Descrição de chapéu Todo mundo lê junto

Livro conta a história de menino que tem uma baleia dentro de si

'Menino Baleia' fala sobre autismo na infância, e busca criar empatia

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São Paulo

Não olhe agora, mas aí dentro de você, no meio do caminho entre a sua barriga e o seu peito, existe um mar. É bem provável que você nunca tenha reparado –tem gente que passa a vida todinha sem saber disso. Mas, agora que você descobriu, responda rápido: qual é o animal que nada no seu mar de dentro?

No mar de Roger, um menino pequeno igual a você, quem nada é uma baleia. Por isso que o nome do livro que conta a história dele é “Menino Baleia”. Nas páginas do livro, os leitores ficam sabendo mais sobre a baleia de Roger. Entendem, por exemplo, que ela é enorme, profunda e silenciosa.

Imagem do livro 'Menino Baleia', de Lulu Lima
Imagem do livro 'Menino Baleia', de Lulu Lima - Reprodução

“Menino Baleia” está sendo lançado nesta sexta (2), o Dia Mundial de Conscientização do Autismo. Uma vez por ano, sempre nesta data, pessoas pensam de maneira coletiva sobre maneiras de melhorar a vida de quem nasceu carregando uma baleia dentro –ou com autismo, como preferem dizer os médicos.

O livro foi escrito por Lulu Lima e ilustrado por Natália Gregorini. Ele é baseado na vida de uma pessoa de verdade, o Rafael, um grande amigo de Lulu que demorou muitos anos para descobrir sua baleia.

“Rafael tinha umas histórias de infância que o deixavam muito emocionado, e ele dizia que queria entender por que tinha sofrido tanto. Ele não tinha estas respostas”, conta Lulu.

“Com muito amor e respeito, vi que ele trazia necessidades e comportamentos muito específicos, como a necessidade de isolamento e de silêncio.”

Com 37 anos de idade, Rafael descobriu, ao lado de Lulu, que aquilo tudo que ele sentia tinha um nome.

“Fui pesquisar, e fui chegando na síndrome de Asperger, que é muito difícil de ser identificada na fase adulta. E, quando a gente entendeu, viu um céu se abrir, uma revolução aconteceu”, lembra Lulu.

Ela diz que teve, então, a vontade de escrever a história de Rafael, e para isso emprestou-a ao personagem Roger. Nos desenhos do livro, Roger tem olhos muito grandes e bonitos.

“Ele tem o olhar das crianças e adultos com autismo, que às vezes parece perdido, mas que, ao mesmo tempo, quando você se conecta com ele, ele diz muito”, diz Lulu.

Natália, que fez os desenhos de “Menino Baleia”, explica que escolheu que tanto a baleia quanto Roger seriam transparentes.

“Ele tem contorno, e às vezes um rosa que preenche suas bochechas. Dentro, a cor é a mesma da baleia, a cor do papel.”

“Ela e ele são da mesma matéria. E eu procurei não fazer uma baleia realista, pois esta baleia é a de Roger, ele a criou. Ela só existe neste mundo”, completa Natália.

No meio do livro, acontece a festa de aniversário de Roger. Ele inclusive se pergunta se sua baleia também ficará mais velha. E o que era para ser uma situação alegre se transforma em algo muito difícil para o menino, que sofre com o barulho feito pelos colegas e os balões coloridos deles.

E, para transmitir esta sensação do personagem, Natália caprichou. “A festa é o momento em que tudo foge do controle, inclusive os lápis. Então a sensação pra mim também foi essa, a de perder o controle. Um tanto de medo e um tanto de libertação”, define.

“É a partir desse momento que conhecemos o mar de Roger, e que ele mesmo passa a se conhecer melhor. Então eu sabia que que ser impactante mesmo. E, visualmente, o excesso de cores com traços bem marcados e em direções e intensidades diferentes geram um ‘barulho’ visual, um incômodo, assim como o barulho para Roger.”

Lulu acredita que “Menino Baleia” pode ajudar crianças como Roger é e como Rafael um dia foi – as crianças que têm o que ela chama de “mundo interior diferente”. Para a autora, o livro talvez promova diálogos importantes, em casa e na sala de aula.

“Um diálogo de inclusão”, explica Lulu. “Antigamente a criança autista ficava mais de canto, e hoje as crianças encontram uma forma de se comunicar com este amigo, chamam para a roda, compreendem, o defendem. Acredito nesse movimento de empatia da humanidade”.

“A gente convida cada criança e adulto a visitar seu próprio mar interno e se perguntar quem mora lá. Uma professora usou nosso livro e convidou as crianças a desenhar o animal que mora dentro delas. Pode ser uma grande baleia, podem ser tubarões porque há medos, baús fechados, mas cheios de tesouro. Ou mesmo peixinhos carregando alegrias.”

Para Lulu, “Menino Baleia” serve especialmente para que todos aceitem as diferentes naturezas individuais. “E aceitem que essas naturezas todas fazem parte do mesmo mar”, finaliza.


Menino Baleia. Editora Mil Caramiolas. Lulu Lima e Natália Gregorini. 70 páginas. R$ 52,90.

TODO MUNDO LÊ JUNTO

Texto com este selo é indicado para ser lido por responsáveis e educadores com a criança

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