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Há quase cem anos, evento teve vaias, sapos e maestro de chinelo

'Semana de 22' mudou o jeito que o Brasil fazia sua arte

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São Paulo

Há quase cem anos, vários artistas organizaram um evento que, de tão importante que foi, até hoje é ensinado nas escolas – e explicado em páginas de jornais.

A “Semana de Arte Moderna” aconteceu em uma data igual à de hoje, entre os dias 11 e 18 de fevereiro de 1922, e mudou bastante o jeito brasileiro de escrever livros, tocar música, e pintar quadros e fazer esculturas.

A “Semana de 22”, como ela também ficou conhecida, foi inspirada nos festivais de arte que eram feitos na Europa, continente onde circulava o que havia de mais novo na maneira de artistas trabalharem.

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De acordo com a autora Karina Almeida, Mário de Andrade era muito curioso e inquieto - Reprodução

Um grupo de amigos aqui no Brasil achou legal a ideia de usar o palco do Theatro Municipal de São Paulo para apresentar uma versão nacional destes encontros. Seriam três dias com exposições, poesias e textos sendo recitados, e músicos apresentando suas criações.

Um dos principais artistas deste grupo que inventou a “Semana de 22” se chamava Mário de Andrade. Ele era fotógrafo, professor de música, poeta, e, acima de tudo, uma pessoa muito curiosa e inquieta.

A escritora Karina Almeida fez um livro sobre ele. Lançado em 2020, “Muito Prazer, Sou Mário de Andrade!” (Roça Nova Editora, 88 páginas, R$ 43) é ilustrado por Gabriela Gil, e conta a história deste que foi um dos personagens mais importantes da cultura brasileira.

“Muito inteligente, Mário dedicou o seu trabalho a pensar e valorizar o povo e a cultura brasileira. Descobrir a obra e a vida dele nos ajuda a descobrir mais sobre a gente mesmo enquanto brasileiros e a valorizar a nossa cultura”, explica Karina.

Costuma-se dizer que a “Semana de 22” marcou no Brasil o início de um jeito de fazer arte chamado modernismo. O professor e crítico de arte Tiago Mesquita fala sobre isso: “Não foi a única inauguração do modernismo no Brasil, mas uma delas. Mas o que aconteceu em São Paulo teve um tempero diferente”.

Mas, afinal, o que é o modernismo? Tiago explica que é uma forma que os artistas encontraram de mostrar um Brasil que não aparecia na arte daquela época.

Karina completa dizendo que os artistas modernistas brasileiros queriam encontrar uma arte que tivesse a cara do país onde eles viviam, e que não fosse importada de outro lugar.

“Os artistas também queriam romper com tudo o que já tinha sido feito nas artes plásticas e na literatura. Queriam fazer coisas novas, sem seguir regras antigas que diziam como a arte deveria ser feita. Eles valorizavam o que era brasileiro de verdade e colocavam isso nos quadros, músicas e na nossa literatura”, ensina Karina.

Quando apresentaram estas ideias no evento da “Semana de 22”, não foi todo mundo que aplaudiu os artistas. Pelo contrário, houve uma apresentação que não só não teve palmas, como também se ouviram da plateia algumas vaias, miados e até relinchos.

A “Semana de 22”, aliás, foi cheia de episódios assim curiosos, em que as pessoas demonstravam com muita paixão o que estavam sentindo. “Chocar o público foi uma questão importante”, conta o professor Tiago Mesquita.

O escritor Manuel Bandeira, por exemplo, fez um poema especialmente para o evento, chamado “Os Sapos”. Nele, fazia piada com os poetas da época, que ele achava muito presos às regras de rimas e de tamanhos dos versos.

No dia da sua apresentação, Manuel ficou doente, com uma crise de tuberculose. Seu amigo Ronald de Carvalho foi escolhido, então, para ler “Os Sapos” no teatro no seu lugar. E o que se ouviu foi uma chuva de reclamações de pessoas indignadas com a ousadia do autor do poema.

Outra história que contam é sobre uma das apresentações de Heitor Villa-Lobos, maestro e autor de composições como “O Trenzinho do Caipira”, gravada por Adriana Partimpim.

Dizem que, quando ele subiu ao palco, vestia casaca e tinha em um pé um sapato, e no outro, um chinelo. As pessoas acharam um absurdo, um desrespeito. Depois, Villa-Lobos explicou que aquilo não era uma performance, mas, sim, um jeito de lidar com seu calo inflamado.

No livro "Muito Prazer, Sou Mário de Andrade!", Karina começa a história contando que Mário levou uma chuva de tomates no palco, enquanto tentava ler um poema que criticava os burgueses, pessoas das classes econômicas mais altas.

"Não dá para saber o que é verídico e o que não é, mas o que importa é que a 'Semana de 22' foi um dos momentos mais importantes para as artes no Brasil", finaliza Tiago.

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