo Brasil na Copa de 2014 para a Alemanha ainda aparecem de vez em quando entre os amigos que fez na capital. Mas já foram piores. Com o passar do tempo, e apesar da suspeita sobre como um garoto brasileiro seria recebido nas categorias de base de um clube argentino, ele sentiu que a rivalidade entre os países era mais mito do que realidade.

"É uma coisa que as pessoas gostam de aumentar. Às vezes na imprensa vira um pouco de folclore. Quando tem um argentino e um brasileiro no mesmo time, compartilhando a mesma mesa no refeitório, eles se gostam e se admiram. É normal."

Explicar sua árvore genealógica em Buenos Aires não é novidade. Sempre teve de fazê-lo, mesmo nas viagens de férias. Sua avó é Nélida Lobato, atriz, modelo, dançarina e um dos nomes mais conhecidos da história do teatro do país, morta em 1982.

Como era possível ela ter um neto brasileiro? Tal qual aconteceu quando começou a jogar futebol, Lenny tinha de contar toda a história.

Meia-atacante que gosta de atuar aberto pelas pontas, ele considera o confronto mano a mano contra o marcador e a velocidade seus pontos fortes. E sabe que a questão Brasil-Argentina deverá ficar mais forte no futuro. Até espera que sim. Será um sinal do seu sucesso.

O atleta poderá viver a rara situação de ter de escolher qual das duas seleções defender. "Não tenho prioridade. Morei mais tempo no Brasil, então me sinto mais brasileiro. Sempre quis jogar pela seleção brasileira, mas não era algo que almejava porque parecia distante. Agora posso também jogar pela seleção argentina", afirma, sem dar uma resposta definitiva para uma decisão que poderá ser feita no futuro.

Se chegar a ser convocado por um dos países, terá de fazer sua escolha. Quando entrar em campo por uma seleção principal em jogo oficial, não poderá mais atuar pela outra.

Canhoto que afirma ser quase ambidestro. Ponta esquerda que também atua pela direita. Garoto que tentava a sorte no Rio de Janeiro sem perder Buenos Aires do horizonte. Brasileiro que se considera também argentino. A vida de Lenny Lobato é ter alternativas e saber onde a oportunidade está.

"Aqui [em Buenos Aires] eu me sinto brasileiro. Quando estou no Brasil, me sinto argentino."

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