Filme inédito de Orson Welles mostra 'bagunça coerente' do cineasta

Festival de Veneza exibiu obra que diretor não conseguiu finalizar

Bruno Ghetti
Veneza

Não foram poucos os projetos que Orson Welles (1915-1985) iniciou, mas que, por motivos variados, não conseguiu finalizar em vida. Mas um deles teve tantas complicações durante (e após) as filmagens que ganhou uma aura mítica: “The Other Side of the Wind”, rodado entre 1970 e 1976.

Mas só hoje, 42 anos após a última cena ser filmada, que uma versão finalizada ganhou, enfim, estreia mundial, no Festival de Veneza.

O produtor Filip Jan Rymsza cataloga material de 'The Other Side of the Wind'
O produtor Filip Jan Rymsza cataloga material de 'The Other Side of the Wind' - Divulgação

A versão exibida no Lido mostra que, de fato, existia um material completinho, apenas à espera de uma edição conclusiva. Material caótico, é bem verdade, e que é muito provavelmente o mais experimental que Welles já rodou (mas com tantos filmes não concluídos, como saber?), mas é um filme claramente com início, meio e fim. E que, dadas as complicações da produção, surpreendentemente não passa a impressão de ter sido concluído por outra pessoa, que não aquela que iniciou a montagem, há quatro décadas. “The Other Side of the Wind” pode até ser uma bagunça, mas uma bagunça bastante coerente. E fascinante em sua loucura.

Com os anos, o filme não concluído teve tantas histórias mirabolantes a seu respeito que grande parte dos fatos envolvendo a produção se perdeu em meio à mitologia. Os poucos privilegiados que viam o material bruto tinham versões bem disparatadas; alguns diziam que Welles havia deixado o longa praticamente pronto, enquanto outros afirmavam que apenas alguns minutos de filme havia sido editado. 

Com a morte do cineasta, por várias vezes cogitou-se finalizar o filme, mas sempre algum problema de ordem legal ou financeira impedia a conclusão do longa.

Há dois anos, a Netflix entrou em acordo com a detentora dos direitos, Oja Kodar (viúva de Welles, co-roteirista e atriz) e, após injetar dinheiro, a finalização decolou. A edição final, que tem 122 minutos, ficou a cargo de Bob Murawski, conhecido pelo trabalho em filmes como “Guerra ao Terror”, com supervisão, entre outros, do cineasta (e diretor executivo do filme) Peter Bogdanovich.

A ideia de “The Other Side of the Wind” surgiu no começo dos anos 1960, quando Welles pensou em um roteiro focado na figura de um sujeito inspirado no escritor Ernest Hemingway, mas com muito da história do próprio diretor. Anos depois, insatisfeito, fundiu seu script a outro, assinado por Kodar, e após vários tratamentos chegou à insólita trama apresentada hoje no Lido.

A história é sobre Jake Hannaford (vivido pelo cineasta John Huston), diretor de cinema famoso que, em sua festa de aniversário de 70 anos, exibe para amigos e jovens do mundo do cinema seu novo filme. Ali, em meio a personagens mal apresentados, e uma profusão de perguntas e respostas desencontradas, ficamos sabendo que Jake provavelmente tinha um romance com o ator de seu filme, jovem que abandonou a produção no meio após se desentender com o exigente Hannaford.

O longa já começa a mil por hora: em um flashback (e aí é fácil reconhecer Welles, que tornou o procedimento célebre em “Cidadão Kane”), vemos uma equipe de jovens cineastas mostrando, em um documentário, a história de Hannaford.

Em seguida, uma edição de cenas alucinada mostra pessoas se reunindo para ir à tal festa do diretor, ao mesmo tempo em que, em montagem alternada, vemos a própria equipe de documentaristas tentando entrevistar o lacônico aniversariante em seu carro. E o vai e vem frenético segue até chegarem à festa, quando o filme de Hannaford, em estilo bem diferente, mais contemplativo, erótico, é exibido, dando uma trégua ao espectador. 

Em estilo, “The Other Side” traz bem pouco do que Welles apresentou em seus filmes mais conhecidos. Há, sim, a estrutura em flashback, e às vezes um certo tipo de montagem que o diretor experimentou em trechos de filmes como “Grilhões do Passado” e “Falstaff” (e mais marcadamente ainda em “Verdades e Mentiras”).

O filme dos documentaristas se relaciona ao universo wellesiano também no sentido em que se propõe a mostrar o retrato apaixonado de um homem de personalidade marcante – além, é claro, de falar daquilo que Welles conhecia como ninguém: o cinema. 

Mas fora isso, o longa parece um enorme laboratório para exercícios estilísticos do diretor. Principalmente o filme dentro do filme (o mostrado na festa), em que Welles usa sua câmera com total liberdade. Brinca irresponsavelmente com ela: experimenta, acerta, erra, exagera. Tenta, procura, transita entre o vulgar, o chique, o excessivo. Sem medo. 

A intenção, ao que parece, era fazer uma espécie de sátira ao cinema “artístico” e de poucas falas de Michelangelo Antonioni, com imagens meio abstratas, intuitivas, em que uma bela mulher e um jovem rapaz promovem um libidinoso jogo de gato e rato.

Mas, visto hoje, mais de 40 anos depois, esse filme se parece mais com trabalhos de diretores que imitavam Antonioni, ou os filmes publicitários levemente soft porn da década de 1970. 

A combinação entre os trechos alucinantes das cenas na festa com a do filme adoravelmente setentista por lá exibido por um bom tempo é muito bem dosada, rendendo uma experiência extraordinária, por vezes hipnótica. Mas como toda aposta experimental, o filme a certo ponto sente o peso da própria ousadia: no terço final, perde bastante o fôlego, tornando-se exaustivo. Mas é um filme que, estranhamente e a despeito de sua marca fartamente setentista, não parece “velho”.

Parece apenas apartado no tempo, mas não só o de hoje; provavelmente já seria assim também na época em que foi filmado.

De certo modo, ao ver o filme, descobrimos outro motivo pelo qual o filme jamais foi finalizado: para além de questões legais ou de dinheiro, Welles, no fundo, talvez não quisesse o filme pronto. Ou, ao menos, exibido ao grande público.

Era um material que fez para si, para mostrar a si mesmo suas próprias limitações e sua capacidade de ir além de onde imaginava. Um pudor puramente cinéfilo que, de alguma forma, o cinema respeitou até quando foi possível.

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