Produtor acusa rede NBC de ter barrado investigações sobre Harvey Weinstein

Rich McHugh diz que 'altos escalões' da emissora quiseram impedir que história viesse à tona

São Paulo

Um ex-produtor da rede americana de televisão NBC acusa a emissora de ter impedido que ele e o jornalista Ronan Farrow prosseguissem nas investigações dos escândalos sexuais cometidos por Harvey Weinstein. 

Segundo Rich McHugh, que trabalhava na área de jornalismo investigativo do canal e deixou seu cargo há duas semanas, "os mais altos escalões da NBC" ordenaram que os esforços para investigar Weinstein fossem interrompidos. A emissora nega. As informações são do jornal The New York Times. 

Harvey Weinstein depõe à polícia nova-iorquina, em julho de 2018
Harvey Weinstein depõe à polícia nova-iorquina, em julho de 2018 - Seth Wenig/AP

Há muito se estranhava como Farrow, que trabalhava na divisão jornalística da emissora, havia deixado essa história passar e esperado para publicar o caso apenas na revista The New Yorker. 

Segundo a NBC, o material apurado pelo jornalista ainda não estava pronto para ser transmitido quando ele resolveu levar a reportagem para a publicação impressa, dois meses depois.

Já McHugh afirma que o suposto acobertamento envolvendo a cúpula NBC é uma "enorme violação à integridade jornalística". Ele acrescenta que a rede televisiva estava muito "resistente" a veicular o escândalo e que em agosto, dois meses antes de ele vir à tona, a emissora não parecia mais apoiá-la. 

Ele cita como exemplo um caso em que ele e Farrow viajariam até Los Angeles para entrevistar uma suposta vítima de estupro com uma "acusação crível contra Weinstein" e que foi cancelada três dias antes do embarque. 

Noah Oppenheim, presidente da NBC News, afirma que McHugh "nunca foi impedido da forma como insinua." Ele diz que um dos problemas para veicular o caso era a falta de entrevistas gravadas em vídeo. 

"Insistimos que o mínimo é que houvesse ao menos uma vítima ou testemunha com um depoimento que fosse crível e que não fosse anônimo", disse Oppenheim. Ele acrescenta que Farrow não tinha contrato de exclusividade com a NBC. 

A série de reportagens publicadas por Farrow na New Yorker sobre os casos de assédio sexual na indústria foi vencedora do prêmio Pulitzer, o mais importante do jornalismo, compartilhado com o jornal The New York Times, que também publicou uma intensa cobertura sobre o tema.

Outrora poderoso produtor de 65, Weinstein é acusado de ter assediado e estuprado dezenas de mulheres ao longo de três décadas. Entre as vítimas estão Angelina Jolie, Ashley Judd e Gwyneth Paltrow. 

Já Farrow é filho do cineasta Woody Allen e acusa o pai de ter estuprado a própria filha, quando ela era criança.


 

ASSÉDIO SEXUAL

Confira a seguir um resumo sobre os principais casos de assédio sexual e estupro em Hollywood reportados recentemente.

Harvey Weinstein
No caso que foi o estopim para a avalanche de acusações em Hollywood, o outrora poderoso produtor de 65 é acusado de ter assediado e estuprado mulheres ao longo de três décadas. Entre as vítimas estão Angelina Jolie, Ashley Judd e Gwyneth Paltrow. Bob Weinstein, irmão de Harvey, também foi acusado de assédio.

Kevin Spacey
O ator de 58 anos foi acusado pelo colega Anthony Rapp de o ter assediado fisicamente quando a vítima tinha 14 anos. O ator mexicano Roberto Cavazos fez acusações semelhantes. Após as acusações, a Netflix suspendeu a última temporada da série "House of Cards" e afastou o ator do programa, além de cancelar o lançamento do filme "Gore", protagonizado por Spacey.

​​Louis C.K.
O comediante e diretor de 50 anos confirmou as acusações de assédio sexual feitas contra ele por cinco mulheres, publicadas em reportagem do "New York Times". Em dois relatos, o comediante se masturbou em frente a atrizes sem o consentimento delas. Após as denúncias, a estreia do filme "I Love You, Daddy", de Louis C.K., foi cancelada. A Netflix também cancelou a produção de um especial com o comediante.

James Toback
Segundo o "Los Angeles Times", mais de 30 mulheres denunciaram o diretor e roteirista de 72 anos de cometer assédio sexual. Autor da reportagem, Glenn Whipp disse ter sido contatado por 193 mulheres com acusações semelhantes contra Toback, autor do roteiro de filmes como "Bugsy" e "O Apostador".

Roman Polanski
Além de ter estuprado uma garota de 13 anos em 1977, o cineasta franco-polonês de 84 anos também é alvo de, pelo menos, outras quatro acusações contra mulheres menores de idade, entre elas a atriz Charlotte Lewis. Em Paris, uma retrospectiva de sua obra foi alvo de críticas por um grupo feminista.

Dustin Hoffman
O ator que tem hoje 80 anos é acusado de ter assediado sexualmente a escritora Anna Graham Hunter, então com 17 anos, no set do telefilme "A Morte de um Caixeiro-Viajante", em 1985. Ele teria falado de sexo para ela e a apalpado. Hoffman se desculpou e disse que aquilo não "reflete" quem ele é.

Brett Ratner
A atriz Natasha Henstridge diz ter sido forçada a fazer sexo oral no diretor de "A Hora do Rush" e "X-Men: O Confronto Final" nos anos 1990. Além dela, outras atrizes e modelos, como Olivia Munn e Jaime Ray Newman, também relatam casos semelhantes envolvendo ele. Rattner, 48, nega as acusações.

Ed Westwick
O ator conhecido por "Gossip Girl" foi acusado de estupro por Kristina Cohen e Aurélie Wynn. Ele nega. A polícia de Los Angeles abriu investigação sobre o primeiro caso. Com isso, a BBC suspendeu a exibição "Ordeal by Innocence". As gravações já iniciadas da segunda temporada de "White Gold", da Netflix, também foram suspensas.

John Lasseter
O diretor da Pixar e dos filmes "Toy Story" e "Vida de Inseto" decidiu tirar licença de seis meses após admitir erros ligados a condutas de assédio sexual. Colaboradoras reclamaram de um excesso "invasivo" de abraços e outras situações desconfortáveis

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