Descrição de chapéu E eu? jornalismo refugiados

Jornalistas precisam entender que não somos todos iguais, diz imigrante

Para Talal al-Tinawi, mídia deve diferenciar histórias de sírios, haitianos e venezuelanos

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Talal al-Tinawi

Engenheiro mecânico, veio ao Brasil como refugiado da guerra da Síria em 2013 e hoje mantém um serviço de comida árabe por encomenda

São Paulo

Como parte dos projetos especiais dos 100 anos da Folha, o jornal convidou 13 integrantes de grupos sub-representados no jornalismo profissional praticado no Brasil. Eles expõem episódios de preconceito e desinformação, além de problemas na relação com jornalistas e na forma como a imprensa noticia —ou não noticia— questões que os afetam direta ou indiretamente.

Batizada de “E Eu? - O Jornalismo Precisa me Ouvir”, a série é formada por vídeos e depoimentos em forma de texto.

O engenheiro Talal al-Tinawi, refugiado da guerra da Síria, no auditório da Folha
O engenheiro Talal al-Tinawi, refugiado da guerra da Síria, no auditório da Folha - Bruno Santos/Folhapress

Engenheiro mecânico, Talal al-Tinawi, 48 anos, fala sobre a representação dos refugiados na imprensa. Talal chegou ao Brasil como refugiado em 2013 e hoje mantém um serviço de comida árabe por encomenda em São Paulo. Leia entrevista ou assista ao vídeo (há uma versão com recursos de acessibilidade logo abaixo).

VERSÃO COM RECURSOS DE ACESSIBILIDADE

Antes da guerra, era fácil viver na Síria. Eu tinha dois apartamentos e um carro, então minha vida era tranquila. Mas, depois da guerra, que começou em março de 2011, ficou mais difícil, mais perigoso.

Fui para Beirute [capital do Líbano] com minha família para tirar o diploma de inglês. Quando voltei à fronteira, fui preso porque o governo queria outra pessoa também chamada Talal al-Tinawi. Por causa desse erro, fiquei na prisão três meses e meio.

Uma pessoa que trabalhava lá me falou: "Ô, Talal, se você sair da prisão, o melhor é deixar a Síria, porque o governo vai fazer o mesmo com você, mas não como agora. Você vai ficar mais tempo e vai ser mais difícil."

Quando saí, fiquei em Damasco só 15 dias para arrumar minhas coisas. Depois fugi via Beirute, com carro. Fiquei em Beirute dez meses e passei em todas as embaixadas. Mas todo mundo falava: "Você é sírio? Então não pode tirar visto." Uma vez liguei para a embaixada do Brasil em Beirute e me disseram: "O governo do Brasil vai fazer um projeto para receber os sírios só com passaporte, sem documentos."

Para entrar, o Brasil é melhor que a Europa. Na Alemanha, primeiro o homem precisa viajar e ficar dois, três anos, e só depois pode chamar a família. No Brasil, não. Não fui eu quem escolhi o Brasil, o Brasil que me escolheu.

Talal al-Tinawi com um Corão, durante entrevista à Folha
Talal al-Tinawi com seu exemplar do Corão, durante entrevista à Folha - Bruno Santos/Folhapress

Minha esposa demorou muito para se adaptar aqui. Na Síria, quando ficou grávida do Riad e da Yara, ficou 40 dias na casa da mãe, com todo mundo ajudando. Ela não precisou fazer nada. Aqui, quando a Sara nasceu, ficou sozinha e depois de três dias começou a trabalhar de novo.

O brasileiro não sabe nada sobre o Islã, e isso é muito bom. Como ele não sabe, ele respeita. Ele pergunta para saber. Depois de oito anos, ainda não tenho problemas por causa da minha religião, minha cultura ou qualquer coisa. Lá na Europa não respeitam minha religião. Por causa da mídia, eles têm uma ideia errada sobre o Islã, acham que Islã é Estado Islâmico.

O brasileiro não sabe nada sobre o Islã, e isso é muito bom. Como ele não sabe, ele respeita

Talal al-Tinawi

Engenheiro sírio

A Europa tem um problema com o Islã faz tempo, porque lá o Islã cresceu rápido. Aqui, começou a crescer agora. Quando cheguei, tinha nove mesquitas [em São Paulo]. Agora são mais ou menos 34.

Os jornalistas precisam fazer reportagens mais focadas. Falar de um refugiado sírio é bem diferente de falar de um refugiado venezuelano ou haitiano. Cada refugiado tem uma cultura, uma religião bem diferente. Refúgio não é tudo por causa de guerra. Aqui, nem todo mundo que fugiu da Síria precisa de dinheiro, nem todo mundo é pobre. Eu sou engenheiro e conheci muitos engenheiros e doutores. Todos têm diploma, a maioria não consegue [validar]. Eu não consigo. Mas ninguém parou, todo mundo trabalha. Trabalha com Uber, com cozinha, abre uma loja, trabalha com várias coisas.

A mídia não falava muitas coisas [sobre os árabes] antes, agora ela começou —e começou falando errado. Tem aqui um novela na TV que fala sobre vida árabe ["Órfãos da Terra", da Globo]. É tudo errado, 100%. Ela fala como árabe bate em mulher, como a mulher não pode trabalhar, todas as coisas erradas.

O brasileiro não sabe nada sobre mundo árabe. Ele acha que Irã é árabe, que Turquia é árabe. [A mídia brasileira] precisa explicar melhor essa parte do mundo.

Estou tentando não escutar muito as notícias, porque quando você escuta, não consegue fazer nada. Você acha que amanhã todo mundo vai morrer. A economia do Brasil caiu —tudo bem. O presidente fala essas coisas —tudo bem. A prefeitura fala essas coisas —tá. Se você escutar, não vai fazer nada.

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