Integrantes do Hamas assistem ao seriado israelense 'Fauda', diz criador

Disponível na Netflix, produção mostra questão palestina e terá nova temporada

Daniela Kresch
Tel Aviv

Os militantes do grupo islâmico Hamas adoram “Fauda”. É o que garante o jornalista e roteirista israelense Avi Issacharoff, 45, cocriador da série policial (com Lior Raz), sucesso internacional da Netflix, que está em fase de produção de sua terceira temporada —a estreia está prevista para o fim de 2019.

A série, cujo nome significa caos em árabe, relata a ação de uma unidade secreta israelense que opera em territórios palestinos. 

Um dos personagens principais da primeira temporada, Taufiq Hammed (Hisham Sulliman) é um comandante do Hamas, organização considerada terrorista por boa parte da comunidade internacional.

Na segunda temporada, outros membros da facção são fundamentais para o desenrolar da trama.

“Sei o que algumas pessoas do Hamas assistem. Eles falam comigo sobre isso. Alguns membros presos em cadeias de Israel já me pediram links para assistir aos episódios”, disse Issacharoff à Folha.

O coautor de “Fauda” conta ainda que, certo dia, aguardava a chegada de um líder do Hamas para fazer uma entrevista quando um de seus capangas puxou papo e disse: “As coisas não acontecem exatamente assim como está no seriado. Mas é bem parecido”.

“Não tínhamos a ambição de ‘fazer a paz’ entre israelenses e palestinos. Mas acho que quem assiste ao show se pergunta se o cara do outro lado é tão ruim assim. Tenho ouvido isso de palestinos e de israelenses. Por 40 minutos, eles conseguem se pôr no lugar do outro e sentir o que eles sentem. Isso é incrível”, diz.

Até 2015, Issacharoff era conhecido em Israel como um repórter especializado em assuntos palestinos. Mas, a partir do sucesso internacional do seriado, em 2016, passou a ser solicitado por todo o mundo para falar sobre tema. 

A produção já ganhou dezenas de prêmios internos em Israel e, em dezembro de 2017, o New York Times elegeu a obra como o melhor seriado internacional do ano.

O jornalista e roteirista conta que, diariamente, fica sabendo do sucesso da série em algum país—até mesmo nos Emirados Árabes e em outros países do mundo árabe ou muçulmano. 

“Para mim, é uma grande surpresa. Que seria bem sucedido em Israel, já imaginava. Mas no mundo? Acho que conseguimos acertar alguma coisa. É um show honesto, que não tem de roteiristas profissionais e conta com pessoas que usam suas próprias experiências. Parte do segredo aqui é que nós não tentamos julgar ninguém. Isso confunde as pessoas, mas as deixa muito curiosas.”

A terceira temporada, que já está em produção, já tem data para ser exibida em Israel: 19 de outubro de 2019. Na Netflix, deverá passar um ou dois meses depois. 

Issacharoff não quer adiantar detalhes da nova trama, mas dá algumas dicas.

“Só posso dizer que fiquei chocado quando ouvi sobre tudo o que aconteceu recentemente na Faixa de Gaza. Parece muito com o nosso roteiro, que vai se passar nessa mesma vizinhança”, revela.

Ele se refere a uma ação de uma unidade do exército israelense que foi descoberta enquanto realizava uma ação secreta em Gaza. O caso ocorreu no último dia 11 de novembro e quase levou a um novo conflito armado entre Israel e o Hamas. 

Durante a ação, soldados israelenses de origem árabe entraram em Gaza à paisana, mas foram identificados por militantes do grupo.

No tiroteio, um coronel israelense cujo nome é mantido em segredo (identificado pela imprensa do país apenas como “M.”), foi morto. Do outro lado, sete integrantes do Hamas, incluindo o comandante Nour Barake, também morreram.

 “Acho que a realidade é sempre mais forte que a ficção. Está sempre um passo à nossa frente”, considera Issacharoff.

 O jornalista israelense garante que não haverá uma versão americana de “Fauda” e que prefere que ela seja vista nas línguas originais: hebraico e árabe. 

“Por que precisamos de uma versão feita nos Estados Unidos? Acho que há mais abertura hoje no mundo para programas de TV estrangeiros, como ‘A Casa de Papel’”.

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