Cuidado continuado para idosos é tabu e ferida aberta no Brasil

Ninguém está livre de precisar dos cuidados oferecidos nas instituições de longa permanência

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Karla Giacomin

Geriatra, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e vice-presidente do Centro Internacional da Longevidade (ILC) no Brasil ​

A primeira condição para modificar a realidade consiste em conhecê-la.
Eduardo Galeano

O Brasil precisa urgentemente questionar a noção de que envelhecer é uma questão pessoal ou de escolhas. Não é.

Envelhecer é um direito personalíssimo que depende diretamente do acesso a direitos fundamentais: educação, saúde, assistência social, moradia, saneamento, justiça, trabalho, renda, previdência social, paz.

É certo que todos desejamos envelhecer de forma ativa. A questão é que ninguém está livre de precisar de cuidados continuados, inclusive aqueles oferecidos em residências para idosos.

Idosos e crianças brincam em residência para os mais velhos
Pierre Vieren, residente do Orchids Senior Residence, brinca com crianças da creche que funciona no mesmo local; projeto da cidade de Tourcoing, na França, promove interação entre crianças e idosos, que fazem atividades juntos - Lucian Perkins For Orb Media

Contudo, tememos o que desconhecemos. E isso se aplica a instituições de longa permanência. Este é um dos nossos segredos sociais, como diz a antropóloga Guita Debert. Precisamos romper alguns segredos e tabus: e aí, a que distância você está de precisar de cuidados continuados? Se precisar, já pensou se moraria em uma residência para idosos?

Importante dizer que as respostas não dependem do número de filhos: 43% dos idosos institucionalizados têm filhos. A distância da demanda de cuidados talvez possa ser medida em anos de escolaridade: a chance de demandar cuidados é três vezes maior entre os idosos com baixa escolaridade em comparação com os que têm escolaridade superior; entre os mais doentes e os muito idosos.

Talvez a melhor resposta seja: ninguém está livre de precisar de cuidados, mas como responder se nem sequer conhecemos qual é o real déficit e a efetiva cobertura de vagas em residências para idosos?

Recentemente, uma pesquisa da Frente Nacional de Fortalecimento às Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI) mostrou que, na última década, o número de ILPIs no Brasil passou de cerca de 3.500 para pouco mais de 7.000, às custas de um expressivo aumento do número de instituições privadas e da redução da oferta de vagas em ILPIs públicas e filantrópicas.

Isso demonstra a inegável omissão governamental brasileira na oferta de cuidados continuados.

Este é um dos nossos segredos e uma das nossas feridas abertas, que revelam uma sociedade fundada na desigualdade de oportunidades, na banalização da violência, na negação do envelhecimento.

Além disso, quanto menos se conhece uma questão, mais expostos estamos a propagar preconceitos e reforçar estigmas. Por isso é tão fundamental abrir as portas das instituições para a comunidade, apoiar a qualificação do cuidado e da gestão nas instituições para idosos, colocar o residente no centro do cuidado e lutar. Lutar muito para enfrentar políticas idadistas, familistas —que transferem para a família a responsabilidade isolada pelo cuidado dos seus membros— e socialmente excludentes.

Lutar pelo direito a envelhecer com dignidade, amparados por uma política nacional de cuidados continuados, abrangente, intersetorial e universal, da qual a ILPI certamente fará parte, por ser um equipamento imprescindível para as cidades, mas não será mais o bicho papão da hisstória.

Com famílias menores e envelhecimento populacional acelerado, talvez você venha a precisar de cuidados continuados em uma instituição para idosos. E aí, como gostaria que ela fosse?

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