Descrição de chapéu Todo mundo lê junto

'Criança não vê diferença, ela vê igualdade', diz Ana Maria Machado

Escritora lança três títulos infantis e dá entrevista sobre literatura e jornais

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São Paulo

Ana Maria Machado aprendeu a ler com os jornais que chegavam todo dia em casa. A autora de livros como “Bisa Bia, Bisa Bel”, “Menina Bonita do Laço de Fita” e “Raul da Ferragem Azul” conta que, quando era pequena, não existiam livros infantis, e que foi pelas páginas de notícias que ela se alfabetizou.

Quando dezembro chegar, Ana Maria vai comemorar 80 anos de vida. Este ano também é importante porque ela acaba de lançar três novos livros, todos pela editora Moderna: “Igualzinho a Mim”, “A História que Eu Queria”, e “O Mesmo Sonho”.

A escritora e jornalista Ana Maria Machado lança três novos livros para crianças - Raquel Cunha/Folhapress

São três histórias diferentes, mas que, cada uma ao seu jeito, falam sobre como as crianças são parecidas. Claro que cada um tem uma cara, uma família, uma casa, um sonho — mas, no fim das contas, todo mundo quer se feliz e amado.

Mas é importante lembrar que os livros de Ana Maria não querem dar lição de nada em ninguém. “A literatura não passa por aí, pelo didatismo”, explica. Para ela, a literatura, assim como os jornais que sempre leu desde criança, é lugar de entretenimento, conhecimento e, claro, diversão.

Esta é uma entrevista com Ana Maria Machado. Leia as perguntas e respostas abaixo.

Como está sua quarentena? Você já tomou a vacina contra o coronavírus?

Fiquei no Rio de Janeiro esse tempo quase todo. Fui rapidamente ao Espírito Santo, fiquei dois meses lá. Aí voltei e tomei a vacina no Rio. Estou esperando a segunda dose.

Do que você mais sente falta durante a quarentena?

Sinto falta de estar com as pessoas, encontrar, estar junto. Sei que sou uma privilegiada, tenho casa, comida, o que por na geladeira. Não fico me queixando. Estou muito preocupada com os outros. Mas sinto falta do contato afetivo.

Você escreveu estes três novos livros agora, ou eles já estavam prontos e você só está lançando?

Os três foram escritos durante a quarentena. Dois deles já vinham muito na minha cabeça. “O Mesmo Sonho”, por exemplo, eu penso nele já há mais de 20 anos. Já tinha começado este livro três ou quatro vezes. E de repente ele veio e saiu. Eles se relacionam e ao mesmo tempo são diferentes.

“O Mesmo Sonho” conta a história do menino Zeca, que quer entender como os sonhos acontecem, e combina de ter um sonho em comum com seus amigos. E “A História que Eu Queria”, fale um pouco dele.

Eu tinha ido a São Paulo, estava na sede da editora com minha amiga Ruth (a escritora Ruth Rocha), festejávamos 50 anos de carreira. Estávamos no elevador da editora, e duas moças que entraram estavam conversando sobre o dia em que a filha de uma delas descobriu o trabalho que ela tinha. E aí a menina falava para a mãe pedir para a editora fazer uma história de princesa, uma de não sei o quê mais. Fiquei com a ideia de cardápio de histórias na cabeça, sobre como as crianças pedem histórias. O livro é sobre repertório infantil, fantasia, criatividade. Vejo que as crianças inventam mundos a partir de uma bobagem, até. E as crianças deste livro inventam o que vão ler. Quando eu era pequena, a mãe de um vizinho nosso veio perguntar para a minha mãe onde ela podia comprar uma ponte igual à que meu irmão tinha. Uma ponte que se transformava em tudo, barricada, estrada, muro. Sendo que essa ponte era só uma tabua que tinha ficado lá em casa. O menino queria um brinquedo que se transformasse naquele tanto de coisas. Até escrevi um livro baseado nisso, chama-se “A Maravilhosa Ponte do Meu Irmão”.

E o “Igualzinho a Mim”?

Este vinha comigo já há algum tempo. Primeiro, era uma história de uma ninhada de patinhos. Daí lembrei que já tinha o Patinho Feio, e eu mesma tinha escrito uma história de patinhos. Aí passei para uma outra versão, que era com uma ninhada de cachorrinhos. Só que ficava comprida demais para eu explicar tudo. Foi quando descobri que ele seria em poesia, que ia ter métrica, aí saiu. Eu queria discutir a noção de que somos parecidos. A criança vê isso, que a gente é igual, mesmo sendo diferente. E ela faz isso com muita naturalidade. No primeiro momento, a criança não vê a diferença, ela vê a igualdade. Depois a sociedade vai mostrando diferenças. A criança fica muito preocupada de ver pobreza, por exemplo. Eu queria trabalhar com esse assunto, enfatizando a igualdade na diferença, e fazendo com que cada um ao ler se pergunte como uma criança tem dois pais, como uma criança não tem ninguém, por que há diferenças de família, de classe social, de temperamento etc.

Ana, você contou que lia jornal desde pequena. Qual a importância de crianças lerem jornais, na sua opinião?

Em casa tinha vários jornais diferentes, e uma gracinha que eu fazia e todo mundo achava bonitinho era que me diziam para ir pegar o Jornal do Brasil, ou o Correio da Manhã, e eu conhecia um por um pelo logotipo. Depois, fui reconhecer pela repetição das letras. Minha mãe me mostrava os sons que a combinação das letras fazia. Quando eles perceberam, eu estava lendo, e a noção é de que ninguém tinha me ensinado. Não existia livro infantil naquela época. Eu estava aprendendo era no jornal. O jornal dá essa intimidade com a palavra, e a intimidade de ver as notícias. A gente lia e ficava sabendo de tudo que estava acontecendo, quem ganhou o jogo de futebol ou a guerra que estava acontecendo no outro canto do mundo. Eu acho que é muito importante ter jornal e a criança se acostumar, porque o jornal é diferente do noticiário da TV, que a gente tem que tomar conhecimento no horário deles, O jornal está ali durante o dia todo, você pode chegar e ler quando quiser. E, aos pouquinhos, você vai descobrindo onde fica cada coisa no jornal. Meus filhos liam primeiro o esporte, enquanto eu lia política e economia. Tem muita coisa variada, jornal é muito variado, e você é dono daquele espaço. Jornal é um espaço de liberdade.


O Mesmo Sonho
Ana Maria Machado e Elisabeth Teixeira. Editora Moderna, 32 páginas, R$ 54.

A História que Eu Queria
Ana Maria Machado e Elisabeth Teixeira. Editora Moderna, 32 páginas, R$ 54.

Igualzinho a Mim
Ana Maria Machado e Maria José Arce. Editora Moderna, 32 páginas, R$ 55.



TODO MUNDO LÊ JUNTO
Texto com este selo é indicado para ser lido por responsáveis e educadores com a criança

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