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Folha, 100 Como chegar bem aos 100

O que é saúde coletiva?

Sistema de saúde pública exige protagonismo da população para ser eficiente

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Kênio Costa Lima

Médico epidemiologista, diretor do Instituto do Envelhecer e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Para que possamos falar da criação da saúde coletiva, é necessário primeiro compreendê-la. O que é saúde coletiva? de onde vem essa denominação?

No Brasil, o termo é usado preferencialmente em relação à saúde pública e versa sobre a transdisciplinaridade que constitui a saúde (trabalho, educação, transporte, moradia, lazer, justiça, aposentadoria, assistência social, dentre outros), reforçando o seu conceito ampliado.

Foi criada a partir de movimentos europeus de reformas sanitária e médica, que ressaltaram a importância dos fatores sociais para a compreensão dos problemas de saúde. Assim, traz à discussão o caráter coletivo, superando a lógica individual imposta pelas questões médicas, como a medicalização.

Iniciados na segunda metade do século 19 e consolidados após a Segunda Guerra Mundial, esses movimentos são marcos históricos. Originam-se deles os anseios pela compreensão da saúde como parte indissociável do direito à vida.

A partir dessas raízes, constitui-se o marco civilizatório da saúde coletiva, que busca a compreensão dos determinantes sociais da saúde, a causa dos problemas “ditos” de saúde. Em sua essência, é o que nos permite combater as iniquidades.

No Brasil, em meados dos anos 1970, a necessidade da reforma médica e a criação da medicina/saúde comunitária fizeram emergir de modo consistente a crítica ao modelo biológico e assistencial privatista vigente até então.

Essa crítica teve eco nas conferências de saúde, especialmente na oitava edição, em 1986, fruto de um movimento nascido da insatisfação popular com as ações do governo e também do trabalho incansável de estudiosos da área.

Essa insatisfação levou à criação de um sistema único de saúde, que tem como princípios doutrinários a iguladade, a universalidade e a integralidade nos serviços e ações. Ele se organiza sob a égide da descentralização, da regionalização e da hierarquização da rede, além da participação social.

Com a Constituição de 1988 e a criação do Sistema Único de Saúde (SUS), além da Seguridade Social, produz-se o sustentáculo que a saúde coletiva precisava para a incorporação do complexo “promoção-saúde-doença-cuidado”. Assim foi gerado um novo paradigma, que reorienta e torna viável a execução de políticas públicas saudáveis.

Outro eixo central da saúde coletiva relaciona-se com a redução das desigualdades, a alimentação sustentável e a erradicação da pobreza. E ainda educação, trabalho e crescimento econômico, meio ambiente, igualdade de gênero, paz e justiça social.

É o protagonismo da população, sobretudo daqueles sob vulnerabilidades, que escreve o legado da saúde coletiva.

SÉRIE DISCUTE QUESTÕES DA LONGEVIDADE

A seção Como Chegar Bem aos 100 é dedicada à longevidade e integra os projetos ligados ao centenário da Folha, celebrado neste ano de 2021. A curadoria da série é do médico gerontólogo Alexandre Kalache, ex-diretor do Programa Global de Envelhecimento e Saúde da OMS (Organização Mundial da Saúde).

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