Dromedário carrega biblioteca para combater evasão escolar na Etiópia

Projeto da organização Save the Children já contemplou mais de 22 mil crianças

Addis Ababa | Reuters

Fundada há mais de um século na Inglaterra, a organização Save the Children encontrou uma forma criativa de garantir que as crianças da região Somali, na Etiópia, tenham acesso à leitura e continuem a estudar durante a pandemia do coronavírus.

Mais de 20 dromedários carregam caixas de madeira com livros —cada animal leva cerca de 200 volumes. Eles são escoltados por voluntários da organização. A biblioteca móvel transita por mais de 30 vilarejos da região, distantes de grandes centros.

Dromedário carrega caixas de madeira nas costas e crianças seguem ele em uma estrada de terra
Dromedário-biblioteca na região Somali, na Etiópia, norte da África - Alexander Joe/AFP

Os dromedários-bibliotecas surgiram há uma década nesse país do norte da África. Desde então, mais de 22 mil crianças foram contempladas pelo projeto. No entanto, a ação foi intensificada e adaptada nos últimos meses, depois da suspensão das aulas em março.

Os voluntários, normalmente pessoas das próprias comunidades, costumavam armar tendas temporárias que serviam como local de leitura coletiva e estudos em grupo. Hoje, com as recomendações de distanciamento, as crianças retiram os livros e os devolvem na semana seguinte.

Para Ekin Ogutogullari, diretor da Save the Children na Etiópia, um dos principais objetivos do projeto nesse momento é evitar a evasão escolar após a pandemia. Para isso, as passagens dos dromedários-biblioteca buscam oferecer condições para que as crianças continuem a estudar, mesmo longe das salas de aula.

Além das preocupações educativas, como a dificuldade de acesso à leitura, os organizadores do projeto temem que o período longe da escola agrave problemas sérios no país, como o trabalho e o abuso infantis.

Na Etiópia, cerca de 16 milhões de crianças, entre 5 e 17 anos, são forçadas a trabalhar, de acordo com o último estudo nacional sobre o tema, publicado em 2018.
Mahadiya, 13, mora na região Somali e seu vilarejo recebe visitas semanais dos dromedários-bibliotecas.

Ela conta que muitas crianças de sua comunidade —onde secas, enchentes e epidemias são frequentes— começaram a trabalhar nos pastos e a coletar madeira depois da suspensão das aulas.

De acordo com Joan Nyanyuki, diretora-executiva do African Child Policy Forum, a interrupção do ano letivo deixa a população infantil mais vulnerável à violência e à fome, daí a importância de encontrar soluções criativas para que possam prosseguir com os estudos.
Assim, as escolas no país têm um importante papel que vai além da educação: proteger as crianças.

“A dimensão da crise é enorme”, afirma Ogutogullari, diretor nacional da Save the Children, “mas estamos determinados a sanar as necessidades dos mais vulneráveis e garantir que nenhuma criança esteja em uma situação pior após o fim da pandemia.”

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