Idadismo tóxico

Publicação de Janaina Paschoal promove preconceito contra idosos

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Alexandre Kalache

Médico gerontólogo, presidente do Centro Internacional de Longevidade no Brasil (ILC-BR)​

São Paulo

Assim se expressou no Twitter, na última sexta-feira (27), a deputada estadual Janaina Paschoal (PSL-SP), não para a surpresa dos que acompanham suas declarações extremadas:

Certamente não estaria pensando em seus próprios pais, se é que tem a ventura de tê-los. Ou talvez sim, “a boca fala do que o coração está cheio” (Lc, 6:25). Portanto, não se pode esperar amor e compaixão de alguém em cujo coração eles não parecem habitar.

Muito embora a deputada se diga cristã incondicional, seu argumento é tóxico, alimenta a desarmonia entre gerações em um momento que tanto precisamos de empatia e solidariedade.

Sua publicação desrespeita a premissa fundamental de que "todas as vidas importam". Por ter sido a deputada mais votada do estado nas últimas eleições, temo que seu posicionamento contamine muitos de seus pares na Assembleia Legislativa.

No centro do debate, está o idadismo. Ainda que preconceito etário possa se manifestar contra qualquer grupo de idade, é inaceitável dar equivalência entre o que alguns jovens experimentam e o idadismo que os idosos enfrentam.

Exemplo: ter um emprego negado por ser ou aparentar ser "muito jovem" acontece. Mas a solução está no simples passar do tempo. Não conheço um caso sequer de alguém jovem a quem tenha sido negado um tratamento médico por ser considerada "jovem demais".

O inverso se dá quando nos confrontamos com o idadismo contra as pessoas idosas. Todos nós, acima de uma determinada idade, nos deparamos com ele. Perca seu emprego aos 47 anos e observe a dificuldade em se reempregar.

E o passar dos anos só aumentará o preconceito. Ouse passar dos 60, 70 anos e confronte-se com as barreiras para acesso a serviços ou tratamentos. A pandemia apenas escancarou o que já sabíamos e era deliberadamente varrido para debaixo do tapete.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou em 18 de março o Relatório Global do Idadismo e cometeu o erro crasso de dar equivalência ao idadismo contra jovens e o idadismo contra idosos. O último tem, com frequência, a morte como desfecho. É tóxico. “E daí?”. “Já viveram”.

Na terça (30 de março), ao falar na ONU a favor da adoção de uma Convenção Internacional em Defesa dos Direitos das Pessoas Idosas, fiz menção às raízes de todo tipo de "ismos": sexismo, racismo, idadismo, LGBTIsmo. São os quatro “Is”:

  1. Ideologia: crença que um grupo é superior a outro (você vale menos).
  2. Institucional: o sistema operacionaliza tal crença (por exemplo, negando uma intervenção a um idoso).
  3. Interpessoal: declarações e piadinhas que apequenam o "outro" e lhes tira a autoestima.
  4. Internalizado: a pessoa acaba aceitando que vale menos que as demais.

Basta de idadismo.

Quando esta pandemia terminar, as pessoas idosas mostrarão o papel fundamental que sempre têm face a qualquer tipo de crise. São elas que, por já terem passado por poucas e boas, podem ver uma luz no final do túnel. Acolhem, abraçam, acalentam uma sociedade traumatizada. Assim foi e sempre será.

Passada a tempestade, são sempre os mais velhos que mostram, por meio de sua resiliência, o caminho. Na cultura de povos africanos, há um ditado: quando morre um idoso é uma biblioteca que se incendeia. Basta de incêndios.

Série discute questões da longevidade

A seção Como Chegar Bem aos 100 é dedicada à longevidade e integra os projetos ligados ao centenário da Folha, celebrado neste ano de 2021.

A curadoria da série é do médico gerontólogo Alexandre Kalache, ex-diretor do Programa Global de Envelhecimento e Saúde da OMS (Organização Mundial da Saúde).

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