Alavancada por reggaeton, noite latina tem barman fardado e aula de dança

Público fiel de imigrantes e brasileiros dança coladinho ao som de ritmos dos países vizinhos em SP

Laura Lewer Isabella Menon
São Paulo

“Castelhano ou português?”, questiona a hostess na entrada do clube El Che, que ocupa o número 284 da rua Marquês de Itu, na República, em São Paulo.

A pergunta revela a dinâmica de uma cena inteira —na capital paulista, o mote da noite latina é o encontro de culturas.

Do lado de dentro, uma mesa de jovens em suas maioridades recentes divide espaço com casais de 50 e poucos anos e um grupo de amigas que bebe copões de mojito. 

No fundinho do salão —sem nenhum item decorativo que remeta ao guerrilheiro argentino que o batiza— um casal formado por um venezuelano e uma brasileira usando lentes de contato coloridas, correntes e crucifixos diz estar ali para ouvir salsa e merengue.

A mistura de referências parece confusa, mas, quando as luzes coloridas, a fumaça e as batidas das músicas ficam mais intensas, imigrantes e brasileiros se unem e dançam coladinhos ao som dos reggaetons, batchatas e cumbias tocados pelos DJs da casa e pela banda venezuelana Salserín, em atividade desde 1993.

A sete quilômetros dali, na Rey Castro, caveiras mexicanas e luzes de néon dançam pelas fotos de Che Guevara e Fidel Castro. A pista da casa noturna da Vila Olímpia, criada há 15 anos, abusa do reggaeton, que desde “Despacito”, lançada em 2017, chegou ao topo das paradas e fez a alegria dos donos das casas latinas.

“Me ligavam para dizer que a fila da Rey Castro estava chegando na Faria Lima”, relembra o sócio-proprietário da casa, Felipe Bellim. O boom já passou, mas, segundo o sócio, deixou uma sólida herança ao atrair um público mais jovem ao local. 

 

Também é o reggaeton que esquenta a tradicional aula de dança. A missão é seguir comandos como “para baixo, para o lado e balancê” do professor para ganhar como prêmio uma dose de tequila. 

 Em meio aos brasileiros que arranham o espanhol, o peruano Bruno Soculaya, 21, arrisca passinhos ao som de “Chantaje”, de Shakira e Maluma. “Adoro festas como essa, são muito parecidas com as que eu costumava ir em Lima”, diz o intercambista.

Esse sentimento de familiaridade é comum e costuma fidelizar os clientes das casas. Na Azucar Club Cubano, baladeiros mais antigos são quase da família e participam até dos eventos de funcionários. 

É de praxe, por exemplo, que o dançarino Vanderlei de Araujo, 52, puxe os mais envergonhados para a pista, rodeada por fotografias feitas pelo cubano Alberto Korda. Fundada no Itaim Bibi no início dos anos 2000, a casa foi impactada por todas as ondas latinas que precederam o reggaeton. 

“O público aumentou com a novela ‘Salsa e Merengue’, da Globo, com a ‘Macarena’, com o Ricky Martin e a Shakira e até com o desfile da Gisele em Cuba para a Chanel”, diz o sócio Juan Troccoli.

O DJ boliviano Pancho Valdéz, 43, da festa Escapate Conmigo, confirma a relação entre o aumento do público e a absorção de elementos dos países vizinhos, caso da parceria entre Anitta e o colombiano J Balvin, por exemplo.

Para ele, o incentivo da prefeitura à cena —como no caso das atrações latinas na Virada Cultural do ano passado— também impulsiona a aproximação. “Somos vizinhos, mas não conversamos”, diz.
Criadora da festa Macumbia, a DJ brasileira Gabriela Ubaldo, 32, concorda. “Festas assim promovem a noção do Brasil como pertencente à América do Sul”, analisa.

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