Demanda por informação de qualidade será determinante para o futuro do jornalismo

Em debate, especialistas ressaltam o papel da imprensa no combate à desinformação e a importância de investir em equipes mais diversas

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São Paulo

Enquanto cumprir sua função de fiscalizar o poder, prestar serviço ao leitor e fomentar o debate qualificado, a imprensa continuará existindo e tendo papel central na democracia pelos próximos 100 anos, avaliam representantes de entidades de mídia.

Reflexões sobre o futuro do setor tomaram conta de evento virtual que ocorreu na manhã de 11 de fevereiro, como parte das celebrações do centenário da Folha.

Conduzida por Roberto Dias, secretário de Redação do jornal, a conversa teve participação de Angela Pimenta, do Projor, Cíntia Gomes, da Agência Mural, e Murilo Garavello, do UOL .

Da esquerda para a direita, participantes do debate sobre o jornalismo daqui a 100 anos: Angela Pimenta, do Projor; Murilo Garavello, do UOL; Roberto Dias, da Folha; e Cintia Gomes, da Agência Mural
Da esquerda para a direita, participantes do debate sobre como será o jornalismo daqui a 100 anos: Angela Pimenta, do Projor; Murilo Garavello, do UOL; Roberto Dias, da Folha; e Cíntia Gomes, da Agência Mural - Folhapress e Divulgação

Cinco grandes questões ditaram o teor das falas: como se distribuirá o jornalismo, quem o fará, quem será seu público, que temas cobrirá e como se manterá financeiramente.

Garavello, diretor de conteúdo do UOL, ressaltou a crescente velocidade das transformações no mundo –e no jornalismo– nas últimas décadas. “Você pode acordar e pedir para o seu assistente de voz falar as notícias mais recentes. Você vai correr e pode ouvir um podcast. Cada vez mais o jornalismo está em todo o lugar, de muitas maneiras diferentes”, afirmou.

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Angela Pimenta, diretora de operações do Projor (Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo), concordou que, até 2121, o atual processo de transformação digital da comunicação terá se completado. Ela, porém, observou que o vigor da democracia é o que determinará se haverá condições do pleno exercício da liberdade de expressão.

“Nós temos uma discussão sobre os limites do que pode ser dito e como pode ser dito. Estamos aprendendo que mentiras podem matar, como no caso da invasão ao Capitólio, que sucedeu uma campanha de mentiras do Trump, e no caso da pandemia de Covid-19”, disse.

Em sua primeira intervenção, Cíntia Gomes, cofundadora e editora da Agência Mural de Jornalismo das Periferias, observou que informações de qualidade não são entregues a todos de maneira igualitária. “O jornalismo local é uma forma de chegar mais próximo do leitor, de fazer com que ele se sinta mais representado”, comentou.

Você pode acordar e pedir para o seu assistente de voz falar as notícias mais recentes. Você vai correr e pode ouvir um podcast. Cada vez mais o jornalismo está em todo o lugar, de muitas maneiras diferentes

Murilo Garavello

Diretor de conteúdo do UOL

Os participantes confluíram quanto à resiliência da imprensa profissional e à convicção de que a busca por notícias confiáveis não deve desaparecer. “Se a espécie humana e o Brasil continuarem com as suas diferenças, certamente a demanda por informação qualificada, que venha a alimentar esse debate, vai estar presente”, ponderou Pimenta.

Já sobre a questão de quem produzirá tais conteúdos, se serão humanos ou robôs, por exemplo, a diretora do Projor ressaltou que o aspecto mais importante a se considerar é quanto ao respeito aos protocolos de apuração.

“O jornalista tem técnicas para fazer sua reportagem para que ela tenha credibilidade”, concordou Gomes. Para ela, independentemente de quem produza notícias, é preciso “que se tenha esse viés de compromisso com a informação de qualidade”.

O jornalismo local é uma forma de chegar mais próximo do leitor, de fazer com que ele se sinta mais representado

Cíntia Gomes

Cofundadora da Agência Mural

Dias propôs também uma reflexão sobre o crescimento do consumo de notícias possibilitado pela internet versus a fragilidade da imprensa regional. Neste ponto, houve discordâncias entre os debatedores.

Garavello disse enxergar uma disparidade de forças entre grandes empresas e iniciativas menores. “Alguns veículos conseguem ter um poder e um alcance muito grande, conseguem encontrar maneiras de se financiar. Por outro lado, você tem veículos locais cada vez mais fragilizados, mais dependentes de alguma ajuda. De alguma maneira, precisamos ajudar os menores”, disse ele.

Já Gomes acredita em um fortalecimento de iniciativas locais, que, por estarem mais próximas da população, têm conseguido convencer a sociedade sobre sua importância. Também vê com bons olhos as parcerias com empresas da mídia tradicional (caso da Agência Mural com a Folha), por atenuarem as desigualdades raciais e geográficas nas empresas de comunicação.

“Se tiver um jornalista interessado, compromissado em escrever sobre o seu bairro, sobre as notícias locais, a gente consegue fazer isso”, afirmou. “Precisamos pensar como o jornalismo independente tem contribuído para preencher essas lacunas de informação.”

Angela voltou a ressaltar como a existência da imprensa está vinculada a um apreço pela democracia e demonstrou preocupação com o cenário de disputa pela atenção das pessoas, que, segundo ela, desencadeia uma busca por conteúdos mais apelativos.

“Nesse ambiente, tanto a promoção da democracia quanto do jornalismo de interesse público é uma concorrência muito desleal”, explica. Isso, segundo ela, intensifica as tensões sociais.

Garavello chamou atenção ainda para a importância da educação midiática no combate à desinformação. “As pessoas não entendem direito a diferença entre o que é o jornalismo profissional e o que são pessoas se apropriando de meios de transmissão para divulgar coisas que não são jornalismo”, lamenta. “A mentira é mais sexy, se espalha mais rápido, mas é importante para, aos poucos, irmos ensinando como se faz, por que isso aqui é ou não é verdade.”

Neste tema, Gomes é otimista. Apesar de reconhecer a gravidade do fenômeno da desinformação, ressalta como há também mais pessoas cobrando checagem e credibilidade de interlocutores.

A respeito de quais devem ser as pautas do futuro, Gomes destacou a importância de ter diversidade nas fontes e nas equipes de reportagem para que haja uma cobertura mais plural. Garavello, por sua vez, focou a responsabilidade de utilizar corretamente as tecnologias de análise de audiência para dosar os temas que são de interesse público e os temas que são de interesse do público.

“Você tem ferramentas de feedback e consegue ver se as pessoas estão se interessando ou não. Se você colocar [como manchete] só coisas pelas quais elas não se interessam, vão parar de entrar no seu site”, afirma.

Mas ele também alerta: “Qualquer veículo que resolver só ir atrás do que mais dá audiência vai perder relevância, porque vai ficar só atrás de assuntos superficiais”.

Os debatedores ainda concordaram que a forma pela qual a imprensa do futuro se sustentará não está equalizada. Acreditam, porém, que a solução passa pela diversidade nas fontes de renda e, sobretudo, por conteúdo de qualidade.

“As pessoas estão percebendo, com a Covid sobretudo, que aquele jornalismo que impacta positivamente as decisões delas está claramente valorizado. O jornalismo que serve, que diz se as ruas estão ou não em bom estado, esse jornalismo, cujo impacto é óbvio e claro, está valorizado”, conclui Pimenta, do Projor.

As pessoas estão percebendo, com a Covid sobretudo, que aquele jornalismo que impacta positivamente as decisões delas está claramente valorizado. O jornalismo que serve, que diz se as ruas estão ou não em bom estado, esse jornalismo, cujo impacto é óbvio e claro, está valorizado

Ângela Pimenta

Diretora de operações do Projor

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